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EUA planejam processar 4.500 pedidos mensais de refúgio de sul-africanos brancos

Meta atribuída à Casa Branca supera o teto anunciado pelo presidente Donald Trump e envolve a montagem de um “vilarejo modular” na embaixada em Pretória

Presidente dos EUA, Donald Trump, na Casa Branca 20/02/2026 REUTERS/Kevin Lamarque (Foto: REUTERS/Kevin Lamarque)

247 – Os Estados Unidos pretendem processar 4.500 solicitações de refúgio por mês de sul-africanos brancos, segundo um documento de contratação do governo norte-americano que descreve a instalação de estruturas temporárias em área da embaixada em Pretória para dar suporte à triagem e às entrevistas.

A informação foi revelada pela Reuters, com base em um documento do Departamento de Estado datado de 27 de janeiro, que não havia sido noticiado anteriormente e que indica uma tentativa de acelerar admissões a partir da África do Sul, em contraste com a redução severa de pedidos oriundos de outras regiões.

Meta mensal supera o teto anunciado por Trump

O plano descrito no documento aparece como significativamente superior ao teto de admissões divulgado pelo presidente Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, para o ano fiscal de 2026. De acordo com a reportagem, Trump afirmou que os EUA aceitariam apenas 7.500 refugiados no total, em escala global, no período.

Ainda assim, o documento aponta para uma diretriz de alto volume concentrada em um grupo específico: sul-africanos brancos, com destaque para a etnia africâner. A Reuters relata que, internamente, chegou a ser discutido no ano passado um teto maior — entre 40 mil e 60 mil —, mas a referência pública citada na reportagem é a de 7.500.

Programa iniciado em 2025 e aceleração recente

Segundo os dados mencionados, cerca de 2.000 sul-africanos brancos haviam entrado nos Estados Unidos como refugiados até 31 de janeiro, dentro de um programa lançado em maio de 2025. A tendência, porém, teria se intensificado nos meses mais recentes.

A Reuters afirma que, antes de uma pausa administrativa, as admissões vinham crescendo: aproximadamente 1.500 pessoas teriam sido admitidas em dezembro e janeiro, contra cerca de 500 nos seis meses e meio anteriores, com base em números do Departamento de Estado mencionados no texto.

Esse aumento, contudo, passou a conviver com obstáculos operacionais em Washington. Um funcionário norte-americano familiarizado com o tema, citado pela Reuters, disse que entraves administrativos criaram um acúmulo de processos, e que isso contribuiu para retardar aprovações.

Pausa nas admissões e gargalos administrativos

A reportagem informa que o Departamento de Estado cancelou viagens de refugiados — inclusive de sul-africanos — no período de 23 de fevereiro a 9 de março, por “fatores operacionais”, conforme um e-mail enviado aos candidatos.

Além disso, por conta de uma ampla restrição ao programa de refúgio emitida em janeiro de 2025, os sul-africanos precisariam ser admitidos como exceções, caso a caso, mediante autorização do secretário de Estado Marco Rubio e da secretária de Segurança Interna Kristi Noem, ainda segundo a Reuters.

“Necessidade urgente” e mudança de local após operação sul-africana

O documento de contratação, publicado em uma base de dados do governo dos EUA na quarta-feira mencionada pela Reuters, sustenta que há uma necessidade urgente de um local seguro para processar os casos. O texto descreve que um local anterior, em propriedade comercial em Joanesburgo, foi alvo de uma operação de imigração das autoridades sul-africanas, o que teria comprometido o funcionamento.

O documento afirma que a ação levou o governo norte-americano a buscar um local mais protegido, depois que as “operações foram comprometidas”.

Em um trecho citado pela Reuters, o documento diz: “A incapacidade de processar com segurança cerca de 4.500 candidatos por mês, um objetivo comunicado à divisão de refugiados do Departamento de Estado dos EUA pela Casa Branca, resultaria no fracasso em cumprir uma prioridade presidencial”.

Contrato de US$ 772 mil e “vilarejo modular” na embaixada

Para viabilizar a estrutura em Pretória, o documento citado relata que uma empresa sul-africana recebeu um contrato sem licitação de US$ 772 mil para fornecer e instalar 14 edifícios modulares pré-fabricados, formando uma “vila modular temporária” em propriedade da embaixada.

A lógica do contrato, conforme descrito, foi justificar a contratação direta por razões de segurança e urgência, com a instalação de trailers e módulos para entrevistas e triagem, em um espaço sob controle diplomático.

Tensão bilateral e acordo reservado para manter o processamento

A Reuters descreve que as tensões entre EUA e África do Sul “transbordaram” em meados de dezembro, quando autoridades sul-africanas fizeram uma operação no prédio comercial em Joanesburgo onde equipes norte-americanas e contratadas trabalhavam nos processos.

Segundo o relato, sete quenianos que atuavam como contratados de um grupo de refugiados baseado nos EUA foram presos por supostas violações das regras de visto, e dois agentes norte-americanos chegaram a ser detidos por um curto período.

A reportagem afirma ainda que autoridades dos dois países chegaram a um entendimento em uma reunião reservada no fim de dezembro para permitir a continuidade do processamento — elemento que ajuda a explicar a mudança de local para um ambiente mais controlado, como a área da embaixada.

Disputa de narrativas: alegação de perseguição e resposta de Pretória

O programa, segundo a Reuters, foi impulsionado por declarações de Trump de que sul-africanos brancos, especialmente africâneres, seriam alvo de perseguição violenta em um país de maioria negra. O governo sul-africano rejeita essa caracterização, e críticos do programa nos EUA também contestam a política.

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores sul-africano, Chrispin Phiri, foi citado dizendo que o governo não interferirá no programa se ele permanecer dentro dos limites legais, mas reafirmou a discordância quanto à tese de perseguição sistêmica. Ele declarou: “A afirmação de que os africâneres enfrentam perseguição sistêmica é fundamentalmente infundada”.

Incertezas sobre a execução da meta de 4.500 por mês

Apesar do objetivo descrito no documento, a própria Reuters aponta que não está claro se os Estados Unidos conseguirão atingir o volume de 4.500 processos mensais, devido a gargalos administrativos e à pausa temporária nas admissões.

A reportagem acrescenta que o Departamento de Estado e o Departamento de Segurança Interna não responderam a pedidos de comentário, e que a Casa Branca direcionou questionamentos ao Departamento de Estado.

Interesse elevado e implicações políticas

A Reuters registra que a Câmara de Comércio Sul-Africana nos Estados Unidos informou, no ano passado, que mais de 67 mil pessoas expressaram interesse em se mudar. Ainda que “interesse” não seja sinônimo de elegibilidade, o número sugere um potencial de demanda que pode pressionar a capacidade operacional descrita no documento.

No pano de fundo, está a política migratória do governo Trump, que, segundo a Reuters, determinou uma suspensão de admissões de refugiados ao assumir em 2025 como parte de uma ofensiva mais ampla contra imigração legal e ilegal, e que, semanas depois, lançou a iniciativa específica para sul-africanos brancos.

Documento revela prioridade política explícita

O caso expõe uma contradição política e administrativa relevante: ao mesmo tempo em que o governo anuncia restrição global a admissões de refugiados, o documento descreve um esforço concentrado, com infraestrutura dedicada e prioridade presidencial indicada, para um grupo nacional e racial específico.

Ao classificar a meta de 4.500 processos mensais como uma “prioridade presidencial”, o texto reforça o caráter estratégico da iniciativa e evidencia a centralidade do tema na agenda da Casa Branca em 2026.

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