Planejamento econômico no século 21: Kobori e Rego defendem soberania, reindustrialização e crítica ao neoliberalismo
Em palestra na UFABC, debatedores analisam hegemonia dos EUA, ascensão da China, papel do Estado e os desafios do Brasil diante da nova ordem multipolar
247 – Em palestra na 10ª Semana de Economia da UFABC, os professores José Kobori e José Márcio Rego debateram o tema “Planejamento econômico no século 21”, em uma mesa mediada pela professora Patrícia Helena Cunha. O encontro discutiu geopolítica, democracia, soberania, desenvolvimento industrial e os limites do modelo neoliberal no Brasil.
Kobori abriu sua exposição afirmando que não é possível pensar o planejamento econômico brasileiro sem compreender a mudança da ordem global. Para ele, a política internacional, especialmente sob Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, condiciona as possibilidades de desenvolvimento dos países periféricos.
Hegemonia dos EUA e disputa pelo petróleo
Segundo Kobori, os recentes movimentos militares dos Estados Unidos revelam que a retórica sobre democracia e direitos humanos esconde interesses econômicos e geopolíticos.
"Os Estados Unidos no sistema capitalista, no sistema imperialista, nunca se preocuparam com democracia, nunca se preocuparam com direitos humanos, estão sempre atrás dos seus interesses", afirmou.
Ele sustentou que o petróleo continua sendo elemento central da disputa global. Ao comentar ações contra Venezuela e Irã, Kobori disse que o discurso oficial norte-americano seria apenas uma camada de propaganda.
"No mesmo dia, quando ele anunciou a operação, falou que o interesse deles era petróleo mesmo", declarou.
Dólar, poder militar e crise da ordem global
Kobori recorreu às reflexões de José Luís Fiori, Maria da Conceição Tavares e Giovanni Arrighi para argumentar que o poder global precisa ser exercido continuamente. Em sua avaliação, os Estados Unidos usam a supremacia militar para proteger a hegemonia do dólar.
"O dólar ajudou ele a ser uma supremacia militar. Agora ele está usando a supremacia militar para ajudar a proteger o dólar", afirmou.
Ele também destacou que a China vem reduzindo sua exposição a ativos em dólar e que o Japão segue como peça central no sistema financeiro internacional. Para Kobori, a hegemonia norte-americana não acabará de imediato, mas já apresenta sinais claros de desgaste.
Brasil perdeu soberania fiscal e industrial
Ao tratar do Brasil, Kobori afirmou que o país adotou o Consenso de Washington e abriu mão de instrumentos fundamentais de desenvolvimento. Para ele, o Brasil não possui soberania fiscal plena, tampouco soberania militar ou monetária efetiva.
"O grande problema é que o Brasil abraçou o Consenso de Washington", disse.
Ele criticou o Congresso Nacional, que classificou como majoritariamente conservador e liberal, e afirmou que qualquer mudança estrutural depende de uma nova correlação política.
"Ou a gente coloca um Congresso com parlamentares que pelo menos queiram discutir teoricamente o que a gente pode fazer com a estrutura e o modelo da nossa economia, ou a gente não muda", afirmou.
Estado, indústria e fronteira tecnológica
Kobori defendeu que nenhum país chegou à fronteira tecnológica sem forte participação estatal. Ele citou China, Estados Unidos e Coreia do Sul como exemplos de economias que usaram planejamento, investimento público, educação, ciência, tecnologia e infraestrutura para avançar.
"Não existe nenhum investimento de longo prazo sob riscos de não dar certo que a iniciativa privada vai fazer", disse.
Para ele, o Estado é o único agente capaz de assumir riscos de longo prazo, especialmente em tecnologia, infraestrutura e inovação.
"A gente tem que se reindustrializar, a gente tem que ir para a fronteira tecnológica", afirmou.
José Márcio Rego destaca dependência e hegemonia cultural
José Márcio Rego, por sua vez, ampliou o debate ao destacar não apenas a hegemonia militar e financeira dos Estados Unidos, mas também sua hegemonia cultural. Ele citou o cinema, a música, as universidades e a língua inglesa como instrumentos de influência global.
Rego também recuperou a tradição da CEPAL, de Celso Furtado, Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto, para discutir dependência e desenvolvimento. Segundo ele, a questão central é saber como um país periférico pode superar sua condição dependente mesmo diante da hegemonia imperialista.
Ao citar a Coreia do Sul, Rego afirmou que a história mostrou ser possível realizar o chamado catch up, desde que haja estratégia nacional, política industrial e capacidade de competir no mercado mundial.
Comunicação política e disputa democrática
Na parte final do debate, Kobori foi questionado sobre comunicação política e formação de lideranças progressistas. Ele afirmou que a extrema direita se comunica melhor porque simplifica o discurso e trabalha com afetos negativos, sobretudo o medo.
"A extrema direita consegue se comunicar melhor porque ela simplifica o discurso e trabalha com os afetos. Mas os afetos negativos, eles não trabalham com esperança, eles trabalham com medo", afirmou.
Kobori também defendeu que o campo progressista precisa falar para além de sua própria bolha.
"Não adianta eu ficar falando só com convertido", disse.
Lula, política econômica e limites do modelo
Questionado sobre a política econômica do presidente Lula, Kobori afirmou que o governo atua dentro de uma estrutura neoliberal, mas tenta arrancar concessões em favor das classes populares.
"A política econômica é uma política econômica neoliberal, porque o nosso poder é neoliberal, mas a diferença dos mandatos do presidente Lula e Fernando Haddad como ministro da Fazenda é tentar conseguir concessões do modelo para beneficiar as classes mais baixas", afirmou.
Para ele, Lula é um político de conciliação, não de enfrentamento. Kobori avaliou que a política econômica é o principal ponto vulnerável do governo, mas afirmou acreditar na força política do presidente para disputar a reeleição.
Soberania nacional e mundo multipolar
O debate também abordou defesa nacional, armas nucleares, Irã, BRICS e o novo mundo multipolar. Kobori afirmou que o Irã é peça estratégica por suas reservas de petróleo, sua posição geográfica e sua relação com a China e os BRICS.
Ao analisar o Brasil nesse cenário, ele disse que o país pode estar diante de uma oportunidade histórica, mas tudo dependerá da política interna e da capacidade de construir uma estratégia nacional.
"Aí vai depender da política, da nossa política e da elite", afirmou.


