Merval vê tentativa de “estancar a sangria” no caso Master e alerta para crise institucional no País
Colunista afirma que suspeitas envolvendo ministros do STF agravam desgaste das instituições e podem ter efeitos duradouros na política brasileira
247 – Em análise publicada no jornal O Globo, o jornalista Merval Pereira afirma que o Brasil vive uma crise institucional em expansão, impulsionada pelas repercussões do caso Master e pelas suspeitas que, segundo ele, recaem sobre integrantes do Supremo Tribunal Federal. Para o colunista, haveria em curso uma nova tentativa de “estancar a sangria”, movimento que poderia aprofundar o descrédito das instituições e afetar de forma prolongada a dinâmica política nacional.
No texto, Merval sustenta que a crise se amplia à medida que circulam notícias sobre mais uma tentativa de superar os problemas provocados por relações que ele classifica como indevidas de dois ministros do STF com o caso Master. Segundo sua leitura, a busca por uma solução política para conter os danos do episódio reaviva no País a lógica dos acordões de cúpula, capazes de preservar estruturas de poder mesmo diante de fatos de grande gravidade.
Ao desenvolver esse raciocínio, Merval recorre à expressão “estancar a sangria”, associando-a ao célebre “com o Supremo, com tudo”, frase que ficou marcada no debate público desde a Operação Lava-Jato. Na interpretação do colunista, a tentativa de encerrar o caso sem o devido enfrentamento de suas implicações estaria provocando inquietação em várias frentes, inclusive nas Forças Armadas, diante da possibilidade de que a saída encontrada seja apenas varrer os fatos para debaixo do tapete.
Merval aponta risco de corrosão da credibilidade institucional
Para Merval Pereira, a hipótese de que o caso termine “em pizza” teria consequências profundas sobre a confiança da sociedade nas instituições. Em sua avaliação, o impacto não se limitaria a uma controvérsia passageira, mas poderia reduzir a credibilidade institucional do País a um patamar de forte deterioração, alimentando a percepção de que prevalece uma politicagem rejeitada pela população.
O colunista argumenta que essa reação já começa a se refletir em diferentes esferas da vida nacional, como as pesquisas eleitorais, os meios políticos e os setores militares. Na sua visão, o caso Master deixou de ser um episódio restrito ao noticiário jurídico e passou a integrar um quadro mais amplo de instabilidade, com potencial de influenciar o ambiente político por longo período.
Segundo Merval, a repercussão dos desvios de que seriam suspeitos os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli terá desdobramentos diretos na campanha eleitoral. Ele ressalta que, a seu ver, não se trata de indignação momentânea, daquelas provocadas por uma declaração infeliz ou por um episódio isolado do cotidiano político, mas de algo mais profundo, capaz de sedimentar desconfianças duradouras na sociedade.
Leitura do colunista envolve governo e oposição
Na análise de Merval Pereira, há também uma percepção difusa de que o governo teria responsabilidade política no ambiente criado em torno do caso. O jornalista escreve que existe a sensação de que o presidente Lula manipularia a situação a seu favor. Ao mesmo tempo, ele enfatiza que o episódio não pode ser lido de forma estritamente partidária, porque, em sua avaliação, o banqueiro Daniel Vorcaro teria cooptado vários setores da máquina de poder em Brasília.
A partir dessa premissa, Merval afirma que até mesmo candidatos de oposição acabam alcançados pelas suspeitas. Como exemplo, ele menciona o senador Ciro Nogueira, lembrando que o parlamentar propôs a elevação do limite protegido pelo Fundo Garantidor de Créditos de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. Na leitura do colunista, essa mudança quadruplicaria o impacto do golpe relacionado ao Master.
Ao apontar essa transversalidade do caso, Merval sustenta que a crise expõe um sistema político em que os vínculos entre poder econômico, instituições e grupos partidários se embaralham. Para ele, esse quadro reforça a percepção de que a crise não se restringe a um campo ideológico específico, mas envolve setores variados do establishment brasileiro.
Polarização e calcificação do debate público
Merval Pereira também mobiliza, em sua análise, a ideia de que o Brasil vive um ambiente de calcificação política. Citando o cientista político Felipe Nunes, da Quaest, ele sugere que o País atravessa um momento em que o debate público se tornou rígido, previsível e capturado por alinhamentos automáticos.
Segundo o colunista, nesse contexto, criticar Alexandre de Moraes passou a ser imediatamente interpretado por parte do debate público como sinônimo de apoio ao bolsonarismo. Para ele, essa lógica impede que suspeitas sobre autoridades sejam examinadas com autonomia e profundidade.
Merval afirma ainda que a esquerda decidiu assumir a defesa dos ministros do Supremo como se eles tivessem direito a uma espécie de privilégio de impunidade por terem, em sua avaliação, ajudado a salvar a democracia. Essa postura, segundo o jornalista, agrava a distorção do debate público ao substituir a exigência de responsabilização por alinhamentos de conveniência política.
Comparação com os militares e crítica ao corporativismo
Outro ponto relevante da análise é a comparação feita por Merval entre a reação do Supremo e a conduta das Forças Armadas diante da trama golpista associada a Jair Bolsonaro. O colunista observa que os militares sofreram abalos profundos, mas tiveram suas “maçãs podres” julgadas e condenadas, sem que houvesse, segundo ele, uma reação corporativista comparável àquela que agora se observa em torno dos ministros do STF.
Para Merval, esse contraste é revelador. Sua avaliação é a de que o grau de descontrole se tornou tão grande que Alexandre de Moraes, antes visto como herói por parte expressiva da população, passou a ser tratado como suspeito, enquanto André Mendonça ganhou força política. O colunista chama atenção para o fato de ambos terem origem na direita: Moraes foi indicado por Michel Temer e Mendonça por Bolsonaro.
A conclusão implícita em sua argumentação é que a política brasileira se transformou num terreno em que heróis e vilões são escolhidos conforme a conveniência das disputas ideológicas do momento. Na sua visão, cada campo “calcificado” seleciona seu personagem preferido para exaltar ou demonizar, o que empobrece a compreensão dos fatos e embaralha o juízo público sobre o papel das instituições.
Merval diz que ministros do Supremo se tornaram atores políticos
Na parte final de sua análise, Merval Pereira recorre ao histórico recente de Gilmar Mendes para ilustrar a volatilidade dessas classificações políticas. Ele recorda que o ministro já foi celebrado pela direita quando chamou o governo petista de “cleptocracia” e quando impediu a nomeação de Lula para a Casa Civil no governo Dilma Rousseff.
Mais tarde, segundo o colunista, Gilmar se tornou referência para setores da esquerda ao comandar uma ofensiva contra o ex-juiz Sergio Moro e os procuradores da Lava-Jato. Merval associa essa inflexão ao uso de material obtido por um hacker que depois acabou preso por invadir o site do Conselho Nacional de Justiça.
Ao rememorar esses episódios, o jornalista sustenta que as mudanças de posição, de prestígio e de jurisprudência revelam um problema estrutural: para ele, há muito tempo a maioria dos ministros do Supremo passou a se considerar parte do jogo político. Na avaliação expressa na coluna, isso faz com que integrantes da Corte mudem de entendimento conforme os ventos da conjuntura e se envolvam em negócios privados como se fossem cidadãos comuns, quando deveriam, segundo sua formulação, agir como jurisconsultos acima de qualquer suspeita.
Dessa forma, a análise de Merval Pereira apresenta o caso Master não apenas como mais um escândalo de Brasília, mas como um sintoma de uma crise mais profunda. Em sua leitura, o centro do problema está na erosão das fronteiras entre Justiça, política e interesses privados, processo que alimenta a perda de confiança nas instituições e amplia a percepção de que o País segue preso a mecanismos de autoproteção das elites de poder.


