'Proposta de Trump com 15 pontos é excessiva e desconectada da realidade', diz o Irã
O país asiático afirmou que 'encerrará a guerra quando decidir fazê-lo e quando suas próprias condições forem atendidas'
247 - O Irã rejeitou formalmente, nesta quarta-feira (25), o plano de paz elaborado pelo governo Donald Trump (EUA) com o objetivo de encerrar o conflito no Oriente Médio, onde, conforme estatísticas oficiais, mais de 2 mil pessoas morreram desde 28 de fevereiro, quando os EUA e Israel iniciaram as agressões contra o território iraniano.
Segundo informações divulgadas pela rede de televisão estatal iraniana Press TV, Teerã classificou a proposta americana como "excessiva e desconectada da realidade" e deixou claro que não aceita qualquer imposição externa sobre os termos do cessar-fogo. "O Irã encerrará a guerra quando decidir fazê-lo e quando suas próprias condições forem atendidas", afirmou a declaração oficial iraniana, acrescentando que o país continuará com "ações defensivas".
A recusa foi acompanhada de uma contraproposta enviada a Washington, sinalizando que o Irã não descarta negociações, mas rejeita submeter-se ao roteiro traçado pelos americanos. A Press TV confirmou que o governo iraniano recebeu o documento norte-americano e o analisou antes de emitir sua resposta — uma postura que, na avaliação de analistas, reforça a disposição de Teerã em conduzir o diálogo nos seus próprios termos.
O plano americano e seus 15 pontos
O documento elaborado pelo governo Trump foi detalhado pelo jornal americano The New York Times e reúne 15 exigências direcionadas ao Irã. Entre as principais estão a limitação no alcance e no número de mísseis iranianos, o encerramento do financiamento a grupos aliados na região — como o Hamas e o Hezbollah — e a desativação das usinas de enriquecimento de urânio de Natanz, Isfahan e Fordow. O plano também exige que o país não desenvolva armamento nuclear e propõe a criação de uma zona marítima livre no Estreito de Ormuz.
A questão nuclear é um dos pontos de maior atrito entre as duas nações. Os EUA acusam o Irã de buscar o desenvolvimento de armas atômicas, mas o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Rafael Grossi, declarou que inspetores da organização vinculada à ONU não encontraram provas que sustentem essa acusação.
O conflito e o tabuleiro geopolítico
O conflito no Oriente Médio entrou em seu 26º dia com nova escalada. Mais de 2 mil pessoas morreram desde 28 de fevereiro em decorrência das ofensivas dos Estados Unidos contra território iraniano. Teerã afirmou ter lançado sua 80ª onda de ataques contra alvos americanos e israelenses, em meio a um cenário de destruição de infraestrutura e crescente pressão militar dos dois lados.
Diante do agravamento da situação, o governo Trump determinou o envio de aproximadamente 2 mil soldados da 82ª Divisão Aerotransportada para a região, ampliando a presença militar norte-americana no teatro de operações.
No plano das alianças, os EUA contam com ao menos oito parceiros formais no Oriente Médio, entre eles Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Jordânia, Bahrein, Kuwait, Egito e Síria. O Irã, por sua vez, mantém vínculos estratégicos com o Paquistão, com o Hezbollah — organização com base no Líbano — e com grupos no Iêmen.
Petróleo dispara e o Estreito de Ormuz
Uma das consequências mais impactantes do conflito é o bloqueio do Estreito de Ormuz, a via marítima que conecta o Golfo Pérsico ao Mar Arábico e por onde passa cerca de um quinto de todo o petróleo comercializado no mundo. O canal está localizado entre o litoral iraniano e o território de Omã, e sua interdição afetou diretamente as exportações de países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Iraque e Kuwait, que perderam acesso às rotas de abastecimento para a Ásia, Europa e Américas. Os efeitos no mercado de energia foram imediatos, pois o barril do petróleo já está acima dos US$ 100.
Em condições normais, o Estreito de Ormuz movimenta cerca de 120 embarcações por dia, segundo dados do portal de inteligência naval Lloyd's List. O cenário atual é drasticamente diferente: levantamento da empresa de análise Kpler aponta que, entre 1º e 21 de março, navios carregados com matérias-primas realizaram apenas 124 travessias no total — uma queda de 95% em relação à média histórica. Do total registrado, 75 viagens foram feitas por petroleiros e navios gaseiros, a maioria seguindo em direção ao leste, saindo do estreito.
A combinação entre a rejeição iraniana ao plano de paz, a escalada militar e o colapso logístico no Estreito de Ormuz configura um dos momentos de maior instabilidade geopolítica e econômica da região nas últimas décadas — e, por ora, sem qualquer sinal concreto de resolução à vista.


