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Após caso Jaques Wagner, Veja diz que "chegou a vez do PT"

Revista destaca suspeitas contra líder do governo Lula no caso Banco Master, enquanto oposição usa apuração para atingir o Planalto

Capa da revista Veja (Foto: Reprodução/X/@VEJA)
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247 - A revista Veja deu destaque nesta sexta-feira (19) à suposta ligação entre o senador Jaques Wagner (PT-BA) e o caso do Banco Master, ampliando a pressão política sobre o governo Lula (PT) ao colocar o líder do governo no Senado no centro do escândalo. A investigação da Polícia Federal envolve suspeitas de vantagens indevidas ligadas ao Master, incluindo viagens, ingressos, valores em espécie e um apartamento de luxo em Salvador.

Na reportagem de capa, a Veja afirma que “chegou a vez do PT”, em uma chamada que associa o avanço da Operação Compliance Zero ao impacto político das suspeitas envolvendo Wagner. A publicação ocorre em um momento em que a oposição busca transformar a investigação em instrumento de desgaste contra o Palácio do Planalto, depois de o caso também atingir políticos ligados ao bolsonarismo, como Flávio Bolsonaro (PL) e Ciro Nogueira (PP-PI).

O senador Jaques Wagner passou a ocupar posição central na investigação após a PF avançar sobre pontos mencionados por Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, em uma tentativa frustrada de acordo de delação premiada. A colaboração foi recusada pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República, que avaliaram que a proposta não apresentava fatos novos relevantes nem garantia efetiva de devolução de valores diante de um rombo estimado em mais de R$ 60 bilhões.

Na quinta-feira (18), agentes cumpriram mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao senador Jaques Wagner em Brasília e Salvador. Durante as ações, foram apreendidos US$ 49 mil e 33 mil euros em espécie. Wagner é investigado sob suspeita de ter recebido vantagens do conglomerado financeiro comandado por Vorcaro, entre elas deslocamentos em jatos ligados ao Master, ingressos para eventos no exterior e a possível intermediação de um apartamento avaliado em R$ 2,45 milhões.

A suspeita sobre o imóvel em Salvador

Um dos principais pontos da apuração envolve um apartamento de luxo localizado em área nobre de Salvador. O imóvel foi adquirido por fundos ligados a Augusto Ferreira Lima, ex-sócio de Vorcaro. De acordo com a investigação, mensagens encontradas no celular de Lima indicariam uma relação próxima entre ele, o Banco Master e o senador.

A PF sustenta que Wagner teria atuado em defesa de interesses do Master em Brasília. Um dos episódios citados envolve a tentativa de aprovação de uma emenda que ampliaria de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Créditos). A medida, que beneficiaria diretamente o Banco Master, foi apresentada pelo senador Ciro Nogueira, aliado do bolsonarismo e também investigado no caso, mas acabou rejeitada. Em uma das mensagens obtidas pela PF, Augusto Lima disse a Wagner: “Você faz parte disso”.

A apuração também aponta que Wagner teria atuado para tentar viabilizar a venda do Banco Master ao BRB (Banco de Brasília). A operação entrou no centro das suspeitas sobre a rede de influência construída por Vorcaro em diferentes esferas de poder.

Nos diálogos reproduzidos em mandado autorizado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), Wagner aparece pedindo a Augusto Lima ingressos para um show em Los Angeles, nos Estados Unidos, além da cessão de um jatinho particular para uma viagem ao Rio de Janeiro. Em outro trecho, o senador trata da compra do apartamento: “a unidade é a 1702 e o preço é de 2,45”, escreveu, ao repassar o contato do gerente da construtora ao empresário.

O apartamento ainda está em construção e aparece formalmente em nome de terceiros. A unidade teria quatro suítes e acesso a área de lazer com piscina, spa, quadra de tênis, academia e salão de festas. Para a PF, conversas sobre o imóvel teriam sido conduzidas com uso de linguagem cifrada. Na decisão citada pela reportagem, o ministro André Mendonça, relator do inquérito, afirmou que a expressão “altura do vão é 2,45 m”, fora de um contexto técnico suficiente, foi interpretada como possível referência ao valor do apartamento.

Wagner nega ter recebido dinheiro

Após a operação, Wagner negou ter recebido dinheiro do Banco Master e afirmou que pretende permanecer no cargo de líder do governo no Senado. Sobre o imóvel, o senador apresentou uma explicação envolvendo a intenção de ajudar a filha na compra de um apartamento. “Eu tinha interesse em dar um apartamento, ajudar minha filha a comprar um apartamento desse. Como o Guga, o Augusto Lima, é um investidor, disse a ele: ‘Pode comprar? Depois eu vou recomprar’”, declarou Wagner.

Outra frente da investigação envolve Eduardo Mendonça Sodré, enteado de Wagner e atual secretário de Meio Ambiente do governo da Bahia. A PF encontrou mensagens entre Sodré e Augusto Lima sobre pagamentos à BN Financeira, empresa de Bonnie Bonilha, mulher de Sodré. Em uma das conversas, Sodré cobrou valores atrasados: “Amanhã vence (sic) os boletos e são altos”. Augusto respondeu que o cenário estava “crítico”.

A conversa ocorreu em setembro do ano passado, quando o Banco Master já enfrentava grave deterioração financeira. O pagamento, de R$ 3,5 milhões, foi feito um mês depois, 31 dias antes da prisão de Daniel Vorcaro. Entre 2022 e 2025, a BN Financeira, que atua na prospecção de negócios de crédito, recebeu R$ 12 milhões do Master.

Oposição mira o governo Lula

A capa da Veja dá munição política à oposição, que deve explorar o suposto envolvimento de Wagner para tentar atingir o governo Lula. O senador é um dos aliados mais próximos do presidente, foi ministro em gestões petistas e ocupa papel estratégico na articulação do Planalto com o Congresso, especialmente no Senado.

A leitura política da oposição tende a se concentrar na tentativa de associar as suspeitas contra Wagner à estrutura de poder do governo. A reportagem também relembra que Vorcaro e Augusto Lima se reuniram com Lula no Palácio do Planalto, em dezembro de 2024, em encontro fora da agenda oficial. A reunião contou ainda com a presença do ex-ministro Guido Mantega, que recebeu R$ 11 milhões por uma consultoria prestada ao Banco Master.

A entrada de Wagner no centro da apuração muda o eixo político do caso. Nas últimas semanas, o escândalo vinha sendo usado pelo governo para desgastar o senador Flávio Bolsonaro, que pediu R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro para financiar o filme ‘Dark Horse’, cinebiografia de Jair Bolsonaro (PL). Com a nova etapa da operação, a oposição passa a mirar o líder do governo e a tentar nacionalizar o desgaste contra o PT.

Bolsonarismo também aparece no caso Master

Apesar da capa da Veja destacar que “chegou a vez do PT”, o caso Banco Master já havia atingido personagens ligados ao bolsonarismo. Flávio Bolsonaro aparece nas apurações por suposta negociação com Daniel Vorcaro para financiar a cinebiografia de Jair Bolsonaro. A revelação vinha sendo explorada por adversários do bolsonarismo como um dos principais pontos políticos do escândalo.

Ciro Nogueira também é investigado no caso. Ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro e uma das lideranças do centrão mais próximas do campo bolsonarista, ele apresentou a emenda que ampliaria a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos de R$ 250 mil para R$ 1 milhão, medida vista pelos investigadores como favorável ao Banco Master.

Ao colocar Wagner na capa, a Veja desloca o foco do escândalo para o núcleo político do governo Lula, mas o conjunto da investigação revela um alcance mais amplo. O caso atravessa diferentes campos políticos e envolve suspeitas sobre relações de Daniel Vorcaro com autoridades do Executivo, do Legislativo e do Judiciário.

Tensão no STF e disputa política

O avanço das investigações também provocou tensão no STF. Na terça-feira (16), a Segunda Turma negou pedido de revogação da prisão de Henrique e Felipe Vorcaro, pai e primo de Daniel Vorcaro, acusados de ocultação de patrimônio e lavagem de dinheiro. O julgamento foi marcado por embate entre os ministros Gilmar Mendes e André Mendonça.

Gilmar criticou a condução da investigação e afirmou: “É com certa incredulidade e alguma tristeza que me sinto obrigado a registrar que já há algum tempo as providências adotadas no caso vêm guardando semelhanças que não podem ser ignoradas com as iniquidades da Lava Jato”. O ministro também levantou a hipótese de delações serem direcionadas para atingir alvos políticos “predeterminados”.

Mendonça respondeu que estava atento a esse risco e disse ter recusado uma proposta de “delação seletiva”. “Parece que certos setores atuam para criar um vício, tudo que querem é criar um vício. Há um sistema articulado para isso. Eu não sou cego, estou acompanhando, estou assistindo os movimentos. E mais que isso: há tentativas de obstaculizar as investigações. Isso é gravíssimo”, afirmou o relator.

Dos quatro ministros da Segunda Turma, três votaram pela manutenção das prisões: André Mendonça, Luiz Fux e Kassio Nunes Marques. O embate no tribunal reforçou a percepção de que o caso Master ocorre sob forte pressão política e institucional.

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