Globo avalia que Lula cedeu a "chantagem de grupos indígenas" no caso das hidrovias
Editorial critica revogação de decreto sobre concessões na Amazônia e afirma que governo recuou após invasões e atos de vandalismo
247 – O jornal O Globo publicou editorial no qual afirma que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva errou ao revogar o decreto que incluía hidrovias da Amazônia no Programa Nacional de Desestatização. Para o periódico, o recuo representou uma capitulação à “chantagem de grupos indígenas” que se opuseram à medida.
Segundo o editorial, o decreto previa a inclusão das hidrovias nos rios Madeira, Tocantins e Tapajós no programa federal, consideradas estratégicas para facilitar o transporte de grãos na região. O texto sustenta que a decisão do governo de voltar atrás ocorreu após protestos organizados por lideranças indígenas, que incluíram invasões e atos de vandalismo.
O jornal destaca que o secretário-geral da Presidência, Guilherme Boulos, atribuiu a revogação à “escuta ativa” dos povos indígenas, que apontaram possíveis impactos do projeto sobre suas comunidades. No entanto, o editorial afirma que o recuo foi “claramente uma capitulação à chantagem”, com o objetivo de reduzir desgastes políticos dentro da base governista, especialmente no PSOL.
Protestos e invasões
De acordo com o editorial, os protestos contra o decreto começaram cerca de um mês antes da revogação. Na madrugada do último sábado, um grupo invadiu o terminal da multinacional Cargill no Porto de Santarém (PA), cuja portaria já estava bloqueada, interrompendo as operações no local. A fachada do escritório central da empresa, em São Paulo, também foi vandalizada.
Antes da invasão, os manifestantes interceptaram uma balsa de grãos atracada no porto. O Conselho Indígena Tapajós Arapiuns, apontado como coordenador dos protestos, afirmou ter aguardado por 30 dias uma posição oficial do governo federal e não ter recebido resposta a pedidos de audiência para tratar do tema.
Estudos técnicos e recuo do Planalto
O editorial ressalta que o próprio Planalto afirmou que o decreto não tratava de obras nem de privatização imediata da hidrovia do Tapajós. Em nota, o governo declarou: “O normativo trata exclusivamente da realização de estudos técnicos sobre uma possível concessão dos serviços de navegabilidade”.
Para o jornal, se o objetivo da norma era apenas autorizar estudos, não haveria justificativa para suspendê-la antes mesmo da realização de análises técnicas independentes. O texto argumenta que esses estudos poderiam fornecer informações sobre impactos ambientais e sociais e indicar medidas de mitigação, como ocorre em outros projetos de concessão.
Ambiente de negócios e equilíbrio de interesses
O editorial afirma que representantes dos povos indígenas têm o direito de se opor a decretos governamentais e de apresentar reivindicações, mas sustenta que “não é tolerável invadir propriedades e praticar vandalismo contra empresas essenciais para o êxito do pujante setor do agronegócio brasileiro”.
O texto menciona ainda posicionamento da Associação Brasileira de Terminais Portuários, que classificou como “atos de violência contra uma empresa privada que não possui ingerência sobre a pauta apresentada” as ações contra a Cargill, considerando-as improdutivas e prejudiciais ao “legítimo espaço democrático de diálogo”.
Por fim, o jornal defende que, se a concessão das hidrovias na Amazônia é estratégica para o escoamento de grãos e minério, o governo deveria dar continuidade ao projeto, ouvindo as comunidades indígenas, mas também considerando as demandas do agronegócio e de outros setores envolvidos. Para o editorial, ao revogar o decreto diante dos protestos, o presidente deu “péssimo exemplo” e transmitiu o recado de que ações violentas podem levar o governo a recuar.


