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Protestos nos EUA se ampliam com guerra, inflação e desgaste de Trump

Texto de Miguel Manso aponta impacto da guerra contra o Irã na alta do petróleo, tarifaço e queda de popularidade do governo nos Estados Unidos

Popularidade de Trump desaba (Foto: Reuters)

247 - Milhões de americanos passaram a ocupar as ruas em várias cidades do país em meio ao agravamento da guerra contra o Irã, à persistência da inflação e ao aumento do desgaste político do presidente Donald Trump. A combinação entre conflito externo, alta do custo de vida, perda de competitividade econômica e isolamento diplomático aparece como o centro de uma crise que amplia a insatisfação social e projeta riscos eleitorais para a Casa Branca.

A análise foi publicada por Miguel Manso no site da EngD – Engenharia pela Democracia, sob o título “No king no war no Trump - MAGA ou MALA - Make América lose again?”, e sustenta que a guerra iniciada em fevereiro de 2026 “não trouxe a vitória esperada, nem rápida, imaginada por Washington”, além de ter exposto o governo Trump a “um impasse estratégico”.

Segundo o texto, o confronto com o Irã produziu um choque geopolítico e econômico de grande escala. A avaliação é a de que o país persa, uma “civilização milenar, preparada para a resistência”, demonstrou que seu poder “não vem da força militar apenas”, mas também do controle sobre um ponto vital da economia global. Ao fechar o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, Teerã alterou o centro da disputa e ampliou a pressão sobre os mercados internacionais.

O autor aponta que a situação do governo americano se agrava à medida que o conflito avança sem uma rota de saída clara. Ele afirma que Trump chegou a ameaçar “destruir a civilização” iraniana, mas viu sua popularidade despencar para menos de 40%, mergulhando em uma guerra que, em vez de reafirmar a força americana, passou a expor vulnerabilidades políticas, econômicas e diplomáticas.

Israel também aparece no texto como parte central desse desgaste. Segundo a análise, o país, abastecido por décadas com orçamento bilionário dos Estados Unidos, passou a enfrentar um cenário cada vez mais difícil. Manso escreve que, com gastos superiores a US$ 3 bilhões por semana e com sua infraestrutura sendo atingida diariamente por mísseis hipersônicos iranianos, Israel já acumula uma dívida superior a US$ 15 bilhões e vê suas defesas em esgotamento. Na formulação do autor, “suas armas e a propalada superioridade tecnológica foram derrotadas pela tecnologia e competência iraniana”.

Apesar de o texto registrar que 81% dos israelenses apoiam a guerra contra o Irã, a conclusão é a de que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu não conseguiu converter esse apoio em vantagem política. Manso sustenta que a coalizão do premiê aparece em desvantagem nas pesquisas para as eleições de outubro de 2026 e que ele segue pressionado por acusações de corrupção e por desgaste decorrente de falhas de segurança.

Outro eixo da análise é o afastamento entre os Estados Unidos e a União Europeia. O autor sustenta que a relação transatlântica se deteriorou significativamente para o “eixo neofascista EUA e Israel”. Segundo o texto, as tarifas impostas por Trump e suas ameaças à Dinamarca, no contexto da Groenlândia, contribuíram para que o Parlamento Europeu recusasse a ratificação de acordos comerciais com os EUA. Manso afirma ainda que a Alemanha demonstrou “unidade rara” ao rejeitar as políticas do presidente americano, enquanto Espanha, França e Itália se distanciaram e denunciaram a guerra.Esse movimento reduziu a capacidade de Washington de mobilizar apoio internacional para o conflito com o Irã e agravou seu isolamento. Na leitura do autor, a política de Trump não está “fazendo a América Grande novamente”, mas tornando o país “Caro, Isolado e Instável”.

No plano econômico, a crítica ao chamado “tarifaço” ocupa grande parte do texto. Um ano após o “Dia da Libertação”, escreve Manso, a taxa efetiva média de importação dos Estados Unidos subiu de 2,5% para cerca de 10%, o maior patamar em décadas. As consequências, segundo a análise, foram severas: “cada lar americano perdeu em média US$ 1.000 em 2025, com projeção de US$ 1.300 para 2026”.

O texto também afirma que as tarifas, combinadas com o choque do petróleo, mantiveram a inflação acima da meta de 2% do Federal Reserve. A previsão citada por Manso é a de que o índice de preços ao consumidor possa atingir 3,8% no segundo trimestre de 2026. Ao mesmo tempo, o crescimento econômico dos Estados Unidos deve ficar em apenas 1% no ano, com as tarifas retirando 0,4 ponto percentual da expansão do PIB.

Na avaliação exposta no artigo, a arrecadação de US$ 340 bilhões com tarifas não compensou nem os custos da guerra nem a elevação do déficit orçamentário. O texto acrescenta que o tarifaço tampouco entregou a reindustrialização prometida por Trump. Ao contrário, os EUA perderam 120 mil postos de trabalho na manufatura nos últimos 14 meses. Manso cita o reconhecimento da própria Reshoring Initiative de que as tarifas “tornaram mais caro construir nos EUA”.

No comércio internacional, o autor sustenta que a participação americana vem caindo de forma expressiva. As importações dos EUA vindas da China teriam recuado 30%, reduzindo a fatia chinesa nas compras americanas de mais de 20% para menos de 10%. No setor agrícola, as exportações dos Estados Unidos devem cair para US$ 169 bilhões em 2026, o menor nível em cinco anos, enquanto a participação do país no mercado global de grãos recua para 16%.

Manso amplia esse diagnóstico ao afirmar que, para o eleitorado que votou esperando prosperidade econômica, “o resultado é MALA”. Em uma das passagens de maior tom político do texto, ele escreve: “O americano médio está carregando uma mala pesada, no supermercado e no posto de gasolina”. Em seguida, resume o efeito social da conjuntura: “A inflação corrói o salário real”.

O artigo também relaciona o enfraquecimento agrícola americano à reorientação das compras internacionais. Segundo o autor, o fazendeiro dos EUA está “mais endividado e perdendo mercado e competitividade, porque a China e a UE estão comprando do Brasil e da Argentina”. Em outra formulação direta, ele afirma: “O tarifaço não trouxe a indústria de volta; trouxe retaliação e perda de market share agrícola”.

Na mesma linha, o texto destaca que “o Brasil e a Austrália ocuparam o vácuo deixado pelos EUA na soja e na carne”. Para Manso, trata-se de um sinal adicional de que a política econômica e comercial de Trump aprofundou perdas de mercado em vez de recuperar a posição produtiva americana.

O aumento dos preços do petróleo é outro ponto central da análise. Com o fechamento do Estreito de Ormuz, o barril do Brent saltou de cerca de US$ 70 para mais de US$ 111. O texto descreve esse choque energético como um fator que está “alimentando a inflação” e gerando disrupções em cadeias globais de suprimentos. Países emergentes, segundo o autor, já enfrentam racionamento de combustível.

Manso observa que o dólar chegou a se valorizar no início do conflito, impulsionado pela aversão ao risco e pela expectativa de juros altos por mais tempo. Ainda assim, a leitura do texto é a de que essa alta reflete mais medo do que força estrutural. Em uma das passagens mais contundentes, o autor afirma: “É um dólar de quem está no bunker, não de quem está liderando o progresso”.

A crise interna também ganha expressão no texto por meio da escalada dos protestos. Sob o subtítulo “No king no war no Trump - cresce a revolta nos EUA”, Manso descreve o “colapso da popularidade” de Trump e o surgimento de uma mobilização de massa. Segundo ele, “a legitimidade de qualquer governo reside na confiança popular, e a de Donald Trump está desabando”.

O autor registra que a taxa de aprovação do presidente teria caído para 33%, com 62% de desaprovação. Mais do que isso, afirma que “essa é a novidade, a ‘revolta’: uma maioria silenciosa que se tornou uma maioria ruidosa”.

Nas ruas, a palavra de ordem sintetizada no artigo é “No King No War No Trump”. Manso afirma que, em março, o movimento “No Kings” realizou sua terceira e maior onda de protestos, reunindo cerca de 8 milhões de pessoas em mais de 3.300 atos distribuídos pelos 50 estados americanos e por várias cidades do mundo. Segundo o texto, os protestos continuaram ativos em abril, com mais de 60 atos anti-guerra.

Ao descrever os participantes dessas mobilizações, o autor aponta a presença de veteranos de guerra, cidadãos contrários à política migratória do governo e ativistas que denunciam abertamente um “golpe de poder” presidencial. A guerra, segundo o texto, é “a fagulha da revolta”. Manso cita pesquisa da Reuters/Ipsos segundo a qual apenas 27% dos americanos apoiam os ataques, enquanto 57% acreditam que a guerra está indo mal para os EUA.

Essa combinação entre impopularidade da guerra e piora econômica, na leitura do autor, gera um ciclo de desgaste crescente: “a guerra alimenta a revolta, que por sua vez isola ainda mais o governo”. O texto ainda afirma que 48% dos norte-americanos sentem que a economia está piorando.

Ao abordar o sentido político do slogan “No King”, Manso argumenta que a crítica não se resume à retórica. Segundo ele, adversários de Trump apontam sinais de autoritarismo percebido, como desrespeito a ordens judiciais, uso excessivo de ordens executivas para contornar o Congresso e ameaças de declarar “emergência nacional” para manipular regras eleitorais sob o argumento de combater uma suposta fraude.

No horizonte eleitoral, o texto traça um cenário muito desfavorável para o Partido Republicano. Manso escreve que o entusiasmo dos eleitores democratas é 14 pontos percentuais superior ao dos republicanos e afirma que isso pode resultar em uma “onda azul” nas eleições legislativas de novembro de 2026. O autor também diz que a certeza de voto entre democratas, de 79%, supera com folga a dos republicanos, de 65%.

Mesmo entre os que apoiaram Trump, o desgaste aparece no artigo como um dado relevante. Segundo o texto, 41% dos eleitores que votaram no presidente avaliam que o governo entregou menos do que prometeu.

A análise dedica espaço ainda aos reflexos desse cenário sobre a América Latina e o Brasil. Manso escreve que a região foi atingida de forma desigual pelas tarifas americanas e que, no caso brasileiro, as sobretaxas foram “mais brandas”. Ainda assim, as exportações do Brasil para os Estados Unidos caíram 21,3% no segundo semestre de 2025.

Por outro lado, o autor argumenta que o país conseguiu redirecionar parte de suas vendas para a China e outros mercados, preservando um superávit comercial total de US$ 68,3 bilhões em 2025. Para o Brasil, o quadro é descrito como ambíguo: há impactos negativos, como pressão sobre combustíveis, fertilizantes, inflação e crescimento, mas também oportunidades ligadas ao redirecionamento do comércio global, especialmente no setor agrícola.

Em outro bloco do artigo, Manso afirma que o BRICS+ se fortalece em resposta simultânea à guerra e às tarifas. Segundo ele, em março de 2026 Trump prometeu uma tarifa extra de 10% a qualquer país que se “alinhasse com políticas anti-americanas do BRICS”. Na resposta do bloco, dada na cúpula do Rio, os líderes classificaram essas tarifas como “indiscriminadas”, “ilegais” e “arbitrárias”.

O texto sustenta que a crise americana acelerou o desacoplamento comercial e monetário. Manso escreve que “mais de 60% do comércio dentro do BRICS já seja liquidado em moedas locais” e destaca propostas para interligar moedas digitais de bancos centrais entre os países-membros, reduzindo a dependência do dólar.

Na parte final, o autor amplia a discussão para a disputa em torno de ouro, petróleo e terras raras como instrumentos de soberania nacional. Em sua formulação, 2026 marca “a transição de um sistema unipolar monetário para um sistema multipolar de commodities estratégicas”. O ouro, segundo Manso, deixou de ser apenas porto seguro e se tornou a “Arma Financeira dos Não-Alinhados”.

Ao tratar do petróleo, ele afirma que a guerra transformou a commodity em “arma geopolítica de precisão” e sustenta que o controle do fluxo energético pelo Irã, somado à crescente aceitação de moedas alternativas em parte do comércio internacional, está “matando o Petrodólar na prática”.

Sobre terras raras, o texto aponta a China como potência dominante no refino global e destaca a vulnerabilidade americana nesse setor. Manso sustenta que, apesar do tarifaço, a dependência dos Estados Unidos em relação à China aumentou em termos de vulnerabilidade, enquanto a guerra no Irã desviou recursos que poderiam ser direcionados ao fortalecimento da produção doméstica.

No caso brasileiro, o autor identifica uma oportunidade estratégica ainda não aproveitada. Ele afirma que o país possui a segunda maior reserva geológica de terras raras do mundo, mas não extrai nem processa esses materiais em escala comercial. Na avaliação do texto, falta uma política nacional de minerais estratégicos tratada como tema de defesa nacional.

Na síntese final, Manso sustenta que a soberania, em 2026, já não pode mais ser medida apenas “pelo tamanho do porta-aviões ou pelo saldo em dólar na conta corrente”. Em uma das conclusões centrais do artigo, ele escreve: “Trump transformou o slogan ‘Make America Great Again’ em um epitáfio irônico: ‘Make America Lose Again’”.

A análise encerra afirmando que, enquanto Washington se aprofunda em uma guerra sem saída no Estreito de Ormuz e em uma política tarifária que encarece a vida do trabalhador americano e afasta aliados históricos, o Sul Global acelera a construção de uma nova arquitetura de poder. Para o autor, o Brasil está diante de uma encruzilhada: permanecer como exportador de commodities brutas ou transformar suas reservas minerais e energéticas em instrumento de projeção soberana e geopolítica.

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