Sachs acusa EUA e Israel de buscar “mudança de regime” no Irã e alerta para risco de guerra regional
Economista diz que ofensiva é “agressão premeditada”, critica aliados europeus e afirma que escalada pode ter “reações em cadeia” pelo mundo
247 – A escalada militar envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos ganhou contornos explosivos após ataques atribuídos a Washington e Tel Aviv e uma retaliação iraniana descrita como ampla, atingindo bases e alvos norte-americanos na região, além de cidades em Israel. O cenário, segundo o economista Jeffrey Sachs, é o início de uma sequência perigosa de “reações em cadeia” com potencial de desestabilização global.
As declarações foram feitas por Sachs em entrevista concedida ao professor Glenn Diesen, publicada no YouTube, em conversa sobre o que ele chama de “guerra lançada contra o Irã”. No diálogo, o economista sustenta que havia sinais de negociação em andamento e que, ainda assim, a ofensiva ocorreu, o que ele interpreta como evidência de uma estratégia deliberada de confronto.
Negociações, ataque e retaliação
Ao comentar a informação de que um acordo estaria próximo antes do início dos ataques, Sachs foi categórico ao rejeitar a narrativa de ameaça iminente por parte de Teerã.
“Isso não tem nada a ver com ameaça iminente, provocações ou armas nucleares. Na verdade, trata-se apenas de hegemonia e mudança de regime, hegemonia regional por Israel e hegemonia global pelos Estados Unidos”, afirmou.
Segundo ele, o objetivo declarado da ofensiva seria a derrubada do governo iraniano. “O objetivo é declarado. É uma mudança de regime. Esse tem sido um sonho israelense há 30 anos”, disse, acrescentando que a estratégia envolveria a consolidação da hegemonia militar de Israel no Oriente Médio com respaldo dos Estados Unidos.
Para Sachs, a resposta iraniana considerada “firme” deve ser compreendida nesse contexto. Ele argumenta que o país não estava à beira de lançar um ataque, mas sim envolvido em negociações. “Falo frequentemente com iranianos. Eles estavam não apenas prontos para negociar, como já haviam negociado todos esses arranjos há dez anos”, declarou.
“Agressão premeditada” e crítica à legalidade
O economista classificou a ação militar como uma “agressão premeditada sem qualquer justificativa do tipo que o governo dos EUA apresentou”. Ele também questionou a base legal da decisão, afirmando que não houve autorização do Congresso norte-americano.
“Acabamos de ter uma guerra declarada por uma pessoa no meio da noite, contra a opinião pública. Portanto, não somos uma democracia”, afirmou, em crítica direta ao sistema político dos Estados Unidos.
Ao comentar o discurso do presidente Donald Trump — atual presidente dos Estados Unidos — Sachs disse que a retórica reforça uma visão de restauração da “dominância do Ocidente”. Ele também mencionou declarações de integrantes do governo que, segundo ele, teriam admitido estratégias de “pressão máxima” para enfraquecer economicamente o Irã.
“A ideia era derrubar a moeda, criar escassez de dólares, fazer os bancos falirem e levar as pessoas às ruas. Isso não são protestos espontâneos. É uma operação de mudança de regime”, declarou.
Aliados ocidentais e silêncio europeu
Sachs também criticou a postura de aliados dos Estados Unidos, como Canadá, Austrália e países da União Europeia, que, segundo ele, não apresentaram críticas públicas à ofensiva.
“Você tem um ataque descarado, premeditado, extraordinariamente violento contra o Irã, e a Europa se levanta e diz ‘muito bem’”, afirmou.
Para ele, parte desse alinhamento estaria ligada a fatores geopolíticos, militares e domésticos, incluindo o peso de alianças estratégicas e interesses internos. Ainda assim, o economista classificou a ausência de condenações como “chocante” e disse não ter visto “uma palavra crítica” até o momento da entrevista.
Risco de escalada global
Ao analisar os possíveis desdobramentos, Sachs rejeitou a ideia de uma vitória estratégica rápida. Ele citou precedentes como Iraque, Afeganistão, Líbia e Síria para sustentar que intervenções desse tipo costumam gerar instabilidade prolongada.
“Quase dou probabilidade zero a uma vitória estratégica”, afirmou, acrescentando que o Irã é “um país de 100 milhões de pessoas, com 5 mil anos de história” e que não seria controlado externamente sem presença direta no território.
O economista alertou ainda para o risco de ampliação do conflito. “Estamos nas primeiras horas de algo que terá reações em cadeia pelo mundo”, disse. Em um dos trechos mais contundentes, afirmou: “Trump acendeu um pavio que é completamente explosivo e vai explodir em muitos lugares do mundo”.
Apesar do pessimismo, Sachs apontou uma possível via de contenção: a mobilização internacional em defesa do direito internacional e da Carta das Nações Unidas.
“A esperança não está em Trump. A esperança não está em Netanyahu. A esperança é que a maior parte do mundo diga que isso é completamente ultrajante, perigoso e ilegal”, concluiu.


