Irã promete monitorar cumprimento de acordo pelos EUA “sem qualquer leniência”
Teerã afirma que não cumprirá seus compromissos se Washington escapar das obrigações e diz que programa de mísseis está fora da mesa de negociação
247 – O Irã afirmou que irá monitorar o cumprimento do acordo provisório pelos Estados Unidos “sem qualquer leniência” e advertiu que não cumprirá seus próprios compromissos caso Washington tente escapar das obrigações assumidas no memorando.
A posição foi apresentada pelo porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, em declarações à imprensa iraniana após a assinatura do memorando de entendimento, segundo informações divulgadas pela Al Jazeera.
Baghaei afirmou que Teerã acompanhará de perto cada passo dos Estados Unidos na implementação do pacto. Segundo ele, o Irã não irá “cumprir” seus compromissos caso Washington “escape de suas obrigações”.
Mísseis iranianos estão fora da negociação
O porta-voz indicou que o programa nuclear iraniano e o levantamento das sanções impostas pelos Estados Unidos serão discutidos durante o período de 60 dias previsto no acordo. No entanto, deixou claro que o programa de mísseis de Teerã não será incluído em qualquer processo de negociação.
“Os mísseis do Irã são apenas para disparar, não para negociar. As capacidades de defesa do Irã não serão discutidas em nenhum processo com nenhuma parte”, afirmou Baghaei.
A declaração reforça uma linha vermelha do governo iraniano no momento em que Estados Unidos e Irã tentam transformar o entendimento provisório em uma trégua mais duradoura. Para Teerã, a defesa nacional não faz parte do escopo do memorando e não será tratada como moeda de troca nas conversas com Washington ou qualquer outro ator internacional.
Sanções e programa nuclear serão discutidos em 60 dias
De acordo com Baghaei, o programa nuclear iraniano e o levantamento das sanções norte-americanas estarão no centro das discussões durante os 60 dias previstos no acordo. O período servirá para definir os termos de uma solução mais ampla entre os dois países.
O porta-voz afirmou também que o Irã não enviará para o exterior seu estoque de urânio altamente enriquecido. Segundo ele, a diluição do material foi apresentada como uma possibilidade dentro das negociações, mas não como aceitação de outras alternativas defendidas por Washington.
Baghaei disse que a diluição foi “introduzida como uma opção para fechar a porta a outras possibilidades”. A frase indica que Teerã aceita discutir mecanismos técnicos sobre o material nuclear, mas rejeita transferir seu estoque para fora do país.
Teerã diz que não abandona aliados no Líbano
Ao comentar a situação no Líbano, Baghaei afirmou que o Irã demonstrou que “não abandona seus amigos”. A declaração faz referência ao Hezbollah, aliado de Teerã, em meio às tensões no sul do Líbano e à pressão por um cessar-fogo mais amplo na região.
Segundo o porta-voz, cabe aos Estados Unidos obrigar Israel a respeitar os compromissos assumidos com o Irã. A fala aponta para uma das dimensões mais sensíveis do acordo: a capacidade de Washington de conter a ofensiva israelense no Líbano e garantir que o memorando seja implementado também nas frentes regionais do conflito.
Irã quer novo regime para o Estreito de Ormuz
Baghaei também tratou do Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo para o transporte de petróleo. Segundo ele, o Irã irá finalizar, junto com Omã, um novo regime para administrar a hidrovia.
O porta-voz afirmou que Teerã pretende “cobrar taxas pelos serviços” prestados na região. A posição indica que o Irã pretende preservar influência direta sobre o funcionamento do estreito, mesmo em um cenário de desescalada militar.
A declaração contrasta com pontos do acordo provisório que preveem a normalização do tráfego marítimo na região. Para Teerã, no entanto, a gestão do Estreito de Ormuz continuará sendo tema estratégico e soberano.
Acordo ainda enfrenta incertezas
As declarações de Baghaei mostram que o Irã recebeu o memorando como um passo diplomático relevante, mas não como uma concessão irrestrita aos Estados Unidos. A mensagem central de Teerã é que o cumprimento do acordo dependerá diretamente da conduta de Washington.
Ao mesmo tempo em que aceita discutir o programa nuclear e as sanções, o Irã busca preservar três pontos considerados essenciais: suas capacidades militares, sua influência regional e o controle sobre ativos estratégicos, como o urânio enriquecido e o Estreito de Ormuz.
O tom adotado por Baghaei também evidencia que os próximos 60 dias serão marcados por forte vigilância mútua. Para Teerã, não haverá tolerância caso os Estados Unidos tentem reinterpretar ou descumprir os compromissos assumidos no memorando.



