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Alemanha e França "não se deixarão chantagear" pelas tarifas de Trump

Ministros afirmam que a União Europeia dará resposta unida às ameaças do presidente dos Estados Unidos envolvendo tarifas e a disputa sobre a Groenlândia

Emmanuel Macron e Friedrich Merz (Foto: Reuters/Annegret Hilse)

247 - Os ministros das Finanças da Alemanha e da França afirmaram nesta segunda-feira (19) que as principais potências europeias não aceitarão ser pressionadas por ameaças comerciais feitas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A declaração ocorre após o anúncio de que Washington poderia impor tarifas crescentes a produtos europeus caso os EUA não sejam autorizados a comprar a Groenlândia, território autônomo ligado à Dinamarca.

A informação foi divulgada pela agência Reuters, que acompanhou a declaração conjunta dos ministros em Berlim. O episódio elevou a tensão nas relações transatlânticas e levou a União Europeia a discutir medidas de resposta, incluindo o uso de instrumentos comerciais e políticos ainda inéditos no bloco.

Durante o encontro, o ministro das Finanças alemão, Lars Klingbeil, foi enfático ao rejeitar a estratégia adotada por Washington. “Alemanha e França concordam: não vamos nos deixar chantagear”, declarou. Segundo ele, a Europa precisa demonstrar que há limites claros para esse tipo de pressão entre aliados históricos.

Na mesma linha, o ministro francês das Finanças, Roland Lescure, classificou a postura do presidente dos Estados Unidos como inaceitável. “Chantagem entre aliados de 250 anos, chantagem entre amigos, é obviamente inaceitável”, afirmou, destacando que a relação entre Europa e Estados Unidos deve se basear em negociação, não em ameaças.

A escalada teve início após Donald Trump prometer, no último sábado, uma nova rodada de tarifas sobre importações europeias até que os Estados Unidos obtenham permissão para adquirir a Groenlândia, ampliando um impasse diplomático sobre o futuro estratégico da ilha no Ártico.

Diante do cenário, líderes da União Europeia devem se reunir em uma cúpula emergencial em Bruxelas para discutir possíveis respostas. Uma das alternativas em análise é um pacote de tarifas sobre 93 bilhões de euros em importações norte-americanas, o equivalente a cerca de US$ 107,7 bilhões, que poderia entrar automaticamente em vigor após o fim de um período de suspensão de seis meses.

Klingbeil reforçou que o bloco está disposto ao diálogo, mas sem aceitar imposições. “Nós, europeus, precisamos deixar claro: o limite foi alcançado. Nossa mão está estendida, mas não estamos preparados para ser chantageados”, afirmou.

Outra opção considerada é o chamado Instrumento Anti-Coerção, ainda não testado, que permitiria à União Europeia restringir o acesso de empresas estrangeiras a licitações públicas, investimentos, atividades bancárias ou até ao comércio de serviços — área em que os Estados Unidos mantêm superávit com o bloco, especialmente no setor digital.

Segundo Lescure, apesar de o mecanismo ter sido concebido como elemento de dissuasão, o momento exige que ele seja levado em conta. “A França quer que examinemos essa possibilidade, esperando, claro, que a dissuasão prevaleça”, disse. O ministro acrescentou que espera que a relação transatlântica volte a ser “amigável e baseada na negociação, em vez de uma relação baseada em ameaças e chantagem”.

O ministro alemão ponderou que não tem interesse em uma escalada do conflito, alertando que isso prejudicaria as economias dos dois lados do Atlântico. Ainda assim, ambos rebateram declarações recentes do secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, que sugeriu que uma suposta “fraqueza” europeia justificaria o controle norte-americano da Groenlândia para garantir a estabilidade global.

Lescure respondeu diretamente ao argumento. “Nosso objetivo nos próximos dias, semanas, trimestres e anos é convencer educadamente, mas com firmeza, Scott Bessent de que ele está errado”, afirmou. Para ele, a Europa precisa avançar em reformas que fortaleçam sua vantagem tecnológica e produtividade, demonstrando sua capacidade econômica e política.

Klingbeil também destacou o peso do bloco europeu no cenário internacional. Com 27 países e cerca de 450 milhões de cidadãos, segundo ele, a União Europeia deve consolidar sua força econômica, de segurança e política. “O que espero de nós, como europeus, é que, em uma questão que diz respeito à integridade e à soberania de um país, coloquemos um sinal claro de parada e digamos: não vamos seguir por esse caminho”, concluiu.

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