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Fim do tratado New START aproxima EUA e Rússia de nova corrida nuclear

Sem acordo de última hora, Washington e Moscou podem ficar sem limites para arsenais estratégicos pela primeira vez desde a Guerra Fria

Exibição de arma nuclear da Rússia (Foto: REUTERS/Grigory Dukor)

247 - Os Estados Unidos e a Rússia estão à beira de iniciar uma nova corrida armamentista nuclear sem precedentes desde o fim da Guerra Fria, caso não seja fechado um acordo de última hora antes do vencimento do Tratado New START, marcado para 5 de fevereiro. O fim do pacto pode eliminar os últimos freios formais aos arsenais estratégicos das duas maiores potências nucleares do planeta, elevando os riscos de instabilidade global, informa a agência Reuters.

Com a expiração do New START, deixariam de existir limites obrigatórios para mísseis e ogivas nucleares de longo alcance pela primeira vez em mais de 50 anos. O tratado é o último remanescente de uma arquitetura de controle de armas iniciada em 1972, quando o então presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon, e o líder soviético Leonid Brezhnev assinaram acordos históricos durante a primeira visita de um chefe de Estado norte-americano a Moscou.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, sugeriu que os dois países mantenham, por mais um ano, os atuais limites de mísseis e ogivas, como forma de ganhar tempo para negociar um novo acordo. Até o momento, porém, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, não respondeu formalmente à proposta. Neste mês, Trump afirmou que “se expirar, expirou” e declarou que o tratado deveria ser substituído por um acordo “melhor”.

A posição do presidente dos Estados Unidos divide o debate político em Washington. Alguns parlamentares defendem rejeitar a proposta russa para permitir que os EUA ampliem seu arsenal e enfrentem o rápido crescimento nuclear da China. Trump, por sua vez, diz querer buscar a “desnuclearização” com Rússia e China. Pequim, no entanto, afirma que é irreal exigir sua participação em negociações enquanto Washington e Moscou mantêm arsenais muito maiores.

Especialistas em segurança alertam que os tratados nucleares vão além de limites numéricos. Eles também estabelecem mecanismos de transparência e troca de informações, considerados essenciais para evitar erros de cálculo. Para Darya Dolzikova, pesquisadora do centro de estudos RUSI, em Londres, esses acordos ajudam as partes a “tentar entender de onde o outro lado vem e quais são suas preocupações e motivações”. Já o ex-negociador soviético e russo Nikolai Sokov advertiu que, sem regras, cada país passa a agir com base nos piores cenários: “É um processo que se autoalimenta. E, claro, se houver uma corrida armamentista sem regulação, a situação tende a ficar bastante desestabilizadora”.

Assinado em 2010 pelo então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e pelo então presidente russo Dmitry Medvedev, aliado de Putin, o New START limita a 1,55 mil o número de ogivas nucleares estratégicas implantadas por cada lado e restringe a 700 os sistemas de lançamento, incluindo mísseis balísticos intercontinentais, mísseis lançados de submarinos e bombardeiros pesados. A substituição do tratado, no entanto, é vista como complexa.

A Rússia desenvolveu novos sistemas com capacidade nuclear que não se enquadram nas regras atuais, como o míssil de cruzeiro Burevestnik, o sistema hipersônico Oreshnik e o torpedo Poseidon. Do lado norte-americano, Trump anunciou planos para um sistema de defesa antimísseis baseado no espaço, conhecido como “Golden Dome”, que Moscou interpreta como uma tentativa de alterar o equilíbrio estratégico.

Enquanto isso, o arsenal nuclear da China cresce sem estar sujeito a acordos com Washington e Moscou. Estimativas indicam que Pequim já possui cerca de 600 ogivas, com projeções do Pentágono apontando para mais de mil até 2030. Em 2023, uma comissão bipartidária do Congresso dos Estados Unidos afirmou que o país enfrenta um “desafio existencial” ao lidar simultaneamente com duas potências nucleares e recomendou preparar a reativação de ogivas hoje mantidas em reserva.

Essas medidas poderiam incluir a reinstalação de ogivas retiradas de mísseis Minuteman III, de mísseis Trident D5 lançados por submarinos e a reconversão de cerca de 30 bombardeiros B-52 para funções nucleares. Um ex-alto funcionário norte-americano envolvido com a política nuclear afirmou, sob anonimato: “As ogivas já existem. Os mísseis já existem. Não é preciso comprar nada novo”.

As avaliações sobre a escala dessa possível expansão variam. Kingston Reif, ex-integrante do Pentágono e hoje pesquisador da RAND, afirmou em um seminário que os Estados Unidos poderiam “aproximadamente dobrar” o número de ogivas implantadas, enquanto a Rússia teria condições de acrescentar cerca de 800. Segundo ele, ambos os países levariam pelo menos um ano para implementar mudanças significativas.

O debate sobre aceitar ou não a proposta russa também envolve custos. Defensores do controle de armas destacam que os Estados Unidos já enfrentam despesas elevadas com a modernização de suas forças nucleares. O Escritório de Orçamento do Congresso estima que o país gastará quase US$ 1 trilhão entre 2025 e 2034 para modernizar, manter e operar seu arsenal. Para Paul Dean, ex-funcionário de controle de armas e hoje ligado à Nuclear Threat Initiative, Trump deveria agir para “reduzir o risco de uma corrida nuclear dispendiosa e diminuir a chance de uma interpretação catastrófica das intenções do outro lado”.

O senador democrata Ed Markey reforçou o alerta: “Se os Estados Unidos ultrapassarem os limites do New START ao reinstalar ogivas, a Rússia fará o mesmo, e a China usará isso como mais uma justificativa para ampliar seu arsenal nuclear”. Ele acrescentou: “No fim das contas, Trump terá iniciado uma nova corrida armamentista que não precisamos e que não podemos vencer. Mais armas não nos tornarão mais seguros”.

No campo oposto, críticos da proposta russa afirmam que não se pode confiar em Moscou, lembrando que Putin suspendeu inspeções mútuas previstas no tratado em 2023, em meio às tensões provocadas pela guerra na Ucrânia. Para Franklin Miller, integrante da comissão bipartidária do Congresso, os Estados Unidos precisam ampliar seu arsenal estratégico. “Agora precisamos ser capazes de dissuadir Rússia e China ao mesmo tempo”, afirmou. Segundo ele, a força limitada pelo tratado de 2010 “não é suficiente para enfrentar Rússia e China juntas”, ainda que o aumento não precise ser “radical”.

Questionado sobre a posição do governo, um funcionário da Casa Branca declarou: “O presidente decidirá o caminho a seguir no controle de armas nucleares, o que será esclarecido no tempo dele”. Do lado russo, Dmitry Medvedev afirmou ao jornal Kommersant que Trump é imprevisível e advertiu: “A Rússia está preparada para qualquer desdobramento. Novas ameaças à nossa segurança serão respondidas de forma rápida e firme”.

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