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Zuckerberg depõe em julgamento nos EUA sobre vício em redes sociais

Processo histórico na Califórnia pode abrir precedente para milhares de ações que responsabilizam Meta e Google por impactos na saúde mental de jovens

Mark Zuckerberg (Foto: REUTERS/Manuel Orbegozo)

247 - O diretor-executivo da Meta, Mark Zuckerberg, foi convocado para depor nesta quarta-feira (18) em um julgamento considerado histórico nos Estados Unidos, que discute se redes sociais como Instagram e YouTube foram projetadas para estimular comportamento compulsivo em jovens e provocar danos à saúde mental. O processo ocorre na Califórnia e é visto como um marco por ser a primeira vez em que Zuckerberg falará diretamente diante de um júri sobre a segurança de plataformas sob seu comando, relata o O Globo.

O executivo de 41 anos, que comanda a empresa controladora de Facebook, Instagram e WhatsApp, é apontado como a testemunha mais aguardada do caso, movido por uma autora que acusa as plataformas de terem sido deliberadamente desenhadas para criar dependência entre usuários mais jovens. O julgamento é o primeiro de uma série de processos que podem estabelecer um precedente legal capaz de influenciar milhares de ações semelhantes movidas por famílias americanas contra gigantes do setor digital.

O júri, formado por 12 pessoas, ouvirá depoimentos até o fim de março, em Los Angeles, antes de decidir se o Instagram e o YouTube têm responsabilidade pelos problemas de saúde mental enfrentados por Kaley G.M., uma jovem de 20 anos, moradora da Califórnia, descrita como usuária compulsiva de redes sociais desde a infância. Segundo o processo, Kaley começou a usar o YouTube aos seis anos, o Instagram aos 11 e, posteriormente, passou a utilizar também TikTok e Snapchat.

O centro da disputa judicial é determinar se Meta e Google projetaram suas plataformas com mecanismos voltados a incentivar o uso repetitivo e prolongado por adolescentes, o que teria contribuído para prejuízos psicológicos. O caso é analisado como parte de um conjunto maior de litígios que buscam responsabilizar empresas de tecnologia por uma suposta escalada de depressão, ansiedade, transtornos alimentares e até suicídios entre jovens.

Além deste julgamento, outros dois processos semelhantes estão previstos para ocorrer no verão americano, também em Los Angeles. A expectativa é que os resultados ajudem a definir parâmetros jurídicos para solucionar milhares de ações que acusam redes sociais de ampliar uma crise de saúde mental juvenil.

Um aspecto decisivo do julgamento é que ele se concentra exclusivamente no design dos aplicativos, nos algoritmos e nos mecanismos de personalização, já que a legislação dos Estados Unidos concede ampla imunidade às plataformas em relação à responsabilidade por conteúdos publicados por usuários. Assim, o foco se volta para a arquitetura digital que, segundo os autores das ações, teria sido construída para maximizar o tempo de permanência dos jovens nas telas.

TikTok e Snapchat, que também foram citados no processo, chegaram a acordos confidenciais com a autora antes do início do julgamento, deixando Meta e Google como os principais alvos do caso em andamento.

Chefe do Instagram rejeita termo "vício" e fala em "uso problemático"

Antes do depoimento de Zuckerberg, o julgamento já ouviu executivos importantes do Vale do Silício. O chefe do Instagram, Adam Mosseri, foi o primeiro a prestar depoimento, em 11 de fevereiro. Durante sua fala, Mosseri afirmou rejeitar a ideia de “vício em redes sociais” e disse preferir o termo “uso problemático”, expressão adotada oficialmente pela Meta.

“Tenho certeza de que já disse que estava viciado em uma série da Netflix quando a assistia até muito tarde em uma única noite, mas não acredito que isso seja o mesmo que um vício clínico”, declarou Mosseri.

No dia anterior, os advogados da autora chamaram a psiquiatra Anna Lembke, que explicou aos jurados como as redes sociais podem atuar como uma espécie de “droga de entrada” para jovens, com potencial de influenciar cérebros em desenvolvimento e estimular padrões de comportamento compulsivo.

Google muda depoimento previsto para o YouTube

O chefe do YouTube, Neal Mohan, estava inicialmente previsto para depor no processo, mas os advogados da autora informaram que optarão por convocar outro executivo da plataforma de vídeos. A mudança foi comunicada na terça-feira (17), sem detalhamento adicional sobre quem assumirá o lugar do dirigente no tribunal.

Enquanto isso, os procedimentos em Los Angeles ocorrem paralelamente a outro caso de abrangência nacional, conduzido por um juiz federal em Oakland. Esse processo pode levar a um novo julgamento em 2026, ampliando ainda mais a pressão judicial sobre as grandes empresas de tecnologia.

Meta enfrenta nova ofensiva judicial no Novo México

Além das ações na Califórnia, a Meta também enfrenta, neste mês, um julgamento no Novo México. Nesse processo, promotores acusam a empresa de priorizar o lucro em detrimento da proteção de menores, em meio a denúncias de falhas na prevenção contra predadores sexuais nas plataformas da companhia.

O avanço simultâneo de diferentes ações judiciais mostra que o debate sobre responsabilidade das redes sociais, saúde mental e segurança digital deve se intensificar nos Estados Unidos, com potencial de gerar impactos regulatórios e legais para todo o setor de tecnologia.

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