Master: Influenciadores levantam suspeitas sobre BC com publicações quase simultâneas
Postagens no fim de dezembro repetem argumentos sobre a liquidação do Banco Master e reforçam dúvidas sobre ataque coordenado nas redes sociais
247 - Um conjunto de publicações feitas por influenciadores digitais no fim de dezembro chamou a atenção de entidades do sistema financeiro e de autoridades por apresentar discursos semelhantes sobre a liquidação do Banco Master. Apesar de diferenças de estilo e abordagem, os conteúdos compartilham elementos em comum, como o questionamento da atuação de órgãos reguladores e a desconfiança em relação à rapidez da decisão do Banco Central.
Reportagem do jornal O Estado de São Paulo mostrou que os vídeos e postagens circularam em um intervalo curto de tempo, muitas vezes ancorados nas mesmas notícias e análises jornalísticas. Em nenhum dos casos, os conteúdos foram identificados como publicidade. Procurados, os influenciadores citados negam qualquer tipo de articulação conjunta ou vínculo comercial relacionado ao tema.
De acordo com o levantamento, a maioria dos criadores de conteúdo não atua no mercado financeiro. Muitos são conhecidos por publicar material de entretenimento, sobretudo comentários sobre a vida pessoal de celebridades. A exceção é a influenciadora Carol Dias, que, ao lado do irmão André Dias, comanda o Irmãos Dias Podcast, voltado a investimentos.
No dia 9 de dezembro, Carol Dias publicou um vídeo afirmando que o Banco Master havia “desmoronado” e que os impactos poderiam atingir “municípios e aposentadorias”. Já em 29 de dezembro, o tom mudou, passando a questionar diretamente a decisão do Banco Central. Procurados pelo O Estado de São Paulo, Carol e André Dias não se manifestaram.
Entre os nomes citados está Paulo Cardoso, que se apresenta como hipnoterapeuta, neuropsicanalista e especialista em mente inconsciente. Em vídeo publicado em 19 de dezembro, ele afirmou que “quando um órgão como o Tribunal de Contas da União (TCU) entra no caso, é porque tem coisa errada”. Dias depois, ao comentar uma notícia da jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, Cardoso declarou que “não recebeu nada” para criticar o BC, acrescentando que não assinou contrato “com banco nenhum” e que suas opiniões são “100% livres”.
A reportagem também organizou uma linha do tempo para mapear a proximidade entre datas e conteúdos. No dia 19 de dezembro, às 19h04, o criador de conteúdo Firmino Cortada, com mais de 500 mil seguidores no TikTok, publicou um vídeo comentando a decisão do TCU sobre a liquidação do Banco Master. Na gravação, afirmou que o Banco Central deve ter “autonomia para trabalhar”, desde que siga as normas do tribunal. O tema contrasta com o perfil habitual do influenciador, mais voltado a assuntos envolvendo celebridades como Virgínia Fonseca e Carlinhos Maia. Em nota, Firmino disse que suas publicações refletem um “posicionamento pessoal e independente”, no exercício da “liberdade de expressão”, e negou qualquer vínculo comercial.
Outro influenciador citado é Marcelo Rennó, que se define como especialista em Reels e costuma comentar temas ligados a famosos e figuras públicas. Ele publicou um vídeo sobre o caso em 26 de dezembro e voltou ao assunto no dia 29, classificando a decisão do BC como “muito suspeita” e “estranha”. Após a repercussão, divulgou novo vídeo negando ter recebido qualquer valor para se posicionar. A reportagem tentou contato, mas não obteve resposta até a publicação.
Páginas de fofoca também passaram a tratar do tema financeiro. A Babadeira comentou uma nota conjunta da Febraban, afirmando que o “banco foi liquidado em tempo considerado incomum”. Já a página Alfinetei usou uma imagem gerada por inteligência artificial para ironizar a saída de Renato Gomes do Banco Central, comparando a passagem do ex-diretor a uma entrega de pizza. A Diferentona, por sua vez, afirmou que a liquidação ocorreu “sem explicações claras, mesmo com propostas de compra na mesa”.
Por trás da página Alfinetei estão três sócios ligados a pelo menos cinco empresas formalmente registradas e a uma rede de perfis que soma cerca de 40 milhões de seguidores. Um dos principais nomes é João Guilherme Chagas Gabriel, sócio-administrador das empresas, que se apresenta como CEO de seis páginas em seu perfil pessoal, embora os registros indiquem cinco. Outro sócio é Marcos Almeida de Lima, também ligado às páginas Alfinetei e Babadeira.
Levantamento da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) aponta que o pico das publicações ocorreu em 27 de dezembro, com 4.560 posts sobre o tema. Nos dias seguintes, houve uma “redução significativa” no volume. Nas 24 horas até 5 de janeiro, por exemplo, foram registradas 132 publicações, todas na plataforma X.
Em nota, a Febraban informou que realiza monitoramento periódico de postagens relacionadas à sua atuação e à do setor bancário. “Nesses levantamentos recorrentes, foi identificado, no final de dezembro, volume atípico de postagens com menções relativas à entidade e seus representantes, referentes ao noticiário sobre liquidação de instituição financeira”, afirmou. Segundo a federação, está em análise se os conteúdos caracterizam ou não um eventual ataque coordenado, destacando que já se observa uma queda expressiva no volume de publicações.



