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EUA e Irã começam no sábado negociação em Islamabad após semanas de guerra

Reuniões entre EUA e Irã no Paquistão ocorrem após anúncio de cessar-fogo frágil

Ilustração mostra as bandeiras do Irã e dos EUA 27/01/2022 REUTERS/Dado Ruvic/Foto ilustrativa (Foto: REUTERS/Dado Ruvic/Foto ilustrativa)

247 - A capital do Paquistão se prepara para sediar negociações entre Estados Unidos e Irã neste fim de semana, em meio a um cessar-fogo instável e à expectativa internacional por avanços diplomáticos após semanas de guerra que afetaram a segurança global e os mercados de energia. As reuniões, previstas para começar no sábado, acontecem em Islamabad sob forte esquema de segurança e com participação de autoridades de alto escalão.

Os encontros ocorrem cerca de seis semanas após ataques coordenados de Estados Unidos e Israel contra o Irã, que desencadearam um conflito de grandes proporções, com milhares de mortos e impactos diretos no fornecimento global de petróleo e gás. A trégua atual, mediada pelo Paquistão, enfrenta tensões devido a divergências sobre seus termos e à continuidade de bombardeios israelenses no Líbano.

O cenário internacional permanece sensível desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, especialmente após o Irã restringir o tráfego no Estreito de Ormuz — rota estratégica por onde passa cerca de 20% da energia mundial em tempos de paz. A medida elevou os preços globais e aumentou a pressão por uma solução negociada.

Quem participa das negociações

A delegação dos Estados Unidos será liderada pelo vice-presidente JD Vance, acompanhado pelo enviado especial Steve Witkoff e por Jared Kushner, genro do presidente Donald Trump. Do lado iraniano, devem participar o presidente do Parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, e o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi.

Autoridades paquistanesas, no entanto, alertam que a confirmação das delegações depende da chegada efetiva dos representantes ao país. O embaixador iraniano no Paquistão, Reza Amiri Moghadam, chegou a anunciar a participação em uma publicação posteriormente apagada, indicando que Teerã busca “negociações sérias com base nos 10 pontos propostos pelo Irã”.

Como serão conduzidas as conversas

O primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, deve atuar como anfitrião e realizar encontros preliminares com ambas as delegações antes das negociações formais. As discussões devem ocorrer com os representantes dos dois países em salas separadas, com mediação de autoridades paquistanesas.

O hotel Serena, localizado na chamada “Zona Vermelha” de Islamabad, área que abriga edifícios governamentais e embaixadas, foi reservado para o evento, enquanto medidas de segurança foram intensificadas em toda a cidade, incluindo o fechamento de acessos e a decretação de feriados locais.

O que está em jogo

As negociações começam com divergências significativas. O Irã propôs um plano de dez pontos que inclui controle sobre o Estreito de Ormuz, retirada das forças militares dos EUA do Oriente Médio e suspensão de operações contra grupos aliados. O governo Trump classificou a proposta como “viável”, mas não a aceitou formalmente.

Washington, por sua vez, afirma que o Irã estaria disposto a abrir mão de seu estoque de urânio enriquecido, uma exigência considerada inegociável pela Casa Branca. Teerã não confirmou essa disposição.

Outro ponto central de divergência envolve o Líbano. O ministro iraniano Abbas Araghchi alertou que o país pode abandonar o cessar-fogo caso os ataques israelenses continuem, enquanto autoridades americanas sustentam que o acordo não abrange o território libanês.

Obstáculos e expectativas

Analistas apontam que a falta de confiança entre as partes é o principal entrave para um acordo. Sahar Khan, analista independente baseada em Washington, afirmou à Al Jazeera que “a falta de confiança é o maior obstáculo” e destacou que ambos os lados tentam demonstrar força ao adotar posições mais rígidas.

Já o ex-embaixador paquistanês Masood Khalid avaliou que o ambiente foi prejudicado antes mesmo do início das negociações. “Israel está atuando para sabotar o processo”, disse ele, acrescentando que os bombardeios no Líbano podem endurecer as posições e dificultar avanços.

Khan também alertou para o papel decisivo dos Estados Unidos na condução do processo. “Um acordo sustentável só será possível se Israel parar de atacar”, afirmou, ressaltando que cabe a Washington decidir entre manter a pressão militar ou reforçar o cessar-fogo.

Especialistas consideram improvável um acordo definitivo no curto prazo, mas apontam que avanços pontuais, como entendimentos sobre o programa nuclear iraniano ou a reabertura do Estreito de Ormuz, podem representar um primeiro passo para reduzir as tensões e estabilizar a região.

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