Houthis do Iêmen lançam ataque com mísseis contra Israel e ampliam tensão na guerra contra o Irã
Investida marca a primeira ofensiva do grupo desde o início da guerra entre EUA, Israel e Irã e adiciona novo foco de instabilidade ao Oriente Médio
247 – Os houthis do Iêmen assumiram neste sábado a autoria de um ataque com uma barragem de mísseis balísticos contra Israel, em uma escalada que amplia ainda mais a guerra relacionada ao Irã e aprofunda a instabilidade no Oriente Médio. A informação foi publicada pela Al Jazeera, que relatou tratar-se da primeira ofensiva desse tipo promovida pelo grupo desde o início da guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã.
Segundo a reportagem, o anúncio foi feito pelo porta-voz militar dos houthis, brigadeiro-general Yahya Saree, em declaração transmitida pela emissora por satélite Al-Masirah, ligada ao grupo. Em sua fala, Saree afirmou que os ataques “continuarão até que os objetivos declarados sejam alcançados, conforme afirmado na declaração anterior das forças armadas, e até que cesse a agressão contra todas as frentes da resistência”.
De acordo com os houthis, os mísseis tiveram como alvo o que o grupo descreveu como “sensíveis instalações militares israelenses” no sul de Israel. Já os militares israelenses disseram ter interceptado um dos mísseis lançados.
Ataque abre nova frente de pressão sobre Israel
A ofensiva ocorre poucas horas depois de Yahya Saree ter indicado, em uma declaração vaga feita na sexta-feira, que os houthis ingressariam na guerra que vem abalando o Oriente Médio e provocando choques na economia mundial. O ataque, portanto, representa não apenas uma ação militar pontual, mas um novo componente estratégico em um conflito que já envolve diretamente Irã, Israel e, segundo o texto, também os Estados Unidos.
Sirens de alerta soaram em torno de Beer Sheba e na região próxima ao principal centro de pesquisa nuclear de Israel. A reportagem aponta que foi a terceira vez, entre a noite de sexta-feira e a madrugada de sábado, que alarmes foram acionados naquela área, enquanto Irã e Hezbollah também continuavam disparando contra Israel durante a noite.
A entrada dos houthis nesse cenário aprofunda a sensação de cerco enfrentada por Israel e eleva o risco de uma guerra ainda mais disseminada, com múltiplas frentes de combate simultâneas.
Houthis controlam Sanaa e já haviam abalado rotas comerciais
Os houthis controlam a capital do Iêmen, Sanaa, desde 2014. Até aqui, o grupo havia permanecido fora da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. Ainda assim, sua capacidade de intervenção regional já havia sido demonstrada em episódios anteriores, especialmente durante a guerra entre Israel e Hamas.
Naquele contexto, os ataques do grupo contra embarcações comerciais desorganizaram o trânsito marítimo no Mar Vermelho, rota fundamental para o comércio global. Pela região, passam anualmente cerca de US$ 1 trilhão em mercadorias, segundo o texto-base da Al Jazeera.
A reportagem lembra que os houthis atacaram mais de 100 navios mercantes com mísseis e drones entre novembro de 2023 e janeiro de 2025. Essas ações resultaram no afundamento de duas embarcações e na morte de quatro marinheiros, evidenciando o poder de desestabilização do grupo sobre corredores logísticos centrais da economia mundial.
Em 2024, o governo Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, lançou ataques contra os houthis, encerrados algumas semanas depois. O histórico reforça que a organização iemenita já vinha sendo tratada como um ator militar relevante, capaz de influenciar não apenas a dinâmica regional, mas também o comércio e a segurança internacionais.
Especialista vê entrada dos houthis como movimento “muito significativo”
O professor de estudos de mídia Mohamad Elmasry, do Doha Institute for Graduate Studies, afirmou à Al Jazeera que a entrada dos houthis na guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã é “muito significativa”.
Em sua avaliação, o grupo já demonstrou, ao longo dos últimos dois anos e meio, capacidade real de alterar o equilíbrio estratégico regional. “Vimos nos últimos dois anos e meio que os houthis têm poder significativo”, declarou.
Elmasry alertou ainda para os impactos potenciais sobre rotas marítimas decisivas para o comércio global. “Se eles decidirem agir para fechar o estreito de Bab al-Mandab, o Mar Vermelho e, em última instância, o Canal de Suez, então teríamos dois grandes pontos de estrangulamento [fechados], juntamente com o estreito de Hormuz”, disse.
O professor acrescentou que essas passagens são “importantes vias marítimas internacionais para o comércio internacional”, o que tornaria a escalada extremamente grave do ponto de vista econômico e geopolítico.
Israel poderá retaliar após ofensiva
Reportando de Ramallah, a jornalista Nida Ibrahim, da Al Jazeera, afirmou que a abertura de uma nova frente de guerra, somando-se às ações do Irã e do Hezbollah, tende a aumentar as dúvidas dentro de Israel sobre a viabilidade das operações militares em curso e sobre a forma como o governo conduz a guerra.
Segundo ela, o novo cenário deve ampliar o debate interno israelense sobre os custos estratégicos do conflito. Ibrahim observou ainda que há expectativa de resposta militar israelense. “Esperamos que Israel retalie esse ataque, como o vimos fazer repetidas vezes quando o Iêmen entrou na batalha durante a guerra em Gaza como forma de apoiar os palestinos”, afirmou.
A tendência, portanto, é de agravamento da crise, com risco de novas ofensivas cruzadas e maior impacto sobre a segurança regional e a economia global.
Escalada regional aumenta risco econômico e militar
O ataque deste sábado reforça que a guerra já ultrapassa em muito os limites de um confronto bilateral. Com Irã, Hezbollah e agora os houthis integrando diferentes eixos de pressão contra Israel, o conflito se torna mais complexo, mais imprevisível e mais perigoso.
Além do impacto militar direto, a entrada dos houthis reacende o temor em torno dos gargalos marítimos do Oriente Médio. Se a guerra avançar sobre áreas como Bab al-Mandab, o Mar Vermelho, o Canal de Suez ou o estreito de Hormuz, o mundo poderá enfrentar uma crise logística de grandes proporções, com reflexos sobre energia, inflação, cadeias de suprimento e transporte internacional.
A nova ofensiva, assim, não apenas amplia o alcance da guerra como sinaliza que o conflito pode entrar em uma fase ainda mais ampla de confrontação regional.


