Nas ruas e nas redes: Flávio Bolsonaro cai e Lula lidera ranking digital
Presidente chega ao topo do IDP após desgaste de Flávio Bolsonaro com áudios ligados a Daniel Vorcaro
247 - A divulgação de áudios envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, alterou o cenário digital entre presidenciáveis monitorados pela Datrix e levou o presidente Lula (PT) ao primeiro lugar do Índice Datrix de Presidenciáveis, o IDP, segundo a Exame.
Pela primeira vez desde dezembro de 2025, Flávio Bolsonaro perdeu a liderança do levantamento, que mede a performance digital de possíveis candidatos ao Palácio do Planalto. Lula encerrou maio com 24,45 pontos, enquanto o senador caiu para 21,78 pontos, no que a Datrix classificou como a maior queda absoluta registrada desde o início do monitoramento.
O levantamento também apontou retração no desempenho de Romeu Zema (Novo) e Renan Santos, do Missão. Ronaldo Caiado (PSD), por sua vez, foi o nome que apresentou a menor oscilação entre os políticos acompanhados.
Segundo João Paulo Castro, cofundador e CEO da Datrix, a mudança na primeira posição não decorreu de uma forte alta de Lula, mas do desgaste enfrentado por Flávio Bolsonaro após a crise. “Ninguém melhorou. O Lula ficou parado. O Lula teve um comportamento muito semelhante ao dos últimos meses. O Flávio e o Zema é que achataram”, afirmou ele à Exame.
O IDP avalia mensalmente o desempenho digital de possíveis candidatos à Presidência a partir de quatro eixos: redes próprias, repercussão e menções feitas por apoiadores, imprensa, influenciadores e lideranças políticas, tonalidade das citações e interesse de busca dos usuários em plataformas digitais. O monitoramento acompanha os presidenciáveis há cerca de 18 meses.
Flávio Bolsonaro liderava o ranking desde dezembro, mas viu sua posição se deteriorar após a publicação, em 13 de maio, de áudios divulgados pelo Intercept Brasil. O material envolvia recursos milionários destinados ao filme “Dark Horse”, produção sobre Jair Bolsonaro (PL).
De acordo com a Datrix, o episódio provocou uma mudança no chamado “mar aberto”, indicador que mede a percepção sobre o político fora de seus canais controlados. A pontuação de Flávio passou de positiva para negativa ao longo do mês, enquanto o volume de menções quase dobrou.
“O caso alterou o comportamento das redes sobre o Flávio Bolsonaro. Pela primeira vez, aquilo que ele herdou do legado digital do pai se reverteu. Houve uma quantidade muito grande de pessoas falando sobre ele, mas de forma negativa”, disse Castro.
Apesar de ter recuperado parte do desempenho no fim de maio, após agenda nos Estados Unidos e encontro com Donald Trump, Flávio Bolsonaro não conseguiu compensar as perdas acumuladas no mês. A pontuação diária voltou a subir nos últimos dias do período, mas o senador terminou abaixo de Lula pela primeira vez desde sua entrada no monitoramento.
A crise também atingiu outros nomes do campo da direita. Romeu Zema, que havia ganhado destaque em abril após embates com o Supremo Tribunal Federal (STF), registrou a maior queda percentual do ranking. O recuo foi de 42%, de 21,13 para 12,19 pontos.
Para Castro, Zema foi impactado por ter sido o primeiro nome do campo conservador a criticar publicamente Flávio Bolsonaro. “Quando ele atacou o rival, acabou recebendo muitos ataques da própria base bolsonarista”, afirmou.
Renan Santos também sentiu os efeitos da crise. Embora tenha ampliado sua visibilidade durante o episódio, o fundador do Movimento Brasil Livre (MBL) viu piorar a qualidade das interações. O volume de menções cresceu, mas o engajamento de sua própria base diminuiu.
“O Renan conseguiu aparecer mais quando criticou o Flávio, mas parte da base não acompanhou esse movimento. Ele ganhou exposição, mas perdeu qualidade de engajamento”, disse o CEO da Datrix.
Entre os nomes analisados, Ronaldo Caiado foi o mais estável. O governador de Goiás encerrou maio com 11,63 pontos e teve a menor variação do grupo. Na avaliação de Castro, a postura mais cautelosa diante da crise ajudou a preservar seu capital digital, embora o desafio de ampliar alcance e volume de menções permaneça.
No caso de Lula, a Datrix avalia que a liderança foi favorecida por um contexto externo mais positivo. A melhora da aprovação do governo em pesquisas, o encontro com Trump na Casa Branca e anúncios de programas federais contribuíram para tornar o ambiente digital mais favorável ao presidente.
Ainda assim, Castro afirma que o desempenho de Lula permaneceu próximo ao observado nos meses anteriores. “O Lula fez um gol jogando parado. Se você está ganhando sem gerar desgaste, escolha com mais cuidado os temas em que vai entrar”, declarou.
Para os próximos meses, o CEO da Datrix projeta uma nova etapa na disputa digital. Depois de maio ter sido marcado pelo caso Vorcaro, os possíveis candidatos deverão definir como tratar novos temas sem abrir espaço para ataques de adversários.
Um dos focos do governo é associar Flávio Bolsonaro à possibilidade de novas tarifas sobre produtos brasileiros. Após a visita do senador a Washington, a gestão Trump anunciou que pode aplicar tarifas de 25% ao Brasil, acusou o país de trabalho forçado e ameaçou outra tarifa de 12,5%.
Na leitura de Castro, Lula entra nesse cenário em posição mais confortável, com indicadores favoráveis e maior margem para escolher as pautas em que pretende atuar. O possível tarifaço aparece como um dos principais testes da disputa digital.
“Ele pode arriscar menos. As tendências estão mais claras para ele do que para os demais candidatos”, disse o especialista.
O pesquisador avalia que o presidente tenta transformar a discussão sobre tarifas em um tema politicamente desfavorável para Flávio Bolsonaro. Ao mesmo tempo, a reação da base bolsonarista ao episódio será decisiva para indicar se a recuperação observada no fim de maio terá continuidade ou se o caso Vorcaro seguirá afetando a reputação digital do senador.
Para os demais nomes da direita, o desafio segue concentrado em encontrar pautas capazes de ampliar alcance e engajamento sem provocar rejeição dentro do próprio eleitorado conservador. Segundo Castro, esse equilíbrio será determinante para definir quem conseguirá aproveitar a reorganização do ambiente digital nos próximos meses.



