Delegações de EUA e Irã estão no Paquistão para inciar negociações tensas
Diálogo começa no Paquistão em meio a divergências
247 - As negociações entre Estados Unidos e Irã começam neste sábado (11) em Islamabad, capital do Paquistão, em meio a fortes tensões geopolíticas e exigências de Teerã relacionadas ao Líbano, às sanções econômicas e ao controle estratégico do Estreito de Ormuz. O encontro marca uma tentativa de encerrar um conflito que já dura seis semanas, mas enfrenta incertezas desde o início.
De acordo com a agência Reuters, autoridades iranianas condicionaram o avanço das conversas ao cumprimento prévio de promessas, como o alívio de sanções e um cessar-fogo no Líbano. A delegação norte-americana é liderada pelo vice-presidente JD Vance e inclui o enviado especial Steve Witkoff e Jared Kushner, genro do presidente Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos. Já a equipe iraniana é chefiada pelo presidente do parlamento, Mohammad Baqer Qalibaf, e pelo chanceler Abbas Araqchi.
As reuniões representam o mais alto nível de diálogo entre os dois países desde a Revolução Islâmica de 1979 e também o primeiro encontro oficial presencial desde o acordo nuclear firmado em 2015, posteriormente abandonado por Trump em 2018, durante seu primeiro mandato.
Antes mesmo do início formal das tratativas, Qalibaf declarou que as conversas não ocorreriam sem o cumprimento de compromissos prévios por parte dos EUA. Segundo ele, Washington teria concordado em desbloquear ativos iranianos e avançar em um cessar-fogo no Líbano, onde ataques israelenses contra o Hezbollah, grupo apoiado por Teerã, já deixaram cerca de 2 mil mortos desde março.
A divergência sobre o conflito no Líbano é um dos principais entraves. Enquanto Estados Unidos e Israel afirmam que a ofensiva não está vinculada ao cessar-fogo firmado com o Irã, o governo iraniano sustenta o contrário. Em paralelo, autoridades de Israel e do Líbano também devem se reunir em Washington nos próximos dias, com versões divergentes sobre o escopo dessas negociações.
Em meio ao impasse, Donald Trump afirmou nas redes sociais que o Irã não possui alternativas estratégicas relevantes. “Os iranianos parecem não perceber que não têm outras cartas na manga, além de uma extorsão de curto prazo contra o mundo através do uso das vias navegáveis internacionais. A única razão pela qual ainda estão vivos hoje é para negociar!”, disse.
O vice-presidente JD Vance adotou um tom cauteloso, mas assertivo, ao comentar a expectativa para os encontros. “Se eles tentarem nos enganar, vão descobrir que a equipe de negociação não está muito receptiva”, afirmou durante o deslocamento ao Paquistão.
Nos bastidores, fontes paquistanesas indicaram que equipes preliminares de ambos os lados já realizaram reuniões separadas, com a participação de dezenas de especialistas técnicos, incluindo áreas econômica, de segurança e política. Uma fonte próxima às discussões afirmou: “Estamos muito otimistas”, embora tenha ressaltado que ainda é cedo para prever resultados concretos.
A capital paquistanesa foi submetida a um forte esquema de segurança, com bloqueios e presença massiva de forças militares e paramilitares. Segundo o secretário de Estado do Interior do Paquistão, Talal Chaudhry, “implementamos um sistema de segurança multicamadas para este evento, baseado em coordenação, inteligência e monitoramento constante para garantir zero interrupções e controle total”.
Apesar do anúncio recente de um cessar-fogo de duas semanas feito por Trump, os efeitos no terreno ainda são limitados. O bloqueio iraniano ao Estreito de Ormuz continua, impactando significativamente o fornecimento global de energia e contribuindo para pressões inflacionárias na economia mundial.
Além disso, o Irã mantém demandas amplas, incluindo o fim das sanções econômicas, compensações por danos causados pela guerra e reconhecimento de sua autoridade sobre o Estreito de Ormuz — uma reivindicação que pode alterar significativamente o equilíbrio de poder na região.
O novo líder supremo iraniano, aiatolá Mojtaba Khamenei, reforçou o tom firme ao declarar que o país exigirá reparações. “Certamente não deixaremos impunes os agressores criminosos que atacaram nosso país”, afirmou, segundo a mídia estatal iraniana.
Mesmo com os esforços diplomáticos, analistas apontam que o conflito ainda está longe de atingir os objetivos iniciais anunciados por Washington, como a limitação da capacidade militar iraniana e o desmantelamento de seu programa nuclear. O Irã segue com arsenal de mísseis e drones ativos, além de um estoque significativo de urânio enriquecido próximo ao nível necessário para armamento nuclear.
Nesse cenário complexo, as negociações em Islamabad surgem como uma oportunidade crítica, mas cercada de incertezas e desafios que podem determinar os rumos da estabilidade no Oriente Médio e da economia global.


