Países do Golfo intensificam diplomacia para conter escalada entre EUA e Irã
Temor de ataque militar dos Estados Unidos ao Irã leva Arábia Saudita, Catar e Omã a reforçar esforços diplomáticos para evitar caos regional
247 - As nações árabes do Golfo acompanham com crescente apreensão a onda de protestos no Irã e o risco de uma escalada militar envolvendo os Estados Unidos. As ameaças feitas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de recorrer a uma ação armada contra Teerã acenderam o alerta em capitais da região, que temem consequências profundas para a estabilidade política e econômica do Oriente Médio.
Segundo reportagem da Al Jazeera, governos como os da Arábia Saudita, do Catar e de Omã intensificaram suas iniciativas diplomáticas para evitar um confronto direto entre Washington e Teerã. A preocupação aumentou após informações de que os contatos entre autoridades americanas e iranianas teriam sido interrompidos, alimentando receios de um ataque iminente.
Nos bastidores, a Arábia Saudita pressiona os Estados Unidos a não avançarem com uma ofensiva militar, enquanto Catar e Omã sinalizam que podem atuar como mediadores, buscando manter canais de diálogo abertos entre os dois países. Observadores apontam que o esforço conjunto reflete o temor compartilhado de que qualquer ação militar possa mergulhar a região em um novo ciclo de instabilidade.
“Todos estavam preocupados porque todos os canais tradicionais [entre os EUA e o Irã] não estavam sendo utilizados, pelo menos por parte dos EUA”, afirmou Anna Jacobs Khalaf, analista do Golfo e pesquisadora não residente do Instituto dos Estados Árabes do Golfo. Para ela, a falta de comunicação direta elevou significativamente o nível de incerteza entre os países da região.
Muhanad Seloom, professor assistente de estudos críticos de segurança no Instituto de Estudos de Pós-Graduação de Doha, reforçou essa avaliação ao afirmar que “os funcionários do CCG [Conselho de Cooperação do Golfo] não sabiam quais eram as intenções dos EUA”, cenário que contribuiu para o aumento das tensões diplomáticas.
O clima de preocupação se intensificou depois que Donald Trump voltou a ameaçar o Irã com uma ação militar contra o Irã.
Além das ameaças, Trump chegou a incentivar os iranianos a assumirem o controle das instituições estatais, prometendo que “a ajuda está a caminho”. Embora não tenha detalhado que tipo de ataque poderia ser realizado, suas declarações colocaram governos do Golfo em estado de alerta máximo diante da possibilidade de um conflito ampliado.
O receio não é apenas militar. Países da região temem impactos diretos nos preços do petróleo, prejuízos à imagem de centros financeiros e turísticos e possíveis retaliações iranianas em seus territórios. O histórico recente reforça essas preocupações: em 2019, instalações petrolíferas sauditas foram atacadas por houthis apoiados pelo Irã, afetando temporariamente a produção de petróleo. Em junho do ano passado, Teerã lançou um ataque contra a base aérea de Al Udeid, no Catar, que abriga tropas americanas, após bombardeios dos EUA a uma instalação nuclear iraniana.
Apesar de o Irã ter alertado previamente sobre esse ataque, que marcou o fim da guerra de 12 dias entre Israel e Irã, o episódio criou um precedente preocupante. Ainda que o conflito tenha enfraquecido as capacidades militares iranianas, o país mantém um arsenal capaz de atingir interesses dos Estados Unidos e de seus aliados na região.
“O Irã tem mísseis balísticos, mísseis supersônicos e grupos de milícias ao redor, então, se receberem um motivo para atacar, eles atacariam”, alertou Seloom.
Na quarta-feira, um alto funcionário iraniano declarou à Reuters que Teerã havia advertido países da região — da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos à Turquia — de que bases americanas nesses territórios seriam atacadas caso os EUA lançassem ofensivas contra o Irã. Após o aviso, parte do pessoal da base de Al Udeid foi retirada.
Especialistas apontam que, apesar das diferenças históricas entre os países do Conselho de Cooperação do Golfo e o Irã, todos compartilham o medo das consequências de um eventual colapso do governo iraniano. O vácuo de poder, segundo eles, poderia gerar caos semelhante ao vivido pelo Iraque após a invasão liderada pelos EUA em 2003, que resultou em guerra civil, fortalecimento da Al-Qaeda e no surgimento do Estado Islâmico.
“Eles podem até gostar de ver a liderança iraniana enfraquecida, mas todos estão mais preocupados com um cenário de caos e incerteza e com a possibilidade de elementos mais radicais chegarem ao poder”, avaliou Khalaf.
Países como Catar, Kuwait e Omã desenvolveram formas pragmáticas de convivência com o Irã. Doha, inclusive, compartilha com Teerã o maior campo de gás natural do mundo. Os Emirados Árabes Unidos também mantêm fortes laços econômicos com o país vizinho, especialmente por meio de Dubai, um importante polo comercial. Ainda assim, autoridades emiradenses têm adotado silêncio público diante da crise recente.
Já a Arábia Saudita, historicamente rival do Irã, vem adotando nos últimos anos uma postura mais pragmática, mantendo canais de comunicação abertos para evitar escaladas. Riade observa a situação com atenção redobrada, especialmente em meio a reformas econômicas ambiciosas voltadas à diversificação da economia e ao fortalecimento do turismo, metas que dependem de estabilidade regional.
“A Arábia Saudita não se sente nada confortável com mudanças de regime em qualquer lugar — é algo radical e extremo, e os resultados são incertos e arriscados”, afirmou Khalaf. Essa visão foi ecoada pelo ministro de Estado para Assuntos Exteriores saudita, Adel Al-Jubeir, que declarou: “Nosso objetivo é alcançar estabilidade e tranquilidade para que possamos direcionar nossos recursos para a construção de um futuro melhor para o nosso povo”.


