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Ben Norton diz que ataque dos EUA à Venezuela integra plano maior para impor hegemonia sobre a América Latina

Analista aponta que estratégia de segurança de 2025 do governo Trump prevê controle de minerais críticos e pressão para romper laços com a China

Bandeiras dos EUA e da China em foto de ilustração - 10/04/2025 (Foto: REUTERS/Dado Ruvic)

247 – O jornalista e analista Ben Norton afirmou, em uma postagem nas redes sociais, que o ataque dos Estados Unidos à Venezuela deve ser entendido como parte de uma ofensiva imperial mais ampla contra toda a América Latina. Segundo ele, a ação militar não seria um episódio isolado, mas sim a aplicação prática de um plano delineado na Estratégia de Segurança Nacional de 2025 do governo do presidente Donald Trump, que busca consolidar a hegemonia de Washington em todo o hemisfério ocidental.

Na publicação, Norton sustenta que a Casa Branca estaria tentando reviver a lógica da Doutrina Monroe — atualizada, na retórica contemporânea, como “Donroe Doctrine” — para reafirmar o continente como zona de influência exclusiva dos EUA, o que implicaria, na prática, pressionar governos latino-americanos a se alinharem a Washington e a restringirem relações econômicas e estratégicas com a China.

“Plano do império” e controle de recursos naturais

O ponto central destacado por Norton é a disputa por recursos estratégicos. Ele afirma que o objetivo do governo Trump seria garantir que corporações norte-americanas controlem as riquezas naturais essenciais da região — com foco em minerais críticos e terras raras — além de moldar uma nova cadeia produtiva “no hemisfério ocidental” que exclua a China.

Norton argumenta que essa reorganização econômica não estaria vinculada a um retorno real de empregos industriais aos EUA, mas sim a uma estratégia de deslocar parte da manufatura para países latino-americanos, explorando mão de obra mais barata. Ele cita que a estratégia oficial reconheceria essa tendência ao propor o “near-shoring”, isto é, a transferência de fábricas e cadeias de suprimento para países próximos dos EUA, em vez de trazê-las de volta ao território norte-americano.

Na avaliação do analista, essa mudança teria um duplo propósito: garantir insumos e peças para a indústria militar dos EUA em um cenário de preparação para possíveis conflitos futuros com Pequim e, ao mesmo tempo, acelerar uma tentativa de “desacoplamento econômico” da China, substituindo fornecedores chineses por cadeias centradas na América Latina.

Infraestrutura como alvo e pressão contra investimentos chineses

Outro eixo da postagem é o controle de infraestrutura estratégica. Norton afirma que Washington pretende dominar portos, corredores logísticos, telecomunicações e outras estruturas essenciais do continente, criando um ambiente em que países da região sejam pressionados a reduzir ou vender investimentos chineses.

Ele cita o caso do Panamá como exemplo de como essa pressão poderia operar. Segundo Norton, Trump já teria forçado o país a pressionar uma empresa de Hong Kong que controlava portos nas imediações do Canal do Panamá a vender esses ativos para a gigante financeira BlackRock. O analista acrescenta que o mesmo tipo de iniciativa pode ser direcionado ao porto de Chancay, no Peru, descrito por ele como uma das obras logísticas mais importantes da região e construído com forte presença chinesa.

Para Norton, o método de Washington pode incluir desde ameaças econômicas até chantagem política, levando governos latino-americanos a impor restrições a investimentos chineses em infraestrutura e energia. Em sua leitura, essa ofensiva representa uma espécie de “Guerra Fria 2.0”, movida por uma obsessão estratégica de impedir a consolidação da presença chinesa no continente.

Rubio, BRI e governos “fantoche”

Norton também relaciona esse movimento à atuação do secretário de Estado Marco Rubio, apontando que, em sua primeira viagem ao exterior, Rubio foi ao Panamá com a intenção de enquadrar o país na estratégia de “contraposição à China”. O analista afirma que a meta dos EUA seria aumentar a pressão sobre governos latino-americanos para que se afastem da Iniciativa Cinturão e Rota (BRI), a grande plataforma internacional de infraestrutura patrocinada por Pequim.

Ele cita Honduras como um caso emblemático e sustenta que Trump teria interferido nas eleições de 2025, apoiando o que chama de “golpe eleitoral”, com o objetivo de instalar um governo alinhado a Washington. Na leitura de Norton, esse novo governo hondurenho tenderia a romper relações diplomáticas com a China e a servir como base para ações contra a Nicarágua.

A postagem também afirma que, após a ofensiva contra a Venezuela, Trump e Rubio buscariam repetir estratégias semelhantes de mudança de regime contra Nicarágua e Cuba, países que Rubio, segundo Norton, trataria como alvos históricos de uma cruzada política antissocialista.

Eleições em 2026: Brasil e Colômbia no radar

Ao ampliar o horizonte, Norton afirma que o objetivo final seria estabelecer governos de direita submissos aos interesses de Washington e de Wall Street em toda a América Latina, facilitando a privatização de ativos nacionais e a submissão econômica.

Ele menciona duas eleições consideradas decisivas em 2026 — Colômbia, em maio, e Brasil, em outubro — e afirma que seria “garantido” que o governo Trump tentará interferir nelas para favorecer candidaturas alinhadas aos EUA, em um movimento semelhante ao que, segundo ele, já ocorreu em outros países da região.

Norton também cita o México, argumentando que Trump teria ameaçado bombardear o país, apesar de o governo mexicano — descrito como popular, de esquerda e independente — rejeitar tais ameaças como ataque direto à soberania nacional.

Democracia sob cerco e crítica à retórica ocidental

A conclusão da postagem é uma crítica frontal ao discurso ocidental sobre “democracia”. Norton afirma que é impossível falar em democracia real quando a maior potência militar do planeta interfere sistematicamente em eleições, promove sanções, incentiva golpes e recorre à força contra governos que não se alinham a seus interesses. Em sua avaliação, “a verdadeira democracia é impossível enquanto o imperialismo existir”.

Ao apresentar o ataque à Venezuela como parte de uma engrenagem maior, o analista sugere que o que está em disputa é a redefinição estratégica do continente diante da ascensão chinesa, colocando a América Latina no centro de uma nova etapa da confrontação global entre Washington e Pequim — com consequências profundas para a soberania e o futuro político da região.

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