Folha diz que governo Lula “cedeu à baderna” no caso das hidrovias
Editorial critica anulação do decreto 12.600/2025 sobre estudos nos rios Tapajós, Madeira e Tocantins e acusa Planalto de recuar diante de protestos
247 – Em editorial publicado nesta semana, a Folha de S.Paulo afirmou que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva “cedeu à baderna” ao anular o decreto 12.600/2025, que previa estudos para a concessão de hidrovias nos rios Tapajós, Madeira e Tocantins. No texto, o jornal sustenta que a decisão representaria uma capitulação diante de protestos e teria interrompido um processo técnico voltado à análise de viabilidade logística na região amazônica.
Segundo o editorial, a revogação do decreto é “um exemplo pedagógico e inaceitável de como a conveniência política de curto prazo pode sabotar o planejamento estratégico do país”. A Folha argumenta que a medida não autorizava obras imediatas, mas apenas estudos técnicos, e que sua interrupção comprometeria a modernização da infraestrutura de transporte.
Decreto previa estudos técnicos
O jornal destaca que as hidrovias são consideradas estratégicas para o escoamento de safra agrícola e minérios, além de representarem alternativa de transporte com menor emissão de carbono. Para a Folha, o decreto era “o ponto de partida para entender como conciliar desenvolvimento e preservação na região” e não um “salvo-conduto para a degradação”.
O editorial afirma que o governo desistiu de obter dados técnicos independentes antes mesmo de qualquer licitação, classificando a decisão como um contrassenso do ponto de vista do planejamento logístico nacional.
Protestos e tensão com empresas
O texto atribui a paralisação do projeto à pressão exercida por movimentos indígenas, sob liderança do Conselho Indígena Tapajós Arapiuns. A Folha relata bloqueios de acessos portuários que teriam evoluído para a invasão do terminal da Cargill em Santarém, com paralisação de operações privadas.
O editorial também menciona “ameaças e vandalismo” contra a sede da empresa em São Paulo e a interceptação de uma balsa carregada de grãos. Segundo o jornal, houve ainda desconsideração de ordem judicial de desocupação, com invasão de áreas internas da companhia.
Governo fala em “escuta ativa”
Ao comentar a posição do Executivo, o editorial critica o ministro Guilherme Boulos, da Secretaria-Geral, por classificar o recuo como “escuta ativa”. Para o jornal, a caracterização não se sustentaria diante dos fatos descritos.
A Folha sustenta que, em ano eleitoral, Lula estaria mais preocupado em evitar desgaste com movimentos sociais do que em assegurar segurança jurídica para investidores. O texto afirma que o governo teria aceitado o que chama de “chantagem explícita”.
Debate sobre consultas e democracia
Apesar do tom crítico, o editorial reconhece que é legítimo que comunidades tradicionais exijam consultas prévias e manifestem preocupações sobre segurança alimentar e impactos ambientais. No entanto, defende que essas demandas devem ser encaminhadas por vias institucionais e não por meio de ações que atinjam ativos privados.
Ao concluir, o jornal afirma que, ao “ceder à baderna”, o presidente teria criado um precedente segundo o qual bastaria “atropelar a lei e a propriedade privada” para derrubar uma política de Estado. O episódio, segundo a Folha, fragilizaria a segurança jurídica e comprometeria o avanço da infraestrutura no país.
O caso reacende o debate sobre o equilíbrio entre desenvolvimento logístico, preservação ambiental e respeito às comunidades tradicionais na Amazônia, além de expor a tensão política em torno das decisões do governo federal em ano eleitoral.

