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Mercadante defende Estado forte e neoindustrialização no BNDES

Presidente do banco destacou transição verde, integração latino-americana e formação de gestores públicos no Rio

Aloizio Mercadante (Foto: André Telles/BNDES)
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247 - O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, defendeu nesta quinta-feira (21), no Rio de Janeiro, o papel estratégico do Estado, a transição verde e a neoindustrialização como caminhos para o desenvolvimento da América Latina. Em aula magna na Escola de Governo e Desenvolvimento Maria da Conceição Tavares, ele destacou investimentos de R$ 29 bilhões no Rio Grande do Sul, uma linha de R$ 30 bilhões para motoristas de aplicativos e taxistas e a formação de uma turma com 66 participantes de mais de 15 países.

A aula de Mercadante abriu o quarto dia da programação da segunda edição da Escola Maria da Conceição Tavares, iniciativa do BNDES em parceria com a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). 

Mercadante afirmou que o Brasil e os países latino-americanos precisam fortalecer a capacidade de planejamento público para enfrentar desigualdades, crise climática e desafios tecnológicos. Para ele, a região deve formar gestores com preparo técnico, compromisso social e visão estratégica.

“Os servidores públicos são essenciais para a qualidade dos serviços e para qualquer projeto de desenvolvimento”, afirmou. “Precisamos formar quadros preparados para pensar o Estado e agir com soluções concretas”.

O presidente do BNDES também defendeu maior cooperação entre países da América Latina e do Caribe. Segundo ele, a Escola busca criar uma rede permanente entre gestores públicos para compartilhar experiências, formular políticas e ampliar a integração regional.

Ao tratar do legado de Maria da Conceição Tavares, Mercadante afirmou que a economista ajudou a construir um pensamento desenvolvimentista próprio para a América Latina, com foco na soberania regional e na superação das desigualdades.

Na análise sobre os modelos globais de crescimento, Mercadante criticou a tese do “Estado mínimo” e defendeu equilíbrio entre Estado e mercado. Ele citou economias asiáticas, especialmente a China, como exemplos de países que combinaram planejamento estatal, inovação e dinamismo econômico.

“O desenvolvimento exige planejamento, investimento público e instituições fortes”, ponderou. “O mercado, sozinho, não resolve desafios estruturais, especialmente em países de industrialização tardia como os da América Latina”.

A agenda climática ocupou parte central da aula. Mercadante destacou o papel do BNDES no financiamento de ações emergenciais e estruturais, como o apoio de R$ 29 bilhões ao Rio Grande do Sul após as enchentes. Ele também citou a criação de uma diretoria voltada a desastres naturais.

O presidente do banco defendeu fundos internacionais permanentes para apoiar países atingidos por eventos extremos e reforçou a importância de políticas de prevenção, monitoramento e reconstrução econômica.

Na área de transição energética, Mercadante afirmou que o Brasil tem posição estratégica por sua matriz renovável e pelo potencial dos biocombustíveis, como etanol e biodiesel. Ele também mencionou iniciativas em combustíveis sustentáveis de aviação e tecnologias de mobilidade de baixo carbono.

Mercadante voltou a defender uma política de neoindustrialização para a América Latina, com foco em inovação, agregação de valor e sustentabilidade. Ele citou a Nova Indústria Brasil e investimentos do BNDES em saúde, inteligência artificial, mobilidade, economia verde e minerais críticos.

“O desafio não é apenas extrair recursos, mas desenvolver cadeias produtivas completas e inovadoras”, observou.

O presidente do BNDES também anunciou medidas de inclusão econômica, entre elas uma linha de financiamento de R$ 30 bilhões para motoristas de aplicativos e taxistas comprarem veículos em condições facilitadas. A iniciativa busca reduzir custos, elevar renda e estimular a transição para modelos menos poluentes.

Na segurança pública, Mercadante defendeu o uso de tecnologia e inteligência artificial para criar “cidades inteligentes”, com sistemas de monitoramento e análise de dados voltados à prevenção e ao combate ao crime organizado.

No campo internacional, ele defendeu o multilateralismo, a cooperação entre países em desenvolvimento e acordos comerciais baseados em regras. Mercadante também criticou práticas unilaterais no comércio global e reforçou a necessidade de integração latino-americana por meio de investimentos em infraestrutura, energia e cadeias produtivas regionais.

A Escola Maria da Conceição Tavares reúne 66 participantes, sendo 33 brasileiros e 33 de outros países da América Latina e do Caribe. A etapa presencial no Rio ocorre entre 18 e 22 de maio. A fase online está prevista para junho a setembro de 2026, e a etapa final será realizada na sede da Cepal, em Santiago, em data ainda a definir.

Ao abrir a segunda turma, a diretora Socioambiental do BNDES, Tereza Campello, defendeu a retomada do papel do Estado no desenvolvimento regional. “Não enfrentaremos esses desafios com um Estado ausente ou fraco”, afirmou. “Estamos diante da necessidade de retomar o papel do Estado na agenda do desenvolvimento socioeconômico, a partir da nossa realidade latino-americana”.

Tereza Campello também afirmou que o debate climático não deve se limitar à transição energética. “Muitas vezes somos levados a pensar a crise climática a partir dos paradigmas colocados para o Norte global”, observou. “Se partirmos apenas do carbono-equivalente, nunca conseguiremos aproveitar o potencial de desenvolvimento que a América Latina e o Caribe possuem como portadores de futuro nas soluções baseadas na natureza”.

A diretora da Cepal no Brasil, Camila Gramkow, afirmou que a construção de respostas regionais “passa pela formação de lideranças diversas e pelo diálogo entre países, instituições e trajetórias distintas”.

A programação reúne nomes como José Antonio Ocampo, Esther Dweck, Daniel Olesker, Celso Amorim, Carlos Nobre, Uma Rani, Ha-Joon Chang e Antonio Andreoni. Inspirada em Maria da Conceição Tavares, a escola combina formação teórica, instrumental e aplicada para discutir propostas de desenvolvimento econômico, social e ambiental na América Latina e no Caribe.

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