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Tarifaço dos EUA ameaça máquinas, têxteis e pescados

Máquinas, têxteis e pescados estão entre os segmentos mais expostos às novas barreiras dos EUA e enfrentam dificuldade para encontrar novos compradores

Tarifaço dos EUA ameaça máquinas, têxteis e pescados (Foto: Agência Fiep)
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247 - A tentativa do governo do presidente Lula (PT) de reduzir os impactos de um novo tarifaço dos EUA sobre empresas brasileiras passa pela busca de compradores em outros mercados, mas a alternativa enfrenta limites importantes em setores como máquinas e equipamentos, têxteis e pescados, que dependem de especificações técnicas, nichos de consumo e relações comerciais consolidadas com clientes americanos, relata o jornal O Globo.

A dificuldade é maior porque, diferentemente das commodities, produtos industriais e de maior valor agregado costumam ser negociados conforme exigências específicas do comprador, padrões técnicos ou preferências culturais. Além disso, o mercado dos Estados Unidos tem peso relevante para a indústria brasileira por absorver itens com maior complexidade e maior capacidade de geração de empregos.

Novas tarifas em análise nos EUA

Nesta semana, duas investigações conduzidas pelo Escritório do Representante do Comércio dos Estados Unidos, o USTR, recomendaram novas tarifas de importação sobre produtos brasileiros. A primeira investigação, relacionada a alegadas práticas comerciais consideradas “desleais” pelos Estados Unidos, propõe uma cobrança adicional de 25%.

De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, o MDIC, essa medida poderia atingir 21% da pauta exportadora brasileira para o mercado americano. A segunda investigação, vinculada a uma apuração contra 60 países sobre falhas na proibição de importações associadas a trabalho forçado, prevê uma tarifa de 12,5% para o Brasil.

As duas medidas incluem exceções, como petróleo, aeronaves, carnes, café e algumas frutas, e ainda passarão por consulta pública. Caso sejam confirmadas, as cobranças devem começar a valer em julho.

No mesmo mês, deve terminar o prazo de uma tarifa global de 10% adotada pelo governo de Donald Trump em fevereiro, depois que a Suprema Corte americana derrubou uma taxação aplicada no ano passado com base em uma lei de emergência nacional. No caso brasileiro, aquela cobrança havia chegado a 50%.

Lula defende negociação e fala em novos parceiros

Lula afirmou que pretende seguir negociando com o governo de Donald Trump, como já vinha fazendo desde o anúncio das primeiras tarifas. Representantes do setor empresarial também devem atuar no processo, oferecendo subsídios ao governo federal e apresentando argumentos nas investigações conduzidas pelos Estados Unidos.

Na abertura de uma reunião ministerial nesta semana, o presidente disse que o Brasil buscará alternativas caso os americanos não queiram comprar produtos nacionais.

“Nós não vamos ficar chorando. Nós vamos procurar outros parceiros. Se ele (os EUA) não quer comprar, a gente vai vender para quem quiser comprar. A gente não vai ficar reclamando. Se não quiser investir aqui, nós vamos procurar outro”, afirmou Lula.

Apesar da aposta em diversificação, especialistas e representantes empresariais alertam que substituir o mercado norte-americano não é simples para todos os segmentos.

Setores mais dependentes dos EUA devem sentir mais

O economista João Carmo, da 4Intelligence, avalia que a experiência do tarifaço anterior mostrou a capacidade brasileira de redirecionar parte das exportações. Ainda assim, ele afirma que segmentos mais ligados ao mercado dos Estados Unidos tendem a enfrentar perdas mais intensas.

“Eu não duvido da capacidade que o país tem de redirecionar, por isso esperamos que o impacto na balança não seja tão grande. Mas setorialmente é mais difícil, setores que têm menor participação e menor poder vão ter mais dificuldade”, disse.

A gerente de Comércio e Integração Internacional da Confederação Nacional da Indústria, Constanza Negri, afirma que a diversificação de mercados deve ser vista como estratégia complementar, e não como substituição automática do mercado norte-americano.

Segundo a CNI, a cada R$ 1 bilhão exportado para os Estados Unidos, são criados 24,3 mil empregos no Brasil. Para destinos asiáticos, a média é de 16 mil empregos.

“Pela qualidade de exportações com os EUA, não podemos nos dar o luxo de virar a página e não trabalhar para eliminar essas barreiras que estão prejudicando as exportações, de alguma maneira, já prejudicaram, já temos evidências. A prioridade é eliminar as barreiras enquanto se trabalha em frentes complementares de diversificação de parcerias que sejam capazes de trazer essa complexidade”, afirmou Constanza.

Estudo mostra que redirecionamento não protege todos

Um estudo do BNDES sobre a experiência de taxação do ano passado aponta que o redirecionamento das vendas externas ajudou a reduzir o impacto sobre o resultado agregado da balança comercial brasileira. Isso, porém, não evitou perdas em todos os setores.

Em 2025, as exportações brasileiras para outros destinos cresceram 3,5% em valor na comparação com 2024, mesmo com queda de 6,6% nos embarques para os Estados Unidos. O estudo afirma que esse descompasso evidencia a relevância de novos mercados nas relações comerciais do Brasil com o restante do mundo.

Entre agosto, quando as tarifas entraram em vigor, e dezembro de 2025, as exportações brasileiras ao mundo cresceram 8%, enquanto as vendas aos Estados Unidos recuaram 21%.

Alguns segmentos, no entanto, não conseguiram compensar as perdas. O setor de madeira, carvão vegetal e obras de madeira registrou queda de 50% nos embarques aos Estados Unidos e de 22% nas exportações totais. Em peixes e crustáceos, as quedas foram de 53% para os EUA e 18% para o mundo. Já máquinas, aparelhos e materiais elétricos e suas partes tiveram baixa de 10% nas vendas aos americanos e de 4% nas exportações globais.

Pescados voltam a perder competitividade

O presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Pescado, Eduardo Lobo, afirmou que o setor abriu alternativas de mercado no ano passado para girar estoques, mas com preços inferiores aos normalmente praticados. Parte das vendas aos Estados Unidos foi mantida, porém com margens reduzidas.

Agora, o cenário preocupa ainda mais o segmento porque pescados são a única proteína fora da lista de exceções sugerida pelo USTR. “Essa taxação coloca o setor novamente sem competitividade para os EUA, em relação aos competidores da América Central e o Caribe. Diferentemente, de todos os países que foram taxados pelos EUA, a gente tem 37,5%, a maioria dos países vai ter uma taxação de 12,5%. Ainda não temos certeza se a tarifa de 10% (hoje vigente) vence ou se soma. Pode ser 47,5%, muito parecido com os 50% do ano passado”, disse Lobo.

O dirigente afirmou que pedirá ao governo brasileiro a reinclusão do setor no Plano Brasil Soberano, que reúne medidas para aliviar o impacto financeiro sobre empresas afetadas pelas tarifas americanas e pela guerra no Oriente Médio.

Máquinas e equipamentos enfrentam barreiras técnicas

O presidente-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos, José Velloso, afirma que o setor está entre os mais atingidos pela nova ameaça tarifária. Ele destaca que, entre os três principais segmentos brasileiros exportadores para os Estados Unidos, máquinas e equipamentos não foram poupados pelo governo Trump, ao contrário de petróleo e aeronaves.

No ano passado, segundo Velloso, as vendas do setor para os americanos caíram 9%. A queda não foi maior, apesar da tarifa de 50%, porque houve aumento do valor exportado. No total, as exportações do setor cresceram 5%, impulsionadas pela retomada das compras pela Argentina, com a melhora da economia local, e por uma demanda mais forte de Cingapura.

Mesmo assim, o executivo afirma que não houve redirecionamento da produção originalmente destinada aos Estados Unidos, porque os produtos demandados pelo mercado americano seguem especificações próprias, como medidas em libra e polegada, em vez de quilo e metro.

“Se não tivéssemos as tarifas, teríamos provavelmente R$ 500 milhões a mais de exportações em 2025. A participação dos EUA nas exportações do setor caíram de 26,9% em 2024 para 23,3% no ano passado”, afirmou.

Apesar da atuação diplomática do governo e das entidades empresariais, Velloso acredita que as tarifas serão aplicadas. Como as novas cobranças são menores do que as impostas em 2025, a expectativa do setor é que as perdas também sejam inferiores. A Abimaq espera que a nova medida provisória do Brasil Soberano seja aprovada no formato enviado pelo governo.

Têxteis alertam para impacto sobre empresas menores

O diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção, Fernando Pimentel, afirma que os números gerais podem esconder danos relevantes dentro de segmentos específicos.

Entre agosto e dezembro do ano passado, as exportações da indústria têxtil para os Estados Unidos cresceram 4,31%. O avanço, porém, foi puxado pelas vendas de cordas de sisal, usadas na agropecuária americana e não sobretaxadas.

Outras áreas tiveram forte retração. As vendas de moda e confecções caíram 18,34%, as de filamentos recuaram 83,64%, as de fibras têxteis diminuíram 67,3% e as de tecidos baixaram 23,74%. No conjunto dos destinos, as exportações totais do setor cresceram 8%.

Pimentel afirma que empresas menores, especialmente no segmento de confecções, podem ter forte dependência do mercado americano. Segundo ele, cerca de um terço das vendas externas brasileiras de moda tem como destino os Estados Unidos, com destaque para nichos como moda praia.

“As empresas buscaram outros mercados, Europa, América do Sul, mercado interno, então as exportações do ano passado ficaram mais ou menos equilibradas. Mas quando falamos do macro, esquecemos do micro, que são pequenas empresas, que atuam nesse mercado de nicho e tem 30% a 40% da sua receita advinda dos EUA”, afirmou.

O dirigente ressalta que substituir o mercado americano rapidamente não é viável para negócios que dependem de relacionamento com clientes e desenvolvimento de produtos específicos.

“Não é assim que as coisas funcionam. Quando você trabalha com atendimento de cliente, você constrói uma relação, você constrói um tipo de produto para atender aquele cliente, porque é um produto de nicho. Você não tá vendendo milhões de produtos ao mesmo tempo. Você está construindo marca e relacionamento. Fácil falar, mas é muito mais difícil fazer, principalmente no mundo atual”, disse.

No mercado interno, Pimentel aponta outro obstáculo: a concorrência com importados asiáticos, especialmente após a derrubada da chamada “taxa das blusinhas” por medida provisória enviada pelo governo Lula ao Congresso. O setor tenta reverter a situação no Legislativo.

Para o representante da Abit, a combinação entre o risco tarifário nos Estados Unidos e a pressão dos importados no mercado doméstico transformou as últimas semanas em uma “tremenda tempestade” para a indústria têxtil e de confecção.

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