Globo cobra do Senado cassação de Ciro Nogueira
Editorial afirma que permanência do senador se tornou insustentável após novas revelações da PF sobre sua relação com Daniel Vorcaro
247 – O jornal O Globo defendeu, em editorial, que o Senado abra processo de cassação contra o senador Ciro Nogueira (PI), presidente nacional do Progressistas (PP), após novas revelações da Polícia Federal sobre sua relação com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
No texto, publicado sob o título “Permanência de Ciro Nogueira no Senado ficou insustentável”, O Globo afirma que as evidências já conhecidas são suficientes para a abertura de um processo por quebra de decoro parlamentar, independentemente de eventual denúncia da Procuradoria-Geral da República.
Segundo o editorial, as novas informações levantadas pela PF são “estarrecedoras” e apontam para uma relação de proximidade entre Ciro Nogueira e Vorcaro, investigado por corrupção, lavagem de dinheiro e fraudes multibilionárias envolvendo o Banco Master. O jornal sustenta que a permanência do senador no mandato se tornou cada vez mais difícil de justificar diante do avanço das investigações.
Editorial aponta indícios de vantagens indevidas
O Globo cita mensagens que, segundo a investigação, indicam que Vorcaro teria pago hospedagens para Ciro Nogueira e para o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), no hotel cinco estrelas Four Seasons, em Lisboa. O editorial também menciona relatório de inteligência do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que, de acordo com a Polícia Federal, reforçaria “achados referentes às vantagens indevidas recebidas pelo senador”.
A publicação lembra ainda que, em maio, a PF já havia revelado mensagens segundo as quais Vorcaro pagaria a Ciro Nogueira uma mesada de R$ 300 mil, posteriormente reajustada para R$ 500 mil. De acordo com a investigação citada pelo jornal, o senador teria montado uma rede para ocultar valores ilícitos.
Para O Globo, o conjunto de elementos já torna necessária uma reação institucional do Senado. O editorial afirma que o caso ultrapassa o campo penal e atinge diretamente o decoro parlamentar, princípio que rege a conduta de senadores e deputados no exercício do mandato.
Relação entre Banco Master e Congresso é questionada
O editorial também relaciona a atuação de Ciro Nogueira no Congresso aos interesses do Banco Master. Antes de ser liquidado pelo Banco Central, o banco oferecia papéis com rentabilidade acima da média de mercado, usando como atrativo a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para aplicações de até R$ 250 mil.
Segundo O Globo, em junho de 2024, Ciro Nogueira viajou a Lisboa com despesas pagas por Vorcaro. Dois meses depois, quando os problemas do Banco Master já eram conhecidos, o senador apresentou proposta redigida pelo próprio banco para ampliar a garantia do FGC para R$ 1 milhão.
O jornal também menciona uma viagem de Ciro Nogueira a Courchevel, nos Alpes Franceses, em janeiro de 2025, onde ele foi fotografado ao lado de Vorcaro. Em setembro do mesmo ano, em meio ao cerco do Banco Central às fraudes e após veto à venda do Master ao Banco de Brasília, aliados do senador na Câmara assinaram requerimento de urgência para um projeto que previa a possibilidade de exoneração de diretores do BC pelo Congresso.
Hugo Motta também é citado no editorial
Embora o foco principal do editorial seja Ciro Nogueira, O Globo também cobra esclarecimentos de Hugo Motta. O jornal afirma que as evidências contra o presidente da Câmara são “menos eloquentes”, mas ainda assim “constrangedoras”.
Motta declarou não ver problema nas diárias pagas em Lisboa. O editorial, no entanto, sustenta que o presidente da Câmara não poderia receber vantagens de alguém com interesses em projetos em tramitação na Casa. O texto também menciona reportagem de O Estado de S. Paulo segundo a qual haveria, no celular de Vorcaro, um pedido de Motta para liberação de empréstimo à empresa de uma cunhada. Motta afirmou que a operação “está dentro da legalidade”.
Para O Globo, as explicações dadas até agora são insuficientes. O jornal defende que Motta preste esclarecimentos públicos sobre suas interações com Vorcaro e seus intermediários, além de divulgar hospedagens e caronas em jatinhos recebidas durante o exercício do mandato.
Jornal fala em risco de cumplicidade do Congresso
No trecho mais duro do editorial, O Globo afirma que, enquanto defendia interesses relacionados ao Banco Master no Congresso, Ciro Nogueira teria aceitado caronas em jatinhos, hospedagens de luxo e viagens a destinos como Nova York, Lisboa, Paris e os Alpes Franceses.
O jornal sustenta que a conduta revelaria confiança na impunidade e cobra ação imediata dos parlamentares. Para o editorial, a omissão do Senado diante das evidências pode transformar os próprios congressistas em cúmplices políticos do caso.
“Se os parlamentares permanecerem inertes ante tantas evidências, serão cúmplices de qualquer crime por que venha a ser condenado”, afirma O Globo.
A cobrança aumenta a pressão sobre o Senado em um caso que envolve um dos principais dirigentes partidários do Centrão, um banco liquidado pelo Banco Central e suspeitas de favorecimento político em meio a investigações sobre corrupção, lavagem de dinheiro e fraudes financeiras.



