Irã acusa Trump de incentivar desestabilização política
Autoridades endurecem discurso contra manifestantes, enquanto Trump ameaça atacar o país
247 - As autoridades iranianas elevaram o tom contra os protestos que se espalham pelo país há mais de duas semanas. O governo de Teerã afirma que manifestações e episódios de violência estão sendo estimulados por potências externas, em especial pelos Estados Unidos e por Israel.
O chefe do Judiciário do Irã, Gholam-Hossein Mohseni-Ejei, declarou que os responsáveis por atos violentos devem ser punidos sem demora. Segundo ele, aqueles que “decapitaram pessoas ou queimaram pessoas nas ruas” precisam ser “julgados e punidos o mais rápido possível”.
Mohseni-Ejei também afirmou que não haverá tolerância com quem atue em cooperação com os inimigos da República Islâmica, aponta reportagem da Al Jazeera. “Se alguém vai às ruas para provocar tumultos ou criar insegurança, ou apoia esses atos, então não resta mais nenhuma desculpa. A questão ficou muito clara e transparente. Eles agora estão atuando em alinhamento com os inimigos da República Islâmica do Irã”, disse o magistrado.
Autoridades iranianas acusam diretamente os Estados Unidos e Israel de ordenar e armar agentes para incitar a violência durante as manifestações, que têm atingido tanto forças de segurança quanto civis. A tensão aumentou após declarações de políticos norte-americanos em apoio aberto aos protestos.
O senador republicano Ted Cruz publicou um vídeo em sua conta na rede X no qual responsabiliza a liderança iraniana pelas mortes ocorridas. “Todos que estão sendo mortos são resultado do aiatolá [o líder supremo Ali Khamenei] e de sua opressão”, afirmou. Cruz classificou os acontecimentos no Irã como “incríveis” e elogiou “milhões de pessoas indo corajosamente às ruas para se levantar contra a repressão”. Ele acrescentou que Donald Trump “deixou claro: ‘Nós apoiamos vocês’”.
Ainda segundo o senador, existe “uma possibilidade muito, muito real de que nos próximos dias, semanas ou meses o regime iraniano caia”, sugerindo que a remoção da atual liderança tornaria os Estados Unidos “mais seguros”.
Enquanto isso, a televisão estatal iraniana informou que o país realizará funerais coletivos para integrantes das forças de segurança mortos durante os protestos. A agência semi-oficial Tasnim relatou que a cerimônia ocorrerá na Universidade de Teerã e será a primeira de uma série de homenagens oficiais. De acordo com a mídia iraniana, mais de 100 agentes de segurança morreram desde o início das manifestações, mortes atribuídas pelas autoridades a “elementos estrangeiros”.
A Organização das Nações Unidas informou que seus mais de 500 funcionários no Irã estão em segurança. O porta-voz da ONU, Stéphane Dujarric, disse que muitos trabalham remotamente devido à instabilidade, em um contexto no qual há relatos de centenas de manifestantes mortos. A equipe da ONU no país é composta por 46 funcionários internacionais e 448 nacionais.
No exterior, figuras da oposição iraniana também intensificaram suas manifestações. Reza Pahlavi, filho mais velho do último xá do Irã, Mohammad Reza Pahlavi, fez um apelo público para que militares se posicionem ao lado dos manifestantes. Em uma publicação na rede X, ele afirmou que o mundo “viu e ouviu” a coragem dos protestos e pediu que a população não permita que as autoridades criem “a ilusão de que a vida é normal”. Aos militares, escreveu: “Vocês não têm muito tempo”, pedindo que protejam os civis e se vejam como servidores da nação, e não do governo teocrático.
O contexto econômico também pesa sobre a crise. Donald Trump anunciou que pretende impor uma tarifa de 25% a qualquer país que mantenha relações comerciais com o Irã, aumentando a pressão sobre uma economia já enfraquecida por anos de sanções ocidentais, inflação elevada, desemprego e desvalorização da moeda nacional, o rial. O Irã depende fortemente de exportações para países como China, Turquia, Iraque, Emirados Árabes Unidos e Índia, sendo Pequim responsável por cerca de 80% das compras de petróleo iraniano.
Outras lideranças internacionais se pronunciaram. O ex-ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant, afirmou em entrevista à Rádio do Exército israelense que seu país deveria atuar com uma “mão invisível” durante os protestos. “Precisamos ficar por trás e direcionar as coisas com uma mão invisível”, disse. Gallant declarou ainda: “O regime no Irã precisa cair, e precisamos exercer paciência estratégica, mas agir quando necessário”.
Já o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskyy, declarou apoio à posição dos Estados Unidos. “Apoiamos a posição sobre o Irã: um regime que durou tantos anos e matou tantas pessoas não merece existir”, afirmou, acrescentando que “mudanças são necessárias”.
A declaração ocorre em meio à convocação de embaixadores iranianos por países europeus, enquanto a Rússia, aliada de Teerã, condenou a “interferência externa subversiva” nos assuntos internos do Irã.


