EUA e Irã iniciam negociações na Suíça enquanto ataques de Israel ameaçam trégua no Líbano
Enviado de Donald Trump e chanceler iraniano seguem para negociações; ofensivas israelenses após cessar-fogo elevam tensão regional
247 - Os Estados Unidos e o Irã se preparam para abrir uma nova rodada de negociações diplomáticas na Suíça em meio a um cenário de forte instabilidade no Oriente Médio. O enviado especial do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Steve Witkoff, e o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, estão a caminho do país europeu para conversas consideradas decisivas para a continuidade do acordo de cessar-fogo e para a retomada das discussões sobre o programa nuclear iraniano.
As informações foram divulgadas inicialmente pelo portal Axios e repercutidas pela agência Reuters. As negociações ocorrem enquanto ataques israelenses no sul do Líbano colocam em risco a implementação de um cessar-fogo recém-estabelecido entre Israel e o Hezbollah, grupo apoiado pelo Irã.
Poucas horas após a entrada em vigor da trégua, ataques aéreos e com drones atribuídos a Israel deixaram pelo menos cinco mortos no sul do Líbano, segundo a imprensa estatal libanesa. A escalada gera dúvidas sobre a sustentabilidade do acordo, considerado peça-chave para o avanço das negociações entre Washington e Teerã.
Ataques colocam cessar-fogo sob pressão
O cessar-fogo entre Israel e Hezbollah entrou em vigor por volta das 16h de sexta-feira, segundo autoridades dos Estados Unidos. A trégua também foi confirmada por fontes ligadas ao Hezbollah e por um alto funcionário israelense.
Apesar disso, a agência estatal libanesa NNA informou que aviões de guerra e drones israelenses realizaram uma série de ataques durante a madrugada e a manhã de sábado na região de Nabatieh. Os bombardeios teriam destruído edifícios residenciais, enquanto disparos de artilharia atingiram áreas próximas antes do amanhecer.
Até o momento, o governo israelense não comentou oficialmente as informações divulgadas pela agência libanesa.
Negociações entre EUA e Irã ganham protagonismo
Segundo o Axios, Steve Witkoff segue para a Suíça para se juntar a Jared Kushner, genro de Donald Trump, que já se encontra no país. Abbas Araqchi também deveria viajar para território suíço neste sábado para participar das conversas.
A Casa Branca não respondeu aos questionamentos sobre a viagem de Witkoff, enquanto o governo iraniano não confirmou oficialmente o deslocamento de Araqchi.
O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, havia planejado participar das discussões em Buergenstock, resort suíço localizado em uma região montanhosa, mas cancelou a viagem na quinta-feira em meio ao agravamento das tensões envolvendo Israel e Hezbollah.
Suíça mantém papel de mediadora
O Ministério das Relações Exteriores da Suíça informou que continua disponível para facilitar os contatos entre Washington e Teerã e que os trabalhos preparatórios para as negociações seguem em andamento.
O acordo provisório firmado na quarta-feira prevê que Estados Unidos, Irã e seus respectivos aliados promovam a interrupção imediata e permanente das operações militares em todas as frentes, incluindo o território libanês.
Israel, que não participou das negociações que resultaram no entendimento, afirma não ser parte do acordo.
A estabilidade no Líbano é considerada fundamental para o sucesso das tratativas entre norte-americanos e iranianos. O objetivo é abrir uma janela de 60 dias para discutir temas como o programa nuclear do Irã, sanções econômicas e mecanismos de segurança regional.
Líbano é peça central para acordo duradouro
Em conversa telefônica com o ministro das Relações Exteriores do Paquistão na sexta-feira, Abbas Araqchi afirmou que os Estados Unidos seriam responsáveis por qualquer descumprimento dos compromissos assumidos no acordo, incluindo o encerramento das hostilidades no Líbano, segundo comunicado do Ministério das Relações Exteriores iraniano.
O conflito alcançou o território libanês quando o Hezbollah iniciou ataques contra Israel em 2 de março. Em resposta, Israel lançou uma ofensiva militar contra o grupo e avançou sobre áreas do sul do Líbano.
Antes dos ataques deste sábado, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e o presidente libanês, Joseph Aoun, discutiram a realização de negociações entre Israel e Líbano em Washington entre terça e quinta-feira da próxima semana, informou o Departamento de Estado norte-americano.
A Presidência libanesa declarou que um cessar-fogo abrangente representa um dos pilares essenciais para o êxito dessas conversas diplomáticas.
Impactos econômicos e disputa política nos EUA
A guerra envolvendo o Irã já provocou mais de 7 mil mortes, a maioria em território iraniano e libanês, além de pressionar os mercados globais de energia e alimentar preocupações com a inflação em diversos países.
Nos últimos dias, os preços do petróleo registraram queda. O barril do Brent acumulou recuo de cerca de 8% na semana, enquanto o fluxo de embarcações pelo Estreito de Ormuz aumentou após a assinatura do acordo provisório.
Antes do conflito, a passagem marítima respondia por quase um quinto do transporte global de petróleo bruto e gás natural liquefeito. Durante a guerra, o Irã chegou a bloquear a região estratégica.
A autoridade iraniana criada para administrar o estreito anunciou na sexta-feira que suspenderá temporariamente as tarifas previstas para o período de negociações do acordo interino.
O entendimento também prevê alívio de sanções econômicas contra o Irã, desbloqueio de ativos avaliados em dezenas de bilhões de dólares, autorização imediata para exportações iranianas de petróleo e a criação de um fundo de reconstrução estimado em US$ 300 bilhões.
Trump rebate críticas ao acordo
Nos Estados Unidos, Donald Trump voltou a defender o acordo diante das críticas recebidas em Washington, inclusive de aliados republicanos no Congresso que questionam as concessões feitas para encerrar um conflito impopular às vésperas das eleições legislativas de novembro.
Em publicação nas redes sociais na sexta-feira, o presidente norte-americano afirmou que a guerra enfraqueceu significativamente o Irã e rejeitou a ideia de que Washington tenha negociado por necessidade.
"A guerra enfraqueceu o Irã!", escreveu Trump. Em seguida, acrescentou: "Nós não nos reunimos por desespero; o Irã sim. Eles estão acabados! Vamos cumprir os 60 dias. Eles não receberão dinheiro, nem 10 centavos!"



