"Agora é guerra", diz ex-modelo brasileira que pode revelar ligações de Trump e Melania com Epstein e rede de modelos de luxo
Amanda Ungaro relata deportação dos EUA, acusa o ex-companheiro Paolo Zampolli de perseguição e diz ter vivido por anos no entorno de figuras poderosas
247 – A ex-modelo brasileira Amanda Ungaro, de 41 anos, afirmou que está disposta a expor conexões envolvendo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a primeira-dama Melania Trump, o financista Jeffrey Epstein e o universo das agências de modelos de luxo. Deportada dos Estados Unidos após meses em centros de detenção migratória, Amanda sustenta que sua história reúne poder, violência, silêncio forçado e uma disputa brutal pela guarda do filho.
As informações foram publicadas originalmente pelo jornal El País, que entrevistou Amanda em sua nova residência, um apartamento no Rio de Janeiro. Na conversa, ela narra sua deportação, relembra a convivência com o círculo social dos Trump e faz graves acusações contra o ex-companheiro Paolo Zampolli, empresário ítalo-americano com longa trajetória na noite nova-iorquina e no mercado internacional de modelos.
“Agora é a guerra. Vamos ver quem ganha. Guardei silêncio durante anos e, por isso, as pessoas me julgam. Por que você fala agora?, me dizem. Porque o cara não me deixou viver em paz! Eu tentei. Saí da relação sem nada, deixei meu filho interno em um colégio e fui trabalhar”, declarou Amanda. Em outro trecho, ela resume o trauma de sua trajetória: “Não bastou me destruir durante 20 anos de relação: quis me destruir de novo quando comecei uma nova vida, quando me casei”.
Do convívio com os Trump à queda brutal
O caso chama atenção porque Amanda não era uma imigrante anônima perdida no sistema norte-americano. Durante anos, ela frequentou ambientes de alto luxo e poder. Ao lado de Zampolli, participou de encontros sociais com Donald Trump e Melania Trump em Mar-a-Lago, incluindo a festa de réveillon que marcou a chegada de 2022. Segundo Amanda, essas ocasiões eram longas e vazias. Ela recorda uma dessas celebrações como um evento “chatíssimo de seis horas”.
O convívio entre os casais se repetiu em outras ocasiões, como réveillons, um evento infantil de Páscoa na Casa Branca e comemorações do 4 de Julho. Parte dessa rotina foi registrada em redes sociais por Zampolli, figura conhecida por ter apresentado Melania a Trump. A antiga intimidade com o núcleo trumpista, porém, não impediu que Amanda acabasse presa e deportada em meio ao endurecimento da política migratória adotada após o retorno de Trump à Casa Branca.
Depois de praticamente meia vida nos Estados Unidos, Amanda foi expulsa do país em outubro do ano passado. Antes disso, passou cerca de três meses e meio em centros de detenção. Seu caso se insere no contexto de escalada repressiva contra imigrantes desde o retorno de Trump ao poder em janeiro de 2025, quando ele anunciou o que chamou de “a maior deportação da história”.
Prisão, denúncia anônima e deportação
Já afastada de Zampolli, Amanda havia deixado Nova York e Washington e vivia em Aventura, na Flórida, com o atual marido, um médico brasileiro. A situação explodiu em junho passado. “Dez policiais invadiram minha casa, me prenderam, levaram meu filho para a delegacia”, relatou.
Ela e o marido foram detidos sob acusação de fraude em uma clínica estética, após denúncias anônimas. Amanda rejeita integralmente as acusações e afirma que a deportação a impediu de organizar sua defesa de forma adequada. “A verdade virá à tona”, disse. O impacto da prisão foi descrito em termos dramáticos: “Me colocaram numa cela com assassinas de crianças! Eu, que não tenho ficha criminal. Estava aterrorizada”.
Segundo o El País, quando Zampolli soube da prisão da ex-companheira, ele procurou um chefe do Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos, o ICE, para que Amanda permanecesse encarcerada e fosse deportada, o que favoreceria sua tentativa de obter a guarda do filho. Essa versão também foi relatada anteriormente pelo The New York Times. Procurado pelo jornal espanhol, Zampolli negou qualquer irregularidade.
Amanda foi transferida algemada nos pés e nas mãos para um centro de detenção de imigrantes em Miami. Ali começou, segundo ela, um período de horror. Seu marido, que possuía green card, foi libertado. Ela, não. “Me ofereci voluntariamente para lavar o chão às seis da manhã para não enlouquecer. Passava o dia chorando, li a Bíblia do começo ao fim”, afirmou.
A brasileira também descreveu o que considera cenas degradantes dentro da estrutura migratória dos Estados Unidos. Disse ter visto pessoas com residência legal detidas, uma idosa octogenária algemada em cadeira de rodas e uma jovem que havia acabado de perder um bebê e demorou a receber atendimento médico.
Para a conclusão da deportação, Amanda foi levada à Louisiana. O cenário, segundo ela, era ainda mais brutal. “Aquilo era um pavilhão com mais de 120 pessoas, o chão molhado, sem janelas, quatro dias sem ver o sol… saí infestada de piolhos”, contou. Ela desembarcou no Brasil com uniforme prisional, sem pertences e sem telefone celular. “Passei um mês deprimida num quarto”, relatou.
Acusações de abuso e guerra judicial
Amanda diz lamentar não ter deixado Zampolli antes e, principalmente, não tê-lo denunciado no passado. “Eu vivia à mercê de um psicopata doente que abusava de mim psicológica, sexual e fisicamente. Pedi ajuda a muita gente. Ninguém jamais me ajudou. Mas eu não podia ir embora sem meu filho, e ele não assinava [a autorização]”, afirmou.
Zampolli negou as acusações. Ao El País, respondeu: “Eu a fiz embaixadora [substituta], éramos convidados para a Casa Branca… Que abuso é esse? Tivemos uma relação de novela, muito tóxica”. A disputa entre os dois se tornou um dos eixos centrais do caso, especialmente pela batalha pela guarda do filho adolescente.
Amanda afirma que tenta reorganizar a própria vida no Brasil enquanto aguarda desdobramentos judiciais e sonha em reencontrar o filho e o marido. O caso envolve diferentes frentes legais e uma guerra pessoal que, segundo ela, apenas começou.
O voo no avião de Epstein
Um dos pontos mais delicados do relato de Amanda envolve Jeffrey Epstein, morto na prisão em 2019, e sua cúmplice Ghislaine Maxwell, condenada por tráfico sexual. A brasileira contou que, em 2002, quando ainda não havia completado 17 anos, viajou de Paris para Nova York no avião privado de Epstein, o chamado Lolita Express.
Amanda diz que foi enganada pelo agente, que apresentou a viagem como algo banal. “Meu agente me disse: ‘Vamos com um casal de amigos, um avião privado só para nós’. Lá havia umas 30 mulheres muito jovens, de 14, 15, 16 anos. Eu disse: ‘O que é isso?’. E ele me respondeu: ‘Não se preocupe’”, recordou.
Segundo Amanda, ela não interagiu com ninguém no voo além de uma breve apresentação aos anfitriões. “Amanda, deixa eu te apresentar ao Jeffrey”, teria dito o agente. Em seguida, ela relatou o diálogo: “Ele se aproximou e perguntou: ‘De onde você é? Quantos anos você tem? Com que agência de modelos trabalha?’. E ele me apresentou à Ghislaine”.
Amanda afirma que nunca mais voltou a encontrar Epstein. Também observa que o agente de modelos que a levou àquele avião, Jean-Luc Brunel, mais tarde foi preso no âmbito do caso Epstein e morreu numa prisão em Paris, em 2022.
Carreira internacional e passagem pela ONU
Natural de Londrina, Amanda deixou sua cidade natal aos 13 anos para seguir carreira como modelo. Passou por São Paulo, Itália, Alemanha, Japão e Coreia do Sul antes de tentar se firmar em Nova York. Mais tarde, ao se tornar mãe em 2010, deixou a moda.
Foi nesse período que, segundo a reportagem, Zampolli lhe conseguiu um posto vinculado às Nações Unidas. Amanda passou a atuar como diplomata da ilha de Granada, enquanto ele representava Dominica. É daí que vêm os títulos diplomáticos citados em sua trajetória.
Ela aparece em documentos da ONU como representante de Granada em sessões sobre a Corte Penal Internacional e o Tratado de Não Proliferação Nuclear. “No começo, eu não entendia nada. Mas comecei a fazer contatos, a criar uma rede profissional. E fui muito bem”, afirmou.
Amanda também relata que trocou o visto de modelo por um passaporte diplomático com isenção fiscal. Segundo um aparente acordo extrajudicial citado pelo El País, Zampolli teria preferido manter esse arranjo por vantagem tributária. Ela ainda atribui ao ex-companheiro uma promessa ligada à política norte-americana: “Paolo me dizia: ‘Espera Trump ganhar as eleições [pela segunda vez], que arrumamos seus papéis e ele te dá um passaporte americano’”.
Zampolli, Trump e o submundo do luxo
Zampolli construiu sua fama no circuito da noite de Nova York e no mercado internacional de modelos. Foi dono da agência ID Models e transitou por ambientes frequentados por bilionários, celebridades e operadores do luxo. Nesse universo, cruzou em algumas ocasiões com Epstein. Seu nome aparece citado em poucos documentos entre os milhões divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, incluindo recortes de imprensa e um e-mail enviado ao criminoso sexual por intermédio de terceiros, com link para uma revista de luxo.
Ao The New York Times, Zampolli disse que não tinha proximidade com Epstein. Ainda assim, o entrelaçamento entre o mercado de modelos, as elites nova-iorquinas, o entorno dos Trump e o nome de Epstein reforça o peso político e simbólico da narrativa agora apresentada por Amanda.
Ao fim da entrevista ao El País, já com o sol caindo no Rio de Janeiro, Amanda repassava uma história marcada por poder, violência, silenciamento e colapso pessoal. Entre reuniões com advogados e a esperança de rever o filho, ela indica que pode ampliar ainda mais o alcance público do caso. A frase que escolheu para definir seu momento resume o tom da batalha: “Agora é a guerra”.


