Estadão condena tolerância de Campos Neto com o Banco Master
Editorial aponta que a condução do Banco Central sob Roberto Campos Neto foi decisiva para a escalada do escândalo envolvendo a instituição financeira
247 - A liquidação do Banco Master não é vista, neste momento, como uma decisão precipitada, mas como o desfecho previsível de uma sucessão de falhas graves ignoradas ao longo do tempo. Em editorial, o jornal O Estado de São Paulo sustenta que o banco construiu sua expansão sobre bases frágeis, com um modelo de negócios considerado insustentável, enquanto articulava influência política em Brasília para evitar uma intervenção precoce. O texto argumenta que a dimensão alcançada pelo caso está diretamente associada à condução excessivamente tolerante do Banco Central durante a gestão de Roberto Campos Neto.
Segundo o editorial, as informações reveladas pela imprensa levantam questionamentos consistentes sobre a demora do Banco Central em agir, apesar de alertas claros. Reportagem do próprio jornal mostrou que a autoridade monetária tinha conhecimento dos problemas de liquidez do Master mais de um ano antes da liquidação, mas optou por conceder sucessivas chances de ajuste, mesmo diante de uma administração temerária.
Em março de 2024, o Banco Central identificou indícios de descasamento entre ativos e passivos e determinou que a instituição apresentasse um plano de contingência para cumprir seu cronograma de desembolsos. O banco se comprometeu a captar R$ 15 bilhões no mercado, mas conseguiu levantar apenas R$ 2 bilhões, menos de 15% do previsto. Ainda assim, não houve intervenção imediata, reforçando a percepção de complacência apontada pelo editorial.
O texto também destaca uma norma editada em outubro de 2023, que permitiu que exposições a precatórios e direitos creditórios adquiridos até junho daquele ano não fossem contabilizadas em balanço, sob o argumento de evitar impactos adversos nos mercados. O Master já utilizava intensamente esse tipo de ativo desde 2021 e, em vez de corrigir distorções, ampliou sua presença após o prazo limite, desperdiçando a oportunidade de ajuste.
Para o jornal, esse seria o momento de exigir venda de ativos ou novos aportes dos sócios, como prova de solidez. O caminho adotado foi outro: a continuidade da captação agressiva por meio da emissão de CDBs com taxas de até 140% do CDI e prazos de oito anos, muito acima do padrão do mercado. A estratégia se apoiava na garantia do Fundo Garantidor de Créditos, descrita no editorial como instrumento para “vender ilusões” aos investidores.
A situação se agravou em novembro de 2024, quando o Master deixou de recolher depósitos compulsórios, passando a inadimplir com o próprio Banco Central. Mesmo assim, Roberto Campos Neto, em fim de mandato, concedeu novo prazo, até março de 2025, para que o banco encontrasse uma solução definitiva.
O editorial avalia que o controlador Daniel Vorcaro explorou brechas regulatórias, favorecido por uma visão do então presidente do Banco Central alinhada à ampliação da concorrência no sistema financeiro. A crença em uma solução de mercado persistiu até a tentativa de socorro por parte do BRB, banco estatal do Distrito Federal. A proposta foi vetada pelo Banco Central em setembro, dois meses antes da liquidação.
Ao reconstruir essa sequência de fatos, o jornal sustenta que houve leniência do regulador diante de uma instituição que demonstrava baixa confiabilidade. Reconhece-se que a liquidação é uma medida extrema e irreversível, que exige rigor técnico e respeito ao direito de defesa, o que afasta acusações de precipitação no ato final. Ainda assim, o editorial conclui que uma atuação mais firme desde os primeiros sinais de risco poderia ter evitado que o episódio alcançasse a dimensão de escândalo institucional que acabou envolvendo diferentes esferas do poder público.


