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Palantir cresce com contratos do governo dos EUA e seu presidente defende tecnologia de vigilância

Empresa projeta receita acima das estimativas em 2026, enquanto cresce o escrutínio sobre softwares ligados ao ICE

Alex Karp (Foto: Reuters)

247 – A Palantir Technologies, empresa de análise de dados e inteligência artificial conhecida por vender sistemas de monitoramento para governos e forças de segurança, registrou um salto expressivo nas vendas impulsionado por contratos com o governo dos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, voltou a se ver no centro de uma controvérsia sobre vigilância e privacidade. As informações são da Reuters.

A companhia afirmou que a receita vinda do governo dos EUA disparou 66% no quarto trimestre, na comparação anual, para US$ 570 milhões. No total, a Palantir reportou vendas de US$ 1,41 bilhão no período, acima das estimativas de analistas, e projetou um avanço ainda maior em 2026 — movimento que animou o mercado no after-hours em Nova York e também repercutiu na negociação do papel na Europa.

Salto de receita e projeções para 2026

A Palantir disse esperar receita entre US$ 7,18 bilhões e US$ 7,20 bilhões em 2026, o que representaria um aumento superior a 60% sobre 2025, segundo a própria empresa. Para o primeiro trimestre, a projeção de vendas ficou entre US$ 1,53 bilhão e US$ 1,54 bilhão, acima de uma estimativa de US$ 1,32 bilhão, conforme dados compilados pela LSEG mencionados pela Reuters.

A reação do mercado foi imediata: as ações subiram cerca de 5% no pregão estendido nos Estados Unidos. Em Frankfurt, o papel avançou perto de 12% em negociação descrita como de baixa liquidez no início da terça-feira.

Além do desempenho no setor público, a Palantir vem ampliando a oferta de ferramentas de IA “de nível militar” para empresas por meio de uma plataforma que busca ajudar clientes a integrar e desenvolver tecnologia baseada em inteligência artificial. A companhia foi apontada como uma das ações mais fortes do universo de IA nos últimos anos, com valorização acumulada de 1.700% em três anos, de acordo com o texto da Reuters.

Karp defende “salvaguardas” e fala em limites ao Estado

No centro da defesa pública da empresa esteve o CEO Alex Karp, que procurou enquadrar a tecnologia da Palantir como um mecanismo de controle, e não de ampliação, do poder de vigilância do Estado. Em carta aos acionistas, ele argumentou que o desenvolvimento de plataformas técnicas seria a forma mais eficaz de impedir invasões indevidas na vida privada.

"Deveria, de fato, ser algo não controverso que o meio mais eficaz de nos proteger contra incursões em nossas vidas privadas é investir no desenvolvimento de uma plataforma técnica que torne possíveis restrições à ação e à investigação do governo por meio de capacidades granulares de permissão", afirmou Karp, conforme reproduzido pela Reuters.

O CEO acrescentou que a tecnologia permitiria que o “Estado e seus agentes” enxergassem apenas o que deveria ser visto, com mecanismos de auditoria para capturar ameaças externas e internas.

"O Estado e seus agentes podem ver apenas o que deve ser visto, e há logs funcionais de auditoria, para capturar tanto ameaças externas quanto internas", disse Karp na mesma carta, ainda segundo a Reuters.

Já na teleconferência de resultados, Karp afirmou que a Palantir estaria apoiando, “de maneira crítica”, algumas das operações “mais interessantes, intrincadas e incomuns” nas quais o governo dos EUA esteve envolvido — sem detalhar quais programas seriam esses.

ICE, imigração e protestos ampliam escrutínio

Apesar do tom defensivo, a reportagem da Reuters situou a Palantir em um contexto de crescente escrutínio sobre empresas que trabalham com o U.S. Immigration and Customs Enforcement (ICE), especialmente diante de críticas às táticas descritas como agressivas e após episódios de grande repercussão envolvendo mortes de cidadãos norte-americanos em janeiro.

A Palantir venceu no ano anterior um contrato com o ICE para desenvolver sistemas de vigilância voltados à fiscalização migratória. A Reuters também relatou que, em abril, a empresa obteve um contrato de US$ 30 milhões para desenvolver um sistema que identifica imigrantes sem documentação e acompanha processos de “auto-deportação” — e que, até 3 de junho, esse teria sido o maior prêmio individual recebido pela companhia dentro de um conjunto de ações contratuais federais ligadas ao órgão desde 2011.

No mesmo fim de semana citado na reportagem, a francesa CapGemini informou que venderia uma pequena unidade nos EUA que tem contrato com o ICE, após críticas de parlamentares franceses e de outros setores. O episódio reforçou o ambiente de pressão pública e política sobre fornecedores de tecnologia de vigilância associada à imigração.

Risco de “precificação para a perfeição”

Mesmo com o salto de receitas e as previsões acima do consenso, a Palantir enfrenta questionamentos recorrentes sobre seu valuation. A Reuters apontou que as ações acumulavam queda superior a 15% no ano, em meio a dúvidas de Wall Street sobre a avaliação considerada muito esticada, com um índice preço/lucro projetado (12 meses à frente) de 140,5.

O analista Zavier Wong, da eToro, resumiu o dilema que se impõe à companhia: crescer não basta quando o preço embute expectativas extraordinárias de execução.

"As dúvidas sobre valuation não vão desaparecer", afirmou Wong à Reuters. "A Palantir continua precificada para a perfeição, o que significa que precisará continuar executando nos próximos trimestres."

Thiel, conexões políticas e a constelação de contratos públicos

Fundada com participação do bilionário da tecnologia Peter Thiel — tendo a CIA como uma das primeiras apoiadoras, segundo a Reuters —, a Palantir construiu parte relevante de seu crescimento em torno de contratos governamentais. A reportagem também destacou que Thiel foi um apoiador inicial do presidente Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, e mantém relações próximas com figuras influentes em Washington, incluindo o vice-presidente JD Vance, a quem apoiou em uma disputa para o Senado em 2022.

Na leitura apresentada pela Reuters, essa combinação de proximidade com o Estado, foco em operações sensíveis e expansão de soluções de IA para empresas privadas impulsiona a receita, mas também alimenta críticas sobre vigilância, transparência e limites institucionais.

A Palantir, por sua vez, sustenta que a “liberdade contra vigilância injustificada” depende justamente de sistemas capazes de fiscalizar o próprio uso, com restrições técnicas e trilhas de auditoria. O embate entre a promessa de controle e o risco de abuso — além do debate sobre imigração e atuação do ICE — tende a seguir como um dos principais fatores de pressão pública sobre a companhia em 2026, junto com a cobrança do mercado para que resultados robustos se mantenham trimestre após trimestre.

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