Conflitos geoeconômicos lideram ranking de riscos globais, aponta estudo
Relatório do Fórum Econômico Mundial mostra tensões entre países, desinformação e crise climática no centro das preocupações
247 - A intensificação de disputas geoeconômicas entre países está no topo da lista de ameaças globais de curto prazo e revela a formação de uma nova dinâmica competitiva no cenário internacional. A conclusão consta do mais recente Relatório de Riscos Globais do Fórum Econômico Mundial, divulgado nesta quarta-feira (14), que traça um panorama de forte instabilidade para o mundo nos próximos anos, segundo a Folha de São Paulo.
O estudo se baseia na opinião de mais de 1,3 mil líderes e especialistas globais e indica uma deterioração significativa das expectativas em relação ao relatório anterior. Em comparação com 2025, houve um aumento de 14 pontos percentuais na percepção de que o mundo enfrentará um período turbulento no curto prazo.
Segundo os dados levantados, 40% dos entrevistados projetam instabilidade nos próximos dois anos, enquanto apenas 9% esperam um cenário estável e 1% aposta em calmaria. Entre os principais fatores de tensão estão a disseminação de desinformação, a polarização social, eventos climáticos extremos e o crescimento de conflitos entre países, que passaram a ocupar posições centrais na avaliação de riscos globais.
A perspectiva de longo prazo também é marcada por pessimismo. Para o horizonte de dez anos, 57% dos participantes acreditam que o mundo será turbulento, e 32% projetam instabilidade. Apenas 1% prevê um ambiente global mais tranquilo nesse período.
O presidente e CEO do Fórum Econômico Mundial, Børge Brende, afirmou que o encontro anual da entidade em Davos, na Suíça, marcado para a próxima semana, será decisivo para discutir caminhos diante desse cenário complexo. “Uma nova ordem competitiva está se formando à medida que as grandes potências buscam assegurar suas esferas de influência. Este cenário em transformação, onde a cooperação se apresenta de forma marcadamente diferente de ontem, reflete uma realidade pragmática: abordagens colaborativas e o espírito de diálogo continuam sendo essenciais”, declarou.
Apesar do diagnóstico preocupante, o relatório ressalta que os riscos não são inevitáveis. Para a diretora executiva do Fórum, Saadia Zahid, a publicação, que chega à sua 21ª edição, serve como um alerta sobre a responsabilidade compartilhada na construção do futuro global.
O documento organiza os riscos em três horizontes temporais: imediato, curto a médio prazo — até dois anos — e longo prazo, considerando a próxima década. No curto prazo, predominam preocupações relacionadas à violência de conflitos armados e ao uso estratégico de instrumentos econômicos como forma de pressão entre Estados. Já no longo prazo, ganham peso a aceleração tecnológica e a degradação ambiental.
Embora não cite diretamente episódios específicos, o relatório foi elaborado em um contexto marcado pela guerra comercial promovida pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e pela escalada de tensões geopolíticas na Europa, nas Américas e no Oriente Médio. Esse ambiente contribuiu para que os riscos geoeconômicos subissem oito posições em relação ao levantamento anterior.
Como consequência, o estudo alerta para ameaças às cadeias globais de suprimentos, ao crescimento econômico e à capacidade de cooperação internacional em momentos de crise. Medidas conjuntas para enfrentar choques econômicos tendem a se tornar mais difíceis em um cenário de fragmentação política e econômica.
Entre os dez maiores riscos globais no curto prazo estão confrontos geoeconômicos, desinformação, polarização social, eventos climáticos extremos, conflitos entre países, insegurança cibernética, desigualdade, erosão de direitos humanos, poluição e migração involuntária.
O relatório também aponta que 68% dos entrevistados esperam uma ordem mundial multipolar ou fragmentada na próxima década, quatro pontos percentuais acima do registrado no ano anterior. Fora do grupo dos dez principais riscos, a recessão econômica e a inflação ganharam relevância, assim como o temor de uma bolha de ativos, que avançou significativamente no ranking.
No longo prazo, os riscos ambientais lideram as preocupações globais. Condições climáticas extremas, perda de biodiversidade, colapso de ecossistemas e mudanças críticas nos sistemas naturais da Terra ocupam as primeiras posições. O avanço descontrolado da inteligência artificial também aparece com destaque, saltando da 30ª posição no curto prazo para o quinto lugar na avaliação de dez anos.
Segundo o relatório, esse avanço reflete a crescente ansiedade sobre os impactos da inteligência artificial no mercado de trabalho, na organização da sociedade e na segurança global. Ainda assim, é a crise ambiental que se consolida como a maior fonte de preocupação estrutural para o futuro do planeta, conforme a avaliação dos especialistas ouvidos pelo Fórum Econômico Mundial.


