Jeffrey Sachs vê ruptura entre Trump e Netanyahu e acusa Israel de agir como “Estado pária”
Economista afirma que guerra contra o Irã “nunca deveria ter acontecido” e diz que EUA podem estar retomando a política externa das mãos do lobby sionista
247 – O economista Jeffrey Sachs afirmou que a relação entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, atravessa um momento de ruptura diante das negociações para conter a escalada militar no Oriente Médio. Em entrevista ao programa Judging Freedom, conduzido pelo juiz Andrew Napolitano e publicada no YouTube, Sachs disse ver sinais de que Washington pode estar tentando recuperar o controle de sua política externa após décadas de alinhamento automático com Israel.
Na conversa, intitulada “Netanyahu vs. Trump”, Sachs criticou duramente a guerra contra o Irã, denunciou o uso de sanções econômicas pelos Estados Unidos e classificou Israel como um “Estado pária”. Segundo ele, o conflito “nunca deveria ter acontecido” e foi baseado em premissas “absolutamente delirantes”.
“Esta guerra nunca deveria ter acontecido”
Ao comentar a possibilidade de um novo acordo entre Estados Unidos e Irã, Sachs afirmou que o que está em discussão é, em grande medida, uma volta ao cenário anterior ao início da guerra. Segundo ele, a reabertura do Estreito de Hormuz seria um dos pontos centrais do entendimento em negociação.
“O que está na mesa agora é a reabertura do Estreito de Hormuz, que estava aberto antes de os EUA e Israel entrarem em guerra contra o Irã em 28 de fevereiro”, disse Sachs.
Para o economista, o acordo nuclear de 2015, conhecido como JCPOA, já havia estabelecido mecanismos para impedir que o Irã desenvolvesse armas nucleares. Sachs lembrou que o próprio Irã afirma há décadas não desejar uma bomba nuclear e responsabilizou Trump por ter rompido o pacto em 2018, durante seu mandato anterior.
“Nós já tínhamos esse tratado, como você está apontando, acordado 11 anos atrás, e Trump o rasgou três anos depois, em 2018”, afirmou. “Isso não trouxe nada além de sofrimento.”
Segundo Sachs, a guerra foi vendida por seus defensores como uma operação rápida, capaz de eliminar lideranças iranianas e permitir que Washington escolhesse um novo governo em Teerã. Ele classificou essa avaliação como “farsesca” e “trágica”.
“Ela foi baseada em premissas absolutamente delirantes de que isso seria uma operação de um dia. Matar a liderança e Trump escolheria o próximo líder. Isso foi absolutamente farsesco”, declarou.
Netanyahu queria a guerra, diz Sachs
Sachs atribuiu a Netanyahu a pressão histórica por uma guerra contra o Irã. Segundo ele, o primeiro-ministro israelense buscava há décadas derrubar o governo iraniano e viu no conflito a realização de uma ambição antiga.
“Israel queria esta guerra. Netanyahu disse no primeiro dia que esse era o sonho dele havia 40 anos”, afirmou Sachs.
O economista também disse considerar significativo que políticos extremistas de direita em Israel estejam reagindo com indignação às tratativas conduzidas por Trump. Para ele, a irritação de aliados de Netanyahu indica que a divergência entre Washington e Tel Aviv pode ser real.
“Os políticos extremistas de direita em Israel estão tendo um ataque absoluto sobre isso. E os aliados de Netanyahu estão atacando Trump. Isso me sinaliza que há algo real”, disse.
Sachs afirmou ainda que Trump usou, nos últimos dias, linguagem dura contra Netanyahu, o que interpretou como sinal de possível distanciamento. “Talvez seja um pouco de amadurecimento do sistema político americano, que talvez esteja retomando o controle das mãos do lobby sionista, o que eu espero muito que seja o caso”, declarou.
Sanções e dinheiro iraniano bloqueado
Outro ponto central da entrevista foi a crítica de Sachs ao uso de sanções econômicas pelos Estados Unidos. Segundo ele, o governo norte-americano age de forma “sem lei” ao congelar recursos de países considerados adversários.
“O governo dos Estados Unidos, como negócio, confisca o dinheiro de países dos quais não gosta. Fez isso com a Rússia. Fez isso com a Venezuela. Fez isso com o Irã. Fez isso com a Coreia do Norte. Fez isso com o Afeganistão. É comportamento totalmente sem lei”, afirmou.
Sachs disse que o Irã tem dezenas de bilhões de dólares bloqueados em diferentes partes do mundo por causa das sanções norte-americanas. Segundo ele, há relatos de que parte desse dinheiro poderia ser liberada em etapas no âmbito de um novo acordo.
“O que parece ter sido acordado é que algo na ordem de US$ 242 bilhões do próprio dinheiro do Irã será liberado em etapas. Os primeiros US$ 12 bilhões, se entendo pelos relatos da mídia, serão liberados nos próximos 30 dias”, afirmou.
Para Sachs, a pressão econômica dos Estados Unidos teve impacto profundo sobre o Irã, ainda que não tenha sido decisiva no campo militar. Ele afirmou que Washington opera um regime econômico de coerção contra países como Venezuela, Cuba e Irã.
“Os EUA ainda têm o poder, não a lei, não o direito, mas o poder de causar grave dano econômico”, declarou. “A isso eu chamo de gangsterismo.”
Israel como “Estado pária”
Sachs também fez uma das críticas mais duras da entrevista ao comportamento de Israel em Gaza, na Cisjordânia e no Líbano. Ao comentar a possibilidade de o Líbano integrar o acordo regional em discussão, ele acusou Israel de ter invadido o país e de manter uma política de expansão territorial.
“Israel cometeu um genocídio em Gaza. Israel está anexando a Cisjordânia diante dos nossos olhos e Israel invadiu o Líbano. Não é um quadro bonito. Israel é um Estado pária”, afirmou.
O economista citou ainda mandados de prisão emitidos pelo Tribunal Penal Internacional contra líderes israelenses e disse esperar que Trump leve adiante a tentativa de conter Netanyahu. Segundo Sachs, Trump teria dito a Netanyahu que “todo mundo odeia você” e que “todo mundo odeia Israel”.
Sachs atribuiu a rejeição internacional a Israel não ao antissemitismo, mas às ações do governo israelense. “Isso é demonstravelmente verdadeiro, segundo as pesquisas de opinião Pew feitas em todo o mundo e divulgadas no mês passado, que mostraram que Israel é desprezado pelo que está fazendo, não por antissemitismo, isso é absurdo, mas pelo que Israel está fazendo”, afirmou.
O projeto da “Grande Israel”
Sachs disse que o núcleo da política de Netanyahu, há cerca de 30 anos, é o projeto da chamada “Grande Israel”. Segundo ele, essa estratégia busca impedir os direitos palestinos, bloquear a criação de um Estado palestino, ocupar Jerusalém Oriental e intervir em países vizinhos.
“O núcleo da governança de Netanyahu por 30 anos tem sido o que se chama de Grande Israel. Isso significa bloquear os direitos palestinos, bloquear um Estado da Palestina ao lado do Estado de Israel, ocupar e massacrar os habitantes de Gaza, ocupar e matar os palestinos na Cisjordânia, ocupar Jerusalém Oriental e invadir países vizinhos”, afirmou.
Para Sachs, esse projeto foi um desastre para todas as partes envolvidas. “Foi um completo desastre para todos. Desastre para o Oriente Médio, desastre para Israel, desastre para os Estados Unidos, que foram cúmplices de tudo isso”, disse.
O economista afirmou que Israel não conseguiria manter sua atual política sem apoio norte-americano. Segundo ele, esse apoio ocorre em três frentes: militar, financeira e diplomática.
“Tudo o que Israel fez depende dos Estados Unidos. Depende dos Estados Unidos militarmente. Depende dos Estados Unidos financeiramente. E depende dos Estados Unidos diplomaticamente, porque os EUA deram cobertura diplomática a Israel o tempo todo”, declarou.
Mossad, espionagem e influência em Washington
Na parte final da entrevista, Sachs comentou relatos sobre espionagem israelense contra autoridades e instituições norte-americanas. Para ele, esse tipo de prática não causa surpresa e estaria relacionado ao esforço de Israel para manter influência sobre a política externa dos Estados Unidos.
“Não há nada surpreendente. E eles fazem isso para manter seu domínio sobre a política externa americana”, afirmou.
Sachs disse que Israel precisa se transformar em um país “normal” se quiser sobreviver politicamente. Ele defendeu que o país respeite leis, regras e princípios internacionais, além de abandonar práticas como espionagem, suborno e interferência na política norte-americana.
“Israel absolutamente, se vai sobreviver, e isso é uma interrogação, precisa se tornar um país normal. Precisa se comportar. Precisa entender que há leis, regras e princípios. Precisa ficar fora da política americana dessa maneira, espionando, subornando e fazendo qualquer outra coisa”, disse.
Apesar do tom crítico, Sachs afirmou ver uma possível mudança em curso na postura dos Estados Unidos em relação a Israel. “Talvez haja um lampejo de luz dizendo que os Estados Unidos estão se libertando desse domínio nestes dias. Meu Deus, eu espero que sim”, concluiu.



