HOME > Ideias

Plano de Trump mira enfraquecer a ONU e impor uma ordem unilateral dos EUA, diz Ben Norton

Analista geopolítico afirma que Washington abandona organismos multilaterais e tenta criar um Conselho da Paz sob controle exclusivo da Casa Branca

Ben Norton (Foto: Reprodução Youtube)

247 – Os Estados Unidos estariam travando uma “guerra política” contra organizações multilaterais que não conseguem controlar integralmente, em uma ofensiva destinada a enfraquecer a Organização das Nações Unidas (ONU) e substituir o direito internacional por uma lógica de imposição de força. A avaliação é do jornalista e analista Ben Norton, do canal Geopolitical Economy Report, em vídeo publicado no YouTube.

Os argumentos do analista apontam para um cenário de perda relativa de poder do que ele chama de “império dos EUA”, com Washington tentando “arrastar o mundo de volta” para a era unipolar dos anos 1990 e início dos 2000, quando nenhuma potência seria capaz de desafiar a hegemonia norte-americana. Na leitura apresentada, a atual administração de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, teria radicalizado esse movimento, abandonando até mesmo a retórica tradicional de defesa de normas internacionais.

“Não preciso do direito internacional”

Norton sustenta que Trump teria inaugurado um período de “hiperimperialismo”, no qual o governo norte-americano deixa de “fazer concessões discursivas” ao direito internacional e passa a atacar abertamente sua legitimidade. Como exemplo, ele cita declarações atribuídas a uma entrevista de Trump ao New York Times, em janeiro, quando o presidente teria sido questionado sobre planos de “colonizar” Canadá, Groenênlandia e Venezuela.

Segundo o analista, Trump respondeu literalmente: “Eu não preciso do direito internacional.” Em seguida, ao ser perguntado sobre limites ao seu poder, teria afirmado: “A minha própria moralidade, a minha própria mente. É a única coisa que pode me impedir.” Para Norton, a mensagem política seria explícita: a substituição do direito internacional por uma lógica de “lei da selva”, na qual “a força faz o direito”.

Saída de mais de 60 organismos e tratados

O vídeo também destaca que a Casa Branca teria publicado, em janeiro, um memorando anunciando a retirada dos EUA de mais de 60 organizações internacionais, convenções e tratados, sob a justificativa de que seriam “contrários aos interesses dos Estados Unidos”. Norton interpreta essa formulação como um sinal de que Washington rejeita instituições que não pode comandar de forma absoluta.

De acordo com ele, a lista incluiria organismos ligados a desenvolvimento internacional, imigração, direitos humanos, energia e mudanças climáticas, além de diversas instâncias vinculadas diretamente à ONU. O analista afirma que aproximadamente metade das retiradas envolveria estruturas das Nações Unidas, como a Comissão de Direito Internacional.

Embora os EUA ainda não tenham se retirado formalmente da ONU, Norton sugere que esse passo pode se tornar o próximo movimento. Ele menciona ainda que, em 2025, o governo Trump já teria retirado o país da Unesco, e que, no ano anterior, também teria abandonado a Organização Mundial da Saúde (OMS), o que, em sua avaliação, ampliaria o isolamento internacional de Washington.

“Conselho da Paz”: alternativa à ONU sob comando exclusivo dos EUA

Um dos pontos centrais do vídeo é a denúncia de que Trump estaria tentando construir uma infraestrutura internacional paralela, totalmente subordinada aos interesses norte-americanos. Norton cita como exemplo a criação de um órgão chamado “Board of Peace”, anunciado durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, em janeiro.

Para o analista, trata-se de uma tentativa direta de criar uma “concorrente” da ONU, porém sem qualquer caráter multilateral. Ele afirma que o desenho institucional desse conselho garantiria poder exclusivo aos EUA, sem direito de veto ou influência real para outros países.

Norton chama atenção para o simbolismo do logotipo criado para o “Board of Peace”, que, segundo ele, teria sido modelado a partir do emblema da ONU. A diferença, porém, seria explícita: enquanto o símbolo das Nações Unidas inclui o planeta inteiro, o logotipo do novo órgão mostraria apenas a América do Norte e uma pequena parte da América do Sul, reforçando a ideia de um projeto de dominação regional e global centrado em Washington.

A “desculpa” de uma resolução e a ausência de Gaza no estatuto

O analista afirma que a justificativa formal para a criação do “Board of Peace” teria sido uma resolução do Conselho de Segurança da ONU aprovada em 2025, relacionada à administração de Gaza após a destruição do território por Estados Unidos e Israel.

No entanto, Norton destaca que o estatuto publicado pelo governo Trump para o novo órgão não mencionaria Gaza sequer uma vez. Para ele, isso evidenciaria que a resolução teria sido usada apenas como pretexto para esvaziar a ONU e deslocar o centro de decisões internacionais para um mecanismo sob controle unilateral norte-americano.

Quem compõe o comando do novo órgão

Norton também critica a composição do “conselho executivo” do “Board of Peace”, alegando que ele seria dominado por autoridades norte-americanas e aliados diretos de Trump. Entre os nomes citados no vídeo estão o secretário de Estado Marco Rubio, o enviado especial Steve Witkoff e o assessor Robert Gabriel, descrito como vice-conselheiro de Segurança Nacional.

O analista menciona ainda a presença de Jared Kushner, genro de Trump, e de Tony Blair, ex-primeiro-ministro do Reino Unido, classificado por ele como “criminoso de guerra” pela participação na invasão do Iraque ao lado de George W. Bush.

Outro integrante citado é o bilionário Mark Rowan, CEO da gestora Apollo Global Management, descrito como próximo de Trump e associado, segundo Norton, a esforços para influenciar universidades nos EUA e disseminar propaganda de direita. Também é mencionado Ajay Banga, presidente do Banco Mundial, instituição na qual, segundo o analista, os EUA já exercem poder de veto.

Pouca adesão internacional e exclusão da África subsaariana

No vídeo, Norton sustenta que a iniciativa teria atraído apoio limitado no cenário global. Entre os países citados como participantes estariam a Argentina sob Javier Milei, além de aliados tradicionais dos EUA como Egito, Arábia Saudita, Paquistão e Turquia.

Ao mesmo tempo, ele destaca que potências como China, Índia e Rússia não teriam aderido ao projeto. Norton afirma ainda que não teria havido convite a países da África subsaariana, o que, segundo ele, revela desprezo estratégico por uma região com cerca de 1,5 bilhão de habitantes e crescimento demográfico acelerado nas próximas décadas.

O analista argumenta que essa exclusão reforçaria a percepção de que Washington enxerga o continente apenas como fonte de recursos minerais a serem explorados, e lembra declarações ofensivas feitas por Trump durante seu primeiro mandato sobre nações africanas.

China reage e reafirma defesa da ONU e da soberania

Norton afirma que o governo chinês teria criticado publicamente a tentativa de Trump de substituir a ONU. Segundo ele, um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China declarou que Pequim “defende firmemente” um sistema internacional centrado nas Nações Unidas, com base no direito internacional e nos princípios da Carta da ONU.

No vídeo, o analista sustenta que a posição chinesa se apoia na defesa da soberania e da não interferência em assuntos internos, em contraposição ao que ele chama de “ordem baseada em regras” promovida pelo Ocidente, na qual as potências ocidentais definiriam unilateralmente quais normas devem prevalecer.

A cobrança de US$ 1 bilhão e o controle vitalício de Trump

Um dos trechos mais polêmicos abordados por Norton é a denúncia de que Trump buscaria impor uma taxa bilionária para garantir permanência no “Board of Peace”. Segundo ele, a Bloomberg teria revelado que países interessados em obter status permanente no órgão teriam de pagar ao menos US$ 1 bilhão, valor que ficaria sob controle dos EUA.

O analista afirma ainda que o estatuto do conselho definiria Trump como “presidente inaugural vitalício”, com poder para decidir quem entra, quando o órgão se reúne, quais temas serão discutidos e até mesmo quem pode ser expulso.

Para Norton, esse modelo representaria a institucionalização de um sistema de chantagem e coerção, no qual a adesão ao novo mecanismo dependeria da submissão direta ao governo norte-americano.

O caso Canadá e a pressão contra acordos com a China

O vídeo também menciona um episódio envolvendo o Canadá. Norton afirma que o primeiro-ministro Mark Carney teria aceitado o convite para integrar o “Board of Peace”, mas que Trump teria retirado a oferta poucos dias depois, em protesto contra uma viagem de Carney à China.

Segundo ele, o premiê canadense teria sido o primeiro a visitar Pequim desde 2017 e teria firmado um acordo para aprofundar relações comerciais, incluindo a retirada de tarifas sobre veículos elétricos chineses, medidas que, de acordo com o analista, haviam sido adotadas anteriormente sob pressão dos EUA.

Norton afirma que, após a decisão canadense, Trump teria reagido com ameaças de tarifas de 100% sobre o Canadá, um dos principais parceiros comerciais dos Estados Unidos, como forma de impedir um acordo com a China.

A ofensiva contra o direito internacional e o impacto no Sul Global

Ao final, Norton argumenta que a ofensiva contra o direito internacional atinge especialmente países do Sul Global, que enxergariam na ONU e na Carta das Nações Unidas uma proteção mínima contra intervenções externas. Para ele, apesar das falhas e do peso histórico do Ocidente nas estruturas multilaterais, o sistema atual ainda preservaria princípios fundamentais como soberania nacional e não interferência.

O analista sustenta que a alternativa defendida por Trump seria ainda mais perigosa: um mundo regido pela imposição direta de uma única potência, sem freios institucionais, com capacidade de pressionar governos, derrubar soberanias e impor decisões por força econômica, militar e política.

Norton conclui que Trump teria “tirado a máscara” do imperialismo norte-americano, expondo intenções de dominação global de forma aberta. Ele encerra o vídeo agradecendo ao público e reforçando que seguirá acompanhando o tema em seu canal.

Artigos Relacionados