Trump está preso em guerra que não pode vencer, diz Mearsheimer
Professor afirma que o presidente dos Estados Unidos ficou sem saída no confronto com o Irã e alerta para risco de desastre econômico global
247 - O cientista político John Mearsheimer afirmou que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, “não tem a menor chance” de transformar o conflito com o Irã em uma vitória política ou militar. Em entrevista, o professor descreveu a posição de Washington como “extremamente precária” e sustentou que a Casa Branca entrou em uma guerra longa sem dispor de uma estratégia viável de saída, num cenário em que, segundo ele, Teerã passou a deter a maior parte das vantagens estratégicas.
A avaliação foi feita em entrevista ao canal Judging Freedom, apresentado por Judge Andrew Napolitano no YouTube. Ao longo da conversa, Mearsheimer argumenta que os Estados Unidos e Israel apostaram numa ofensiva rápida e decisiva, mas acabaram mergulhando num conflito de desgaste com potencial para provocar forte abalo na economia internacional.
Segundo o professor, a premissa inicial de que um golpe contra a cúpula iraniana provocaria desorganização interna e uma insurreição capaz de derrubar o governo fracassou. Ele citou, inclusive, reportagem do New York Times mencionada na entrevista para afirmar que essa tese teria sido vendida à administração Trump e ao primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, como fórmula para uma vitória relâmpago.
Para Mearsheimer, essa leitura ignorou uma vasta literatura sobre mudança de regime e golpes de Estado. “É bastante impressionante que tenham comprado esse argumento”, disse, ao classificar a hipótese de uma derrubada rápida do governo iraniano como extremamente improvável. Na visão dele, uma vez frustrada essa expectativa, os Estados Unidos ficaram presos a uma guerra de atrito em condições desfavoráveis.
O professor também afirmou que Trump teria ignorado alertas vindos de setores do aparato de segurança e inteligência dos próprios Estados Unidos. Segundo ele, chefes militares e relatórios ligados à comunidade de inteligência já indicavam, antes do início da guerra, que não havia um plano realista para vencer o confronto. Ainda assim, prosseguiu, o presidente dos Estados Unidos teria preferido ouvir interlocutores israelenses e aliados internos favoráveis à escalada.
Na entrevista, Mearsheimer citou nomes como Lindsay Graham, o general Jack Keane, Jared Kushner e Steve Wittkoff entre os atores que, segundo ele, pressionaram pela entrada dos Estados Unidos na guerra. Em contraste, afirmou acreditar que segmentos ligados ao gabinete de Tulsi Gabbard, além de quadros da CIA e das Forças Armadas, enxergavam o plano como inviável desde o início.
Outro eixo central da análise foi a dificuldade de qualquer negociação entre Washington e Teerã. Mearsheimer disse não ter visto evidências concretas de tratativas consistentes entre representantes dos dois países, apesar das declarações públicas de Trump. Para ele, a hipótese mais plausível era a de contatos superficiais, insuficientes para caracterizar uma negociação séria.
Na mesma linha, ele avaliou que até mesmo uma mediação paquistanesa teria alcance limitado. “Isso realmente não está levando a lugar nenhum”, afirmou. Em seu entendimento, os Estados Unidos querem um cessar-fogo, mas o Irã não teria incentivo estratégico para aceitar uma interrupção imediata das hostilidades.
Mearsheimer comparou o impasse à guerra na Ucrânia, argumentando que, assim como naquele conflito, não enxerga base concreta para um acordo significativo. Segundo ele, as exigências iranianas e as concessões esperadas por Washington e Tel Aviv tornam praticamente impossível uma composição.
De um lado, afirmou, o Irã exigiria a retirada das forças militares americanas do Oriente Médio, reparações e alívio de sanções. De outro, os Estados Unidos e Israel esperariam que Teerã abrisse mão de seus mísseis balísticos, do enriquecimento nuclear e do apoio a grupos como Houthis, Hezbollah e Hamas. “Não há como conseguir um acordo aqui”, resumiu.
A entrevista também reproduziu a fala do chanceler iraniano sobre a possibilidade de novas conversas com os americanos. Na declaração destacada no programa, o ministro afirmou: “Não acho que conversar com os americanos ou negociar com os americanos volte à mesa, porque tivemos uma experiência muito amarga”. Em seguida, completou: “Negociamos com eles no ano passado e fomos atacados no meio das negociações”.
O chanceler ainda acrescentou, segundo o trecho exibido, que o Irã foi convencido de que haveria uma tentativa de solução pacífica para a questão nuclear, mas voltou a ser atacado depois de rodadas de negociação. A conclusão apresentada foi direta: “Não acho que conversar com os americanos esteja mais na nossa agenda”.
Para Mearsheimer, essa posição não apenas é compreensível como reforça a lógica iraniana de prolongar o confronto. Ele sustentou que, do ponto de vista estratégico, Teerã ganha influência à medida que a guerra se estende e os custos econômicos para o Ocidente aumentam. “Se eu estivesse jogando a mão do Irã, não gostaria que a guerra terminasse agora”, declarou.
Na visão do professor, somente a iminência de um colapso econômico global poderia forçar Trump a sentar-se à mesa e aceitar concessões significativas. “Essa situação vai obrigar o presidente Trump a ir para a mesa de negociação e fazer enormes concessões aos iranianos”, afirmou. Por isso, concluiu, não faria sentido para o Irã aceitar um acordo antes que sua capacidade de pressão atinja o máximo possível.
Ao comentar a possibilidade de os Estados Unidos reduzirem sua participação e deixarem Israel agir sozinho, Mearsheimer disse que isso tampouco garantiria um desfecho estável. Segundo ele, os israelenses tenderiam a ampliar a escalada e atacar a infraestrutura energética iraniana, o que seria respondido por Teerã e poderia empurrar a crise para um ponto de ruptura.
Nesse contexto, o professor observou que o governo Netanyahu também pode enfrentar limites se a guerra se prolongar. Ele citou o aumento dos ataques contra Israel e disse que as defesas anti mísseis israelenses estariam sob forte pressão. Por isso, avaliou que ainda seria preciso ver por quanto tempo Netanyahu estaria disposto a sustentar uma guerra longa contra o Irã.
Questionado sobre a reação internacional, Mearsheimer afirmou que a percepção predominante no mundo é a de que Estados Unidos e Israel cometeram um erro grave ao iniciar o conflito. Segundo ele, o temor se espalha sobretudo pelo impacto esperado nos preços do petróleo, do gás, do diesel e dos alimentos, com consequências econômicas e políticas para diversos países.
O professor disse que esse sentimento seria especialmente forte no chamado Sul Global, onde a deterioração dos custos de energia e alimentação pode produzir instabilidade adicional. Para ele, a combinação entre ausência de solução rápida e encarecimento generalizado tende a aprofundar a rejeição internacional à guerra.
Na parte final da entrevista, Mearsheimer foi ainda mais categórico ao afirmar que Trump está sem saída honrosa. “Não. Se ele tivesse, ele pegaria”, respondeu ao ser perguntado se o presidente dos Estados Unidos ainda dispunha de uma alternativa para preservar sua imagem. Em seguida, insistiu que o Irã hoje tem interesse direto na continuação do conflito, justamente porque o tempo joga a seu favor.
O professor também acusou Trump de falsear o quadro real ao falar em negociações produtivas com Teerã. “Ele definitivamente está inventando isso”, declarou. Na avaliação de Mearsheimer, a mudança de retórica da Casa Branca ocorreu porque um ataque à infraestrutura energética iraniana poderia desencadear uma catástrofe regional e abalar de forma severa a economia mundial.
Ele mencionou, nesse ponto, o risco de ataques iranianos não apenas a estruturas de energia no Golfo, mas também a usinas de dessalinização, o que, segundo sua análise, devastaria sociedades inteiras da região. “Seria catastrófico”, afirmou, ao defender que uma ofensiva desse tipo seria um passo irracional.
Mearsheimer ainda demonstrou preocupação com o que chamou de crescente desespero de Trump. Para ilustrar os riscos de decisões tomadas sob pressão extrema, citou o ataque japonês a Pearl Harbor como exemplo histórico de liderança que, diante de um quadro considerado sem saída, opta por uma jogada de altíssimo risco mesmo sabendo do potencial desastroso.
Questionado sobre o envio de tropas terrestres americanas ao Oriente Médio, o professor avaliou que essa movimentação é mais um indício de aflição estratégica do que de força. Para ele, não existe uma opção realista de emprego dessas tropas em território iraniano que produza um resultado favorável. Mearsheimer citou hipóteses discutidas publicamente, como a tomada de ilhas ou operações para capturar urânio enriquecido, e classificou essas alternativas como militarmente inviáveis.
“Não há uma opção com forças terrestres que seja viável”, disse. Ele observou ainda que uma invasão em larga escala do Irã seria impraticável diante da dimensão territorial do país e de sua população, que ele estimou em 93 milhões de pessoas.
Ao encerrar sua análise, Mearsheimer retomou o argumento de que Washington fracassou ao subestimar a resistência iraniana, a natureza assimétrica da resposta militar do país e a proteção oferecida por instalações subterrâneas menos vulneráveis a ataques americanos e israelenses. Segundo ele, os Estados Unidos entraram no conflito supondo uma vitória rápida e, ao não alcançá-la, passaram a enfrentar exatamente o tipo de guerra para a qual não estavam preparados.


