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Após ataques, status de "porto-seguro" de Dubai é colocado à prova em meio a conflito no Oriente Médio

Bombardeios iranianos atingiram setores estratégicos do emirado e desafiam a promessa de estabilidade da cidade

Fumaça sobe do porto de Jebel Ali após ataque iraniano, após ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, em Dubai, Emirados Árabes Unidos, 1º de março de 2026 (Foto: REUTERS/Abdelhadi Ramahi)

Reuters – Durante décadas, a imagem de Dubai foi associada a arranha-céus reluzentes, salários isentos de impostos, facilidade para fazer negócios e, sobretudo, a uma promessa implícita: independentemente do que ocorresse no restante do Oriente Médio, a cidade permaneceria imune. Conflitos que desestabilizaram a região pareciam não ultrapassar suas fronteiras.

No sábado (28), esse cenário mudou. Ataques retaliatórios do Irã no Golfo atingiram setores estratégicos de Dubai, alcançando aeroportos, hotéis e portos. Os bombardeios também abalaram o alicerce psicológico de uma cidade que, ao longo de quatro décadas, construiu a reputação de um dos ambientes mais confiáveis do mundo para fazer negócios em uma vizinhança marcada por instabilidade.

As autoridades dos Emirados Árabes Unidos, aliados próximos dos Estados Unidos, agiram rapidamente para conter tanto os danos físicos quanto o impacto sobre a confiança. A Autoridade Nacional de Gestão de Emergências, Crises e Desastres informou que a situação permanecia sob controle. Para investidores e residentes que viram marcos da cidade serem atingidos por mísseis enquanto estocavam suprimentos, as garantias foram registradas, mas sua suficiência permanece incerta.

"É difícil exagerar o risco para o modelo econômico de Dubai", afirmou Jim Krane, pesquisador do Baker Institute da Rice University. "Os danos físicos podem ser limitados, e a maior parte do impacto até agora é psicológico. Mas o status de Dubai como porto seguro para expatriados e seus negócios está cada vez mais em dúvida. Quanto mais a guerra continuar, mais intensa será a busca por alternativas. Dubai precisa que essa guerra termine agora. O capital internacional é altamente móvel."

Em sinal das tensões em curso, as bolsas dos Emirados Árabes Unidos permaneceram fechadas na segunda-feira (2) e na terça-feira (3). Falhas tecnológicas após danos a instalações de computação em nuvem da Amazon afetaram parte das operações bancárias, segundo uma pessoa familiarizada com o tema. Dezenas de milhares de pessoas continuavam retidas no país, já que o espaço aéreo permanecia em grande parte fechado.

Como Dubai construiu sua marca

A transformação de Dubai, de um modesto porto de pesca e extração de pérolas em centro financeiro global, foi um projeto de décadas. O lançamento da companhia aérea Emirates em 1985, a inauguração do hotel Burj Al Arab em 1999 e a adoção, no início dos anos 2000, de leis que permitiram pela primeira vez a estrangeiros possuir imóveis foram pilares da chamada Marca Dubai.

A economia do emirado é hoje amplamente sustentada por setores não petrolíferos, sendo que o petróleo responde por menos de 2% do PIB. Comércio, turismo, mercado imobiliário de alto padrão e serviços financeiros, apoiados em um arcabouço regulatório inspirado em Londres e Nova York, substituíram a dependência do petróleo. O vizinho Abu Dhabi, que concentra mais de 90% das reservas de petróleo dos Emirados, segue mais dependente dessa receita para impulsionar seu crescimento.

Beirute já foi a capital financeira internacional da região até que a guerra civil nos anos 1970 destruiu essa imagem. O Bahrein ocupou esse espaço até a ascensão de Dubai, que acabou reduzindo o papel do vizinho. Cada sucessão se baseou na promessa de oferecer uma alternativa estável e aberta ao último foco de crise regional. Dubai executou essa proposta de forma mais abrangente que seus predecessores.

O crescimento do emirado também se beneficiou da instabilidade alheia. Sírios deslocados pela guerra civil, famílias abastadas impactadas pela Primavera Árabe e, mais recentemente, russos que deixaram seu país por causa do conflito na Ucrânia transferiram capital e talentos para Dubai.

A população dos Emirados Árabes Unidos saltou de cerca de 1 milhão em 1980 para 11 milhões em 2024. No ano passado, o país estava a caminho de atrair um recorde de 9.800 milionários em processo de mudança, mais do que qualquer outra nação, segundo a Henley & Partners. Recursos fluíram para o setor imobiliário, levando a incorporadora Emaar Properties a atingir máxima histórica em 25 de fevereiro, avaliando a empresa em cerca de 149 bilhões de dirhams, o equivalente a 40,6 bilhões de dólares.

A criação do Centro Financeiro Internacional de Dubai (DIFC), em 2004, impulsionou a atração de instituições financeiras. Ao fim de 2025, o DIFC abrigava mais de 290 bancos, 102 fundos hedge, 500 empresas de gestão de patrimônio e 1.289 entidades relacionadas a family offices.

O que mudou no sábado

Apesar do sucesso, as vulnerabilidades sempre existiram. O Estreito de Ormuz, por onde transita cerca de um quinto do petróleo transportado por via marítima no mundo, está às portas de Dubai. O Irã, com capacidade e motivação para desestabilizar o comércio no Golfo, localiza-se do outro lado da passagem.

Os danos físicos no fim de semana foram expressivos. O Aeroporto Internacional de Dubai foi atingido, um cais no Porto de Jebel Ali pegou fogo e o hotel Burj Al Arab sofreu danos causados por fragmentos de interceptadores. Três pessoas morreram e 58 ficaram feridas, segundo o Ministério da Defesa dos Emirados.

"As pessoas estão com medo do que está acontecendo. É a primeira vez que precisam se esconder em locais subterrâneos. O aeroporto de Dubai, um dos maiores do mundo, precisou fechar por alguns dias", afirmou Nabil Milali, gestor de portfólio multimercado da Edmond de Rothschild Asset Management, que reduziu a exposição global da empresa a ações na semana passada diante da possibilidade de um ataque ao Irã. "Há 70% de probabilidade de mantermos um prêmio de risco geopolítico na região por muito tempo."

Uma fonte de uma empresa de investimentos de médio porte sediada nos Emirados informou que a companhia começou a planejar cortes de pessoal de forma preventiva e suspendeu captações de recursos. A demanda por barras de ouro aumentou, segundo fonte do setor joalheiro. Bancos privados internacionais, que vinham ampliando operações de assessoria no emirado, podem reavaliar a extensão de sua presença, afirmou um banqueiro privado. Empresas também podem reconsiderar se devem atender clientes localmente ou a partir de outra base.

"Historicamente, mercados como os Emirados demonstraram resiliência durante crises, incluindo a Covid, apoiados por forte resposta de políticas públicas e governança", disse Madhur Kakkar, fundador e CEO da Elevate Financial Services. "Neste momento, uma realocação estrutural ampla de capital institucional para fora dos Emirados ou do Golfo parece improvável, a menos que as tensões se intensifiquem de forma significativa ou persistam por um período prolongado."

Ainda não há dados sobre saídas de capital. A suspensão das negociações nas bolsas de Abu Dhabi e Dubai nos dias 2 e 3 de março representa uma medida sem precedentes por parte dos reguladores dos Emirados.

"É uma mudança significativa nas percepções", afirmou William Jackson, economista-chefe para mercados emergentes da Capital Economics. "As economias do Golfo geralmente eram vistas como protegidas de retaliações iranianas. Isso realmente mudou no fim de semana."

Segundo ele, o impacto dependerá da duração do conflito. "Mas trata-se de um desafio relevante, especialmente quando consideramos os esforços de diversificação econômica em curso na região."

(1 dólar = 3,6728 dirhams dos Emirados Árabes Unidos)

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