Tarifaço de Trump eleva custos e derruba emprego na indústria dos EUA
Queda de 72 mil vagas nas fábricas expõe efeitos negativos do protecionismo adotado pelo presidente dos Estados Unidos
247 - Ao elevar as tarifas de importação aos níveis mais altos desde a Grande Depressão, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou no início do ano passado uma estratégia que, segundo ele, recolocaria a indústria americana no centro da economia global. Em abril, ao batizar o pacote de medidas como “Dia da Libertação”, Trump afirmou que empregos e fábricas voltariam “rugindo” para o país. Quase um ano depois, os números mostram um cenário bem diferente.
De acordo com reportagem do The Washington Post, o emprego na indústria de transformação caiu em todos os meses desde o anúncio das tarifas. Atualmente, as fábricas dos Estados Unidos empregam 12,7 milhões de pessoas, cerca de 72 mil a menos do que no momento em que o presidente fez a promessa pública de retomada industrial.
Economistas apontam que as próprias tarifas acabaram se tornando um obstáculo para o setor que deveriam proteger. Isso ocorre porque aproximadamente metade das importações americanas é composta por bens intermediários, fundamentais para a produção doméstica. Insumos como alumínio, componentes eletrônicos e peças industriais ficaram mais caros, pressionando os custos de empresas que dependem dessas cadeias globais de suprimento.
O impacto é visível em segmentos específicos. A indústria automobilística e de autopeças perdeu cerca de 20 mil postos de trabalho desde abril. Para o economista Michael Hicks, diretor do Centro de Pesquisa em Negócios e Economia da Universidade Ball State, em Indiana, o desempenho fraco não pode ser dissociado da política comercial adotada. “2025 deveria ter sido um bom ano para o emprego industrial, e isso não aconteceu. Acho que é preciso responsabilizar as tarifas por isso”, afirmou.
A instabilidade das decisões do governo também tem pesado mais sobre pequenas e médias empresas. Pesquisa realizada em novembro pelo Federal Reserve de Richmond mostrou que 57% dos fabricantes médios e 40% dos pequenos afirmaram não ter previsibilidade sobre seus custos de insumos, reflexo direto do vaivém tarifário. Entre grandes empresas, esse percentual foi de 23%. O levantamento indicou ainda que companhias menores foram mais de duas vezes mais propensas a adiar investimentos em novas fábricas e equipamentos.
Setores de maior complexidade tecnológica também enfrentam perdas relevantes. Gary Winslett, diretor do programa de política e economia internacional do Middlebury College, destacou que áreas como aeronáutica e semicondutores têm sido atingidas de forma desproporcional. “São eles que precisam dos insumos importados. A manufatura realmente avançada é a que está sendo mais duramente atingida”, disse. Desde abril, fabricantes de semicondutores cortaram mais de 13 mil empregos.
Especialistas ressaltam, no entanto, que as tarifas não explicam sozinhas o enfraquecimento do emprego industrial. As folhas de pagamento das fábricas começaram a cair ainda no início de 2023, no período pós-pandemia, antes do retorno de Trump à Casa Branca. Juros elevados, com empréstimos custando mais que o dobro de quatro anos atrás, e mudanças no padrão de consumo também pressionam o setor. Após a corrida por bens duráveis durante a pandemia, os consumidores passaram a direcionar gastos para serviços presenciais, como restaurantes e entretenimento.
Cortes pontuais de postos de trabalho vêm sendo registrados em diferentes segmentos. Em dezembro, a Westlake, empresa de produtos químicos industriais sediada em Houston, anunciou a paralisação de quatro linhas de produção na Louisiana e no Mississippi, colocando 295 funcionários em licença. Em teleconferência com investidores, executivos citaram excesso de capacidade global e demanda fraca como justificativa.
Apesar do desempenho negativo do emprego, dados do Federal Reserve indicam que a produção industrial cresceu em 2025, atingindo o nível mais alto em quase três anos. Integrantes do governo defendem que os efeitos positivos da política industrial ainda levarão tempo para aparecer. Segundo autoridades, as tarifas e a pressão direta de Trump estariam incentivando executivos a investir em novas fábricas nos Estados Unidos, somadas a incentivos fiscais que permitem a dedução acelerada de gastos com equipamentos, pesquisa e desenvolvimento.
Os investimentos em construção de fábricas mais do que triplicaram em relação ao início do primeiro mandato de Trump, embora permaneçam abaixo do pico registrado durante o governo Biden. No ano passado, a Casa Branca destacou anúncios de investimento de empresas como Stellantis e Whirlpool. Mais recentemente, a T. RAD North America, subsidiária de um grupo japonês, anunciou planos para uma nova fábrica de autopeças no Tennessee, com previsão de 928 empregos.
Para Nick Iacovella, porta-voz da Coalition for a Prosperous America, entidade que apoia as políticas industriais do governo, a queda de cerca de 1% no emprego industrial no último ano é menos significativa do que o avanço do investimento. “Vimos um crescimento significativo nos gastos de capital, que é o sinal mais precoce de que a reindustrialização está ganhando tração. Esses investimentos levam tempo para serem licenciados, construídos e ocupados antes de aparecerem nos dados de emprego”, afirmou.
Ainda assim, a promessa de recuperar em larga escala os empregos industriais confronta uma tendência histórica. As vagas em fábricas nos Estados Unidos atingiram o pico de 19,5 milhões em 1979 e vêm diminuindo desde então, em grande parte devido à automação. Nos últimos anos, tanto Trump quanto Joe Biden tentaram impulsionar a produção doméstica por caminhos distintos, mas os resultados foram instáveis. No discurso feito nesta terça-feira (13) no Detroit Economic Club, Trump voltou a exaltar o desempenho econômico. “O boom econômico de Trump começou oficialmente”, declarou o presidente dos Estados Unidos. O avanço dos empregos industriais, porém, segue sendo o elo mais frágil dessa narrativa.


