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Lula avalia cenário global antes de decidir sobre conselho de paz proposto por Trump em Gaza

Governo brasileiro adota cautela diante de iniciativa dos Estados Unidos para criar fórum internacional voltado à reconstrução de Gaza

Donald Trump e Lula (Foto: REUTERS)

247 - O governo brasileiro decidiu aguardar o posicionamento de outros países antes de responder ao convite feito ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva para integrar um novo conselho internacional de paz idealizado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Em Brasília, a avaliação é de que ainda há muitas incertezas sobre o alcance, a governança e as implicações políticas da proposta, o que recomenda prudência antes de qualquer decisão formal. As informações são do jornal O Globo.

Interlocutores do Palácio do Planalto afirmam que a maioria dos países convidados tem adotado uma postura semelhante à do Brasil: observar os movimentos iniciais, analisar o conteúdo do texto apresentado por Washington e acompanhar como outros atores relevantes do cenário internacional irão se posicionar.

A iniciativa foi apresentada pela gestão do presidente dos Estados Unidos como um fórum dedicado à discussão de temas relacionados à paz internacional, com foco especial na Faixa de Gaza. A proposta prevê a reunião de líderes e representantes globais para supervisionar a reconstrução e a governança do território palestino, devastado após anos de conflito entre Israel e o grupo Hamas.

Diplomatas ouvidos pela reportagem relatam que o documento encaminhado pela Casa Branca não foi apresentado como base para negociação, mas como um projeto fechado. Esse formato levou diferentes governos a ganhar tempo para avaliar os termos, considerados complexos, e a testar o ambiente político internacional antes de assumir qualquer compromisso. Nos bastidores, a percepção é de que, mesmo sem abertura explícita para negociações, ajustes no desenho original não estão descartados ao longo do processo.

Um dos poucos países apontados como mais propensos a aderir rapidamente à proposta é a Argentina. A leitura de diplomatas é de que o governo do presidente Javier Milei demonstra maior disposição em acompanhar iniciativas patrocinadas por Washington, diferentemente de outras nações que preferem aguardar uma definição mais clara do projeto.

Além de Lula e Milei, a lista de convidados inclui o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdoğan; o ex-primeiro-ministro do Reino Unido Tony Blair; o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio; o genro de Trump, Jared Kushner; o presidente do Banco Mundial, Ajay Banga; e o diplomata búlgaro Nickolay Mladenov, indicado para a direção-geral do colegiado. A composição final do conselho, no entanto, ainda não foi totalmente esclarecida.

Auxiliares do presidente brasileiro afirmam que a decisão depende de uma análise detalhada sobre os objetivos do grupo, os custos potenciais e a relação da proposta com organismos multilaterais já existentes, como a Organização das Nações Unidas. Há preocupação de que a nova iniciativa possa, na prática, esvaziar o papel tradicional da ONU em processos de mediação e reconstrução em áreas de conflito.

Outro ponto sensível para o governo Lula é o modelo de governança proposto. O desenho prevê forte concentração de poder na presidência do conselho, que ficaria com Trump, inclusive com a possibilidade de mandatos vitalícios. O texto menciona ainda a opção de participação permanente mediante o pagamento de US$ 1 bilhão, mecanismo que também despertou cautela quanto às suas implicações políticas e diplomáticas.

A ausência de representantes palestinos entre os membros anunciados é vista como uma lacuna relevante. Embora Israel tenha sido formalmente convidado, segundo autoridades israelenses, a falta de participação palestina levanta dúvidas no Itamaraty sobre a compatibilidade da iniciativa com os princípios do multilateralismo e da inclusão de todas as partes diretamente envolvidas no conflito.

Também pesa na avaliação brasileira a indefinição sobre o escopo do novo órgão. Ainda não está claro se o conselho foi concebido exclusivamente para tratar da situação em Gaza ou se pretende se tornar uma instância internacional mais ampla, com atribuições que ultrapassem esse conflito específico. Faltam, segundo integrantes do governo, informações essenciais, como os procedimentos formais de adesão e os prazos para uma resposta definitiva.

Diante desse cenário, a orientação no Planalto e no Itamaraty é de cautela. O entendimento é de que a decisão do Brasil deve levar em conta não apenas o conteúdo da proposta, mas também a reação da comunidade internacional e os desdobramentos diplomáticos de uma eventual adesão ao conselho liderado pelos Estados Unidos.

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