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Negociações entre EUA e Irã na Suíça são canceladas

Cancelamento amplia incertezas sobre trégua no Oriente Médio e acordo nuclear

EUA-Irã (Foto: Prensa Latina)
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247 - O cancelamento das negociações entre EUA e Irã na Suíça ampliou as incertezas sobre a possibilidade de uma trégua duradoura no Oriente Médio e sobre os próximos passos de um acordo nuclear envolvendo Teerã. As informações são da Reuters.

A reunião, prevista para esta sexta-feira (19) na estação de esqui de Burgenstock, nas montanhas suíças, não ocorrerá após o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, cancelar os planos de viajar ao país. O Ministério das Relações Exteriores da Suíça confirmou que o encontro não será realizado, mas não apresentou detalhes adicionais.

“A logística dessas negociações nunca foi simples ou previsível”, afirmou um porta-voz da Casa Branca em comunicado divulgado na noite de quinta-feira. Segundo o governo dos Estados Unidos, Vance e a delegação americana estavam prontos para partir assim que os planos fossem finalizados.

A ausência da reunião aumenta a pressão sobre um processo diplomático já marcado por divergências. O Irã havia indicado anteriormente que estava pronto para iniciar negociações técnicas depois do acordo de 14 pontos fechado na quarta-feira, que prorrogou um cessar-fogo frágil por pelo menos 60 dias.

Antes do anúncio sobre a viagem de Vance, a agência iraniana Tasnim informou que os negociadores iranianos precisavam ver sinais de que os Estados Unidos estavam implementando o acordo provisório. Também não havia confirmação de que uma delegação iraniana viajaria à Suíça.

Autoridades americanas haviam afirmado que pretendiam realizar uma cerimônia formal de assinatura do acordo entre EUA e Irã em território suíço. O Ministério das Relações Exteriores do Irã, porém, demonstrou dúvidas sobre a necessidade do evento, argumentando que os presidentes dos dois países já haviam assinado o pacto.

Guerra pressiona mercados e amplia desgaste político

Em Washington, aliados republicanos do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no Congresso, passaram a questionar se ele teria feito concessões excessivas para encerrar uma guerra impopular entre a maioria dos americanos, especialmente às vésperas das eleições de meio de mandato previstas para novembro.

Trump havia prometido que a guerra terminaria apenas com a “rendição incondicional” do Irã. O memorando assinado com Teerã, porém, prevê alívio de sanções econômicas, desbloqueio de ativos avaliados em dezenas de bilhões de dólares e isenções imediatas dos Estados Unidos para exportações de petróleo iranianas.

Khamenei diz que negociações não serão fáceis

O líder supremo do Irã, aiatolá Mojtaba Khamenei, afirmou que Trump assinou o acordo “por desespero” e indicou que as futuras conversas sobre o programa nuclear iraniano não serão simples.

“Se o lado americano quiser ser exigente demais, não aceitaremos”, declarou Khamenei em uma mensagem.

O acordo estabelece prazo de 60 dias para que os negociadores definam o status do programa nuclear do Irã, salvo se houver uma extensão. O pacto também prevê a criação de um fundo de reconstrução de US$ 300 bilhões para o Irã e outros incentivos financeiros.

Vance afirmou que Washington também buscará limitar os mísseis de longo alcance iranianos.

O custo crescente da guerra também entrou no centro do debate. Segundo o Wall Street Journal, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos informou a parlamentares que precisaria de US$ 80 bilhões para cobrir despesas relacionadas ao conflito e algumas contas não relacionadas.

Objetivos de guerra seguem em aberto

Quando os Estados Unidos e Israel lançaram a guerra há quase quatro meses, Trump afirmou que o objetivo era destruir as capacidades nucleares do Irã e garantir que o país jamais pudesse desenvolver esse tipo de armamento.

O presidente americano também buscava acabar com a capacidade militar do Irã, impedir o apoio iraniano aos movimentos do eixo da resistência na região e criar condições para derrubar o sistema de governo do país persa. 

Nenhum desses objetivos havia sido alcançado quando Trump assinou o acordo. No documento, o Irã reiterou sua posição de décadas de não obter nem desenvolver armas nucleares, uma afirmação vista com desconfiança por sucessivos presidentes americanos.

Teerã também aceitou a redução, em seu próprio território, do estoque de urânio altamente enriquecido e inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica, como membro do Tratado de Não Proliferação Nuclear. O Irã, no entanto, rejeitou o desejo de Trump de retirar esse material do país.

Autoridades americanas afirmam que as negociações ainda podem produzir um acordo forte sobre o programa nuclear iraniano, com a ambição de superar o pacto de 2015 firmado entre Irã, Estados Unidos e outros países, do qual Trump se retirou em seu primeiro mandato.

Críticos do novo entendimento dizem que o Irã chega agora em posição mais forte, após resistir ao ataque de uma superpotência, demonstrar controle sobre o Estreito de Hormuz e obter importantes isenções de sanções financeiras.

Estreito de Ormuz e petróleo entram no cálculo

O Irã afirmou que continuará exercendo controle sobre Ormuz em parceria com Omã, país vizinho do outro lado da via marítima estratégica. Teerã também pretende cobrar taxas de serviço de navios, inexistentes antes da guerra, embora não durante os 60 dias de negociações.

Os preços do petróleo recuaram nesta sexta-feira, diante da perspectiva de aumento da oferta após petroleiros voltarem a circular pelo Estreito de Hormuz. Antes da guerra, a passagem era responsável por quase um quinto do fornecimento global de petróleo bruto e gás natural liquefeito.

Israel mantém ofensiva no Líbano

Israel, que ficou fora das negociações de paz, distanciou-se do acordo entre EUA e Irã e manteve os combates contra o Hezbollah. A continuidade da ofensiva aumenta as dúvidas sobre a sustentabilidade do pacto.

No Líbano, onde mais de 1 milhão de pessoas foram deslocadas pelos combates, novos ataques israelenses nesta sexta-feira mataram pelo menos 15 pessoas, segundo a agência estatal NNA. Israel afirmou que os bombardeios tinham como alvo posições do Hezbollah.

O acordo prevê a “cessação permanente” da guerra no Líbano, mas Israel declarou não ter intenção de se retirar. Em vez disso, apresentou em um novo mapa uma zona de ocupação ampliada.

A posição israelense aprofunda a incerteza sobre até que ponto Trump pressionará seu aliado de guerra a interromper uma ofensiva que agora prometeu encerrar. O presidente dos Estados Unidos tem se tornado abertamente crítico às operações de Israel no Líbano, abrindo uma das maiores fissuras entre os dois países em décadas.

O cancelamento das conversas na Suíça deixa em aberto o futuro do acordo provisório, enquanto a guerra no Líbano, o impasse nuclear iraniano e o controle sobre o Estreito de Hormuz seguem como fatores decisivos para a estabilidade regional.

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