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Mearsheimer diz que Irã “detém quase todas as cartas” e vê derrota estratégica dos EUA sob Trump

Cientista político afirma que guerra contra o Irã empurrou Washington para um atoleiro sem saída e com potencial de abalar a economia mundial

John Mearsheimer e Glenn Diesen (Foto: Reprodução Youtube)

247 – Em entrevista ao programa de Glenn Diesen no YouTube, o cientista político John Mearsheimer afirmou que os Estados Unidos entraram em uma guerra contra o Irã que não podem vencer e que pode produzir consequências “catastróficas” para a economia internacional e para a própria presidência de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos. Ao analisar o conflito, Mearsheimer sustentou que Teerã “detém quase todas as cartas” em uma guerra prolongada e que Washington se meteu em um impasse estratégico sem rota clara de saída.

Ao longo da conversa, Mearsheimer fez uma crítica contundente à condução da política externa de Trump em seu segundo mandato e disse que a grande expectativa inicial de parte dos analistas, que viam no republicano a possibilidade de romper com a lógica das guerras intermináveis, foi substituída por forte decepção. Para ele, o presidente desperdiçou uma oportunidade histórica de alterar o curso da política externa dos Estados Unidos e acabou retornando ao mesmo caminho militarizado que antes prometia abandonar.

De promessa de ruptura a repetição do velho intervencionismo

No início da entrevista, Glenn Diesen recorda que havia certo otimismo em relação à volta de Trump à Casa Branca, sobretudo pela percepção de que ele compreendia os limites do poder unipolar dos Estados Unidos e a necessidade de reduzir frentes de conflito, especialmente no Oriente Médio e na Europa. Mearsheimer concorda com essa leitura e diz que, nos primeiros meses do novo governo, muitos observadores imaginavam que Trump evitaria novas guerras e tentaria encerrar conflitos já em curso.

Segundo o professor, essa expectativa se dissolveu rapidamente. Ele observa que, hoje, grande parte dos comentaristas que antes viam uma inflexão positiva na política externa americana passaram a ser “muito críticos” do presidente. Em sua avaliação, Trump “perdeu uma oportunidade extraordinária” e se revelou incapaz de mudar a direção estratégica de Washington.

A seu ver, o maior exemplo disso é a guerra contra o Irã. Mearsheimer classificou como “verdadeiramente notável” o fato de Trump ter permitido que os Estados Unidos caíssem nessa armadilha. “Ele entrou em uma guerra que não pode vencer”, afirmou. Para o analista, trata-se de uma situação “muito pior que Afeganistão, muito pior que Iraque”, não apenas pela dificuldade militar, mas pelo risco de desorganização ampla da economia global.

“O Irã detém quase todas as cartas”

Um dos pontos centrais da entrevista foi a tese de que, numa guerra prolongada, o Irã possui ampla vantagem estratégica. Mearsheimer foi enfático: “os iranianos detêm quase todas as cartas numa guerra prolongada”. Em sua leitura, o cálculo inicial de Washington e de Israel era o de obter uma vitória rápida, baseada em choque, intimidação e decapitação do regime. A aposta era que uma ofensiva fulminante provocaria o colapso do governo iraniano e uma revolta interna.

Para ele, esse plano fracassou. E, uma vez frustrada a hipótese de vitória rápida, os Estados Unidos passaram a enfrentar um cenário de desgaste em que o Irã ganha poder de barganha a cada dia. “Não há uma estratégia de saída real para Trump”, disse. E acrescentou que, se Washington optar por subir a escada da escalada militar, Teerã pode responder de forma eficaz em quase todos os degraus desse processo.

Mearsheimer argumenta que parte expressiva da opinião pública americana ainda não compreendeu a gravidade da situação porque acompanha uma narrativa triunfalista. No entanto, segundo ele, uma leitura séria da história militar e da lógica estratégica revela o oposto. “Estamos em apuros profundos”, resumiu.

Economia global sob ameaça

A análise de Mearsheimer vai além do campo militar e se concentra fortemente nas consequências econômicas do conflito. Segundo ele, o Irã tem condições de “destruir a economia internacional” ao comprometer o fluxo de energia e ao ampliar a instabilidade em pontos vitais do comércio global. Em uma imagem forte, comparou a situação dos Estados Unidos ao Titanic em rota de colisão com um iceberg.

Na entrevista, ele argumenta que o Irã pode atingir duramente Estados do Golfo ao atacar usinas de dessalinização e infraestrutura petrolífera, comprometendo as bases materiais de funcionamento de países como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Também ressalta que Israel pode sofrer danos expressivos, uma vez que os iranianos possuem grande capacidade de lançar mísseis e manter pressão contínua.

Outro ponto destacado foi o estreito de Ormuz. Mearsheimer lembrou que parcela decisiva do petróleo mundial passa pela região e afirmou que a redução drástica do fluxo de navios já é, por si, um sinal alarmante. Além do petróleo, ele citou o impacto sobre fertilizantes, o que poderia repercutir diretamente sobre a oferta global de alimentos.

Na avaliação do professor, esse quadro ajuda a explicar por que Trump tem oscilado entre retórica maximalista e movimentos de adiamento. Mearsheimer menciona que o presidente anunciou prazos, recuou, deu novos prazos e evitou ataques mais devastadores à infraestrutura energética iraniana porque compreende, ainda que tardiamente, o tamanho do risco econômico.

Exigências de rendição e ausência de espaço para acordo

Ao comentar as exigências feitas por Trump ao Irã, Mearsheimer disse que a linguagem usada pela Casa Branca equivale, na prática, a uma demanda de capitulação total. “Rendição incondicional”, resumiu. Segundo ele, o plano apresentado por Washington é tão extremo que inicialmente pareceu uma piada ou uma peça de desinformação.

Para o professor, o problema central é que não existe espaço real de negociação entre as partes. De um lado, os Estados Unidos apresentam exigências incompatíveis com a soberania iraniana. De outro, o Irã, por considerar que enfrenta uma ameaça existencial, não tem incentivos para ceder rapidamente.

Mearsheimer faz então uma comparação com a guerra na Ucrânia: assim como naquele conflito, também aqui as posições são tão distantes que não se vislumbra uma zona de compromisso. “Não há espaço de barganha”, diz, em essência. Pior: do ponto de vista iraniano, prolongar o conflito pode ser vantajoso, já que o aumento da pressão econômica e estratégica sobre Washington tende a ampliar a capacidade de Teerã de impor termos mais favoráveis adiante.

A lógica da guerra de atrito favorece Teerã

Outro aspecto relevante da entrevista é a defesa da ideia de que o tempo joga a favor do Irã. Diesen observa que os iranianos podem continuar utilizando meios relativamente baratos, como drones, enquanto os Estados Unidos consomem sistemas de interceptação muito mais caros. Mearsheimer concorda com esse raciocínio mais amplo e insiste que uma guerra de atrito favorece quem tem mais cartas regionais e maior disposição para suportar sacrifícios.

Na avaliação dele, Teerã não apenas dispõe de instrumentos militares para prolongar o conflito, como também tem motivação política e histórica para isso. O país convive há décadas com sanções severas, ataques e ameaças permanentes. Por essa razão, segundo o analista, a liderança iraniana não enxerga retorno seguro ao antigo status quo. A percepção, em Teerã, seria a de que qualquer pausa sem mudança estrutural apenas abriria caminho para novas agressões.

Mearsheimer chama atenção para esse elemento existencial da crise. Segundo ele, Israel e setores do establishment americano não estariam buscando apenas mudança de regime, mas o enfraquecimento profundo do Estado iraniano. Diante disso, a tendência do Irã seria continuar lutando até arrancar concessões de grande monta dos adversários.

Sem opção terrestre viável

O professor também desmonta a hipótese de uma solução militar baseada em tropas terrestres. Para ele, essa possibilidade é “uma piada”. Em sua argumentação, uma operação dessa natureza exigiria mobilização massiva, planejamento prolongado, ampla logística e volume de forças completamente incompatíveis com o que estaria sendo cogitado.

Mearsheimer compara o cenário atual com a Guerra do Golfo de 1991 e a invasão do Iraque em 2003. Em ambas, lembra, os Estados Unidos mobilizaram contingentes gigantescos, com meses de preparação, uso intensivo de unidades mecanizadas e blindadas, e ainda assim em teatros muito menores e menos complexos que o Irã. Diante disso, a ideia de empregar apenas alguns milhares de soldados, com preparo apressado e sem base territorial segura, seria totalmente irrealista.

Ele também afirma que as bases americanas na região já demonstraram elevada vulnerabilidade e que qualquer tentativa de ocupar ilhas estratégicas ou pontos costeiros enfrentaria reação imediata do Irã. Além disso, questiona a utilidade estratégica de tais operações, já que uma interrupção ampla do fluxo de petróleo também prejudicaria diretamente os próprios interesses de Washington.

Israel, lobby e o risco de uma ruptura

A entrevista também aborda o papel de Israel no conflito. Mearsheimer recorda sua conhecida tese de que, em diversas ocasiões, os Estados Unidos adotaram políticas alinhadas aos interesses israelenses mesmo quando isso não correspondia ao interesse nacional americano. Ainda assim, sustenta que este caso pode ser diferente caso a perspectiva de colapso econômico global se torne incontornável.

Segundo ele, se Trump concluir que a continuação da guerra levará o mundo “penhasco abaixo”, poderá ignorar as pressões israelenses e do lobby pró-Israel e aceitar concessões significativas ao Irã. Isso, no entanto, implicaria reconhecer uma derrota humilhante dos Estados Unidos.

Mearsheimer também faz uma observação sensível sobre os riscos políticos e sociais internos de uma guerra fracassada. Ele alerta para o perigo de que, num cenário de catástrofe, surjam leituras antissemitas que atribuam responsabilidade coletiva “aos judeus”, o que ele rejeita explicitamente. Na entrevista, sublinha que muitos judeus se opõem à guerra e que o lobby pró-Israel inclui também cristãos sionistas, o que torna falsa qualquer generalização étnica ou religiosa.

Europa, Otan e a política da culpa

Ao discutir o papel europeu, Mearsheimer sustenta que os países da Europa enxergam a guerra como causa perdida e não querem se envolver mais profundamente. Para ele, os Estados Unidos entraram no conflito sem consulta adequada aos aliados e agora tentam pedir ajuda quando a situação já se deteriorou.

Sua avaliação é que Trump, diante do fracasso, tende a deslocar a responsabilidade para os europeus. Segundo o professor, essa é uma forma de evitar que a culpa recaia sobre a própria Casa Branca. Ao mesmo tempo, ele afirma que a guerra na Ucrânia continua como fator de pressão adicional sobre a Otan e sobre as relações transatlânticas, podendo agravar ainda mais a instabilidade caso haja novo aprofundamento da crise naquele front.

Mearsheimer sugere que o resultado pode ser um jogo cruzado de acusações: Washington culpando a Europa pelo Irã, e europeus responsabilizando os Estados Unidos pelo desastre ucraniano. Esse ambiente aprofundaria a erosão da coesão atlântica num momento de ampla turbulência internacional.

Crítica ao método de decisão de Trump

Na parte final da entrevista, Mearsheimer apresenta uma crítica de fundo à maneira como Trump toma decisões de guerra e paz. Segundo ele, embora muita gente critique o chamado “Estado profundo”, há uma razão para a existência de instituições como Pentágono, CIA e estruturas permanentes de inteligência: a necessidade de conhecimento especializado na formulação estratégica.

Para o cientista político, Trump despreza essas instituições e, por desconfiança ou hostilidade, opta por decidir com base em um círculo de pessoas sem qualificação adequada para enfrentar problemas geopolíticos complexos. Ao citar nomes como Steve Witkoff, Jared Kushner e Lindsey Graham, Mearsheimer sustenta que o presidente substituiu expertise institucional por conselheiros políticos, amigos e figuras midiáticas.

Ele afirma ainda que os próprios órgãos permanentes do Estado americano demonstravam forte ceticismo em relação à guerra, precisamente porque qualquer conhecedor minimamente sério de história militar saberia que não se faz mudança de regime apenas com poder aéreo e voluntarismo político. “Isso era previsível”, afirmou, ao sustentar que o fracasso não exigia genialidade para ser antecipado.

A conclusão da entrevista é dura: para Mearsheimer, Trump foi iludido por Benjamin Netanyahu e por setores que venderam a ideia de uma vitória rápida e limpa. O resultado, segundo ele, foi a entrada dos Estados Unidos em uma guerra de desgaste para a qual não havia planejamento sério, consenso estratégico nem caminho plausível de vitória.

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