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Vitória do Irã contra os Estados Unidos mudou o mundo para sempre, diz Mearsheimer

Cientista político afirma que Donald Trump recuou diante de uma derrota estratégica e avalia que a guerra aprofundou a transição para uma ordem multipolar

John Mearsheimer e Glenn Diesen (Foto: Reprodução Youtube)

247 – A vitória do Irã contra os Estados Unidos mudou o mundo de forma permanente, na avaliação do cientista político John Mearsheimer. Em entrevista ao analista Glenn Diesen, publicada no YouTube, o professor afirmou que a guerra expôs os limites do poder militar de Washington, enfraqueceu Israel, abalou a economia internacional e acelerou transformações profundas na ordem global.

A entrevista foi ao ar no canal de Glenn Diesen, sob o título original “John Mearsheimer: World Changed Forever as Iran Defeated the U.S.”. Ao longo da conversa, Mearsheimer sustenta que Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, percebeu que o conflito havia se tornado insustentável e passou a buscar uma saída emergencial. Para ele, a oscilação de Trump entre ameaças extremas e recuo diplomático não revela força, mas desespero diante de uma guerra que não podia vencer.

Trump recuou porque não tinha como vencer

Na avaliação de Mearsheimer, a posição de Trump ficou clara em duas manifestações feitas na segunda-feira, 6 de abril. Segundo ele, pela manhã o presidente adotou um tom de ameaça absoluta contra o Irã. Horas depois, porém, mudou radicalmente de rumo e passou a admitir negociações com base nas exigências iranianas.

O professor resumiu sua leitura de forma direta: “O presidente Trump está desesperado para encerrar esta guerra”. Em seguida, reforçou que a mudança de posição teve um significado inequívoco: “Ele encontrou a saída de emergência, e a saída de emergência é admitir a derrota”.

Para Mearsheimer, Trump percebeu que os Estados Unidos não tinham uma via plausível para escalar o conflito sem mergulhar em uma catástrofe ainda maior. Segundo ele, Washington não podia obter vitória militar decisiva, tampouco transformar a guerra em um sucesso político. Por isso, a única alternativa real teria sido o recuo.

O cientista político foi ainda mais duro ao comentar a ameaça feita por Trump contra o povo iraniano. Segundo ele, tratou-se de uma formulação inaceitável: “Esta é uma ameaça genocida de primeira ordem. Este é o tipo de linguagem que você espera de Adolf Hitler, não de um presidente americano”.

Derrota estratégica dos Estados Unidos e de Israel

Mearsheimer afirma que a dimensão da derrota pode ser medida pelos objetivos que, segundo ele, haviam sido fixados por Washington e Tel Aviv no início do conflito. Em sua análise, nenhum deles foi alcançado.

Ele listou quatro metas centrais: mudança de regime no Irã, eliminação da capacidade iraniana de enriquecimento nuclear, destruição dos mísseis balísticos de longo alcance e fim do apoio de Teerã ao Hezbollah, ao Hamas e aos houthis. Sobre o resultado, foi taxativo: “Nenhuma dessas quatro exigências foi realizada. Nenhuma”.

Ao mesmo tempo, afirmou, o Irã manteve capacidade de pressão regional e ampliou sua influência estratégica, sobretudo pela posição em torno do estreito de Ormuz. Para Mearsheimer, isso alterou o equilíbrio regional em favor de Teerã e deixou os Estados Unidos e Israel em situação mais delicada do que antes da guerra.

Ele também ressaltou que o revés foi ainda mais profundo para o governo de Benjamin Netanyahu: “Esta é uma derrota clara. E, a propósito, é uma derrota ainda maior para Israel”.

O estreito de Ormuz e a nova alavanca iraniana

Um dos pontos centrais da entrevista foi o controle do estreito de Ormuz e seu impacto sobre o comércio global de energia. Mearsheimer argumenta que o Irã saiu da guerra com enorme capacidade de pressão geoeconômica, embora tenha pago um preço altíssimo em destruição interna.

O professor fez uma ponderação importante. Disse que seria errado exagerar a força do Irã, porque o país foi devastado por sanções e ataques. Ainda assim, insistiu que o controle sobre rotas estratégicas mudou o tabuleiro. Nas palavras dele, “não há dúvida, porém, de que, dado o fato de controlarem o estreito de Ormuz, eles têm uma enorme quantidade de influência”.

Mearsheimer ampliou o raciocínio ao lembrar a articulação regional do Irã com os houthis, no Iêmen. Segundo ele, a combinação entre a pressão sobre o estreito de Ormuz e a possibilidade de interrupção do tráfego no Bab el-Mandeb dá a Teerã e a seus aliados capacidade concreta de afetar fluxos vitais de petróleo, gás, fertilizantes e mercadorias.

Por isso, ele diz que o mundo passou a lidar com uma nova realidade estratégica, na qual os Estados Unidos continuam poderosos, mas muito menos capazes de impor sua vontade.

A economia mundial entrou no centro da crise

Na interpretação de Mearsheimer, o fator decisivo para o recuo americano não foi apenas militar. O elemento central foi o temor de uma convulsão econômica global de enormes proporções. Ele afirmou que China e Rússia compreenderam rapidamente o alcance do problema e passaram a pressionar por uma saída negociada.

Segundo o professor, Pequim teria atuado em conjunto com os paquistaneses e mantido contato direto com Teerã para estimular negociações. Para ele, a continuidade da guerra colocaria em risco não apenas o mercado de energia, mas também cadeias globais de alimentos, insumos e transporte.

Mearsheimer enfatizou esse ponto com clareza: “Eu acho que é a economia global que realmente está conduzindo o trem aqui”.

Ao desenvolver o argumento, ele afirmou que a crise não atingiria apenas os países diretamente envolvidos, mas todo o planeta. “Se esta guerra continuar, ela precisa ser encerrada”, disse. E acrescentou: “A palavra que quero sublinhar é todos”, ao afirmar que todos seriam atingidos pelas consequências do conflito.

Trump saiu politicamente ferido

Para Mearsheimer, o fracasso militar e diplomático terá reflexos profundos dentro dos próprios Estados Unidos. Ele avalia que a guerra comprometeu a imagem construída por Trump como líder forte, avesso a aventuras militares desastrosas e capaz de restaurar a grandeza americana.

Na sua visão, esse capital político foi seriamente abalado. “Eu acho que isso vai destruir a presidência Trump”, afirmou. Em seguida, ponderou que ele pode permanecer formalmente no cargo até o fim do mandato, mas já estaria “seriamente danificado” do ponto de vista político.

O professor destacou ainda o desgaste do presidente junto a setores que antes o apoiavam, mencionando conflitos com nomes influentes do campo conservador e da base do movimento MAGA. Para ele, a guerra não apenas agravou divisões internas como também tornou muito mais difícil para Trump sustentar a narrativa de que representa força, inteligência estratégica e controle da situação.

Relações entre Estados Unidos e Israel também saem abaladas

Outro ponto forte da entrevista é a avaliação de que a guerra provocou dano relevante na relação entre Washington e Tel Aviv. Mearsheimer afirmou que há evidências crescentes de que Israel empurrou os Estados Unidos para um conflito desastroso, prometendo uma vitória rápida que jamais se concretizou.

Segundo ele, quando a poeira baixar e a sociedade americana começar a discutir as causas do desastre, a responsabilidade israelense entrará com força no debate público. O professor lembrou que, em guerras perdidas, a investigação sobre as origens do conflito costuma ganhar enorme centralidade.

Ele foi direto ao afirmar: “Os israelenses conduziram Trump pelo nariz para dentro deste desastre”.

Na visão do cientista político, isso pode acelerar uma mudança já em curso na percepção americana sobre Israel, tanto na opinião pública quanto entre setores da elite política. Para ele, o conflito não terminou apenas com uma derrota militar, mas também com um abalo político profundo na aliança que estruturou parte importante da estratégia dos Estados Unidos no Oriente Médio nas últimas décadas.

O risco de escalada nuclear

Em um dos trechos mais graves da entrevista, Mearsheimer afirma que Israel pode chegar à conclusão de que não conseguirá conter o Irã por meios convencionais. A partir daí, na visão dele, surge um cenário ainda mais perigoso.

Segundo o professor, a percepção israelense sobre o Irã é distinta da visão predominante em outros países. Ele argumenta que Tel Aviv trata Teerã como inimigo existencial e acredita que um Irã fortalecido representa ameaça mortal. Diante disso, e após o fracasso militar no conflito recente, Mearsheimer vê crescer o risco de que setores israelenses passem a considerar seriamente o uso de armas nucleares.

Ele não suavizou a advertência: “Eu não descartaria a possibilidade de eles usarem uma arma nuclear contra o Irã”.

Trata-se, em sua análise, de uma consequência extrema de uma guerra que terminou sem alcançar os objetivos declarados e ainda produziu um ambiente de instabilidade muito maior.

Mundo multipolar sai reforçado

Ao olhar para as consequências de longo prazo, Mearsheimer sustenta que o resultado da guerra não alterou a base material do poder americano, mas enfraqueceu fortemente sua capacidade de projetar esse poder e de influenciar outros Estados. Essa distinção, para ele, é crucial.

O professor afirmou que os Estados Unidos continuam sendo uma grande potência, mas saíram do conflito com menos capacidade de coerção, menos credibilidade entre aliados e maior dificuldade de moldar os acontecimentos em regiões estratégicas. Isso beneficia especialmente China e Rússia, não porque elas tenham se tornado subitamente mais poderosas, mas porque Washington passou a operar em condições piores.

Ele retomou, então, sua tese já conhecida sobre a ordem internacional: “Vivemos em um mundo multipolar desde 2017”.

Na leitura de Mearsheimer, a guerra contra o Irã reforçou essa transição. Os Estados Unidos não deixaram de ser poderosos, mas sua autoridade global foi ainda mais corroída. Em várias regiões, de acordo com ele, aliados passaram a ver Washington como parceiro menos confiável, menos previsível e menos eficiente.

Europa, Otan e Ucrânia diante de um cenário mais sombrio

A entrevista também tratou dos impactos sobre a Europa, a Otan e a guerra na Ucrânia. Mearsheimer avalia que Trump tentará transferir aos europeus a responsabilidade por derrotas e fracassos acumulados, tanto no Oriente Médio quanto no Leste Europeu.

Segundo ele, o presidente americano precisará de bodes expiatórios para explicar o desastre, e os europeus aparecem como alvo provável. Isso tende a agravar ainda mais a crise transatlântica e a esvaziar o papel da Otan como aliança efetiva.

Sobre o futuro do bloco militar, o cientista político foi sombrio: “O futuro da Otan parece sombrio, para dizer o mínimo”.

No caso da Ucrânia, ele sustenta que a guerra contra o Irã drenou ainda mais recursos, armamentos e margem política de Washington. Assim, a possibilidade de um novo esforço robusto dos Estados Unidos em favor de Kiev se tornaria ainda menor. Ao mesmo tempo, Trump, em sua avaliação, procurará culpar a Europa por qualquer colapso ucraniano no campo de batalha.

Uma guerra que deixou marcas permanentes

Ao fim da entrevista, Mearsheimer voltou à ideia central de que o conflito não foi apenas mais um episódio regional, mas um marco histórico. Para ele, o fracasso dos Estados Unidos e de Israel no confronto com o Irã produziu uma inflexão duradoura, com efeitos sobre alianças, fluxos econômicos, percepção de poder e arquitetura internacional.

A guerra, segundo sua análise, mostrou que a força militar americana encontra limites cada vez mais evidentes quando confrontada com realidades geopolíticas complexas, custos econômicos globais e adversários dispostos a prolongar o confronto. Mais do que isso, revelou que a era da imposição unilateral de Washington enfrenta desgaste acelerado.

Por essa razão, a fala que dá título ao vídeo e sintetiza o raciocínio do professor ganha peso especial: a vitória do Irã contra os Estados Unidos, segundo Mearsheimer, mudou o mundo para sempre.

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