Glenn Diesen diz que guerra contra o Irã expôs fragilidade dos EUA, da Otan e do Ocidente político
Professor da Universidade do Sudeste da Noruega afirma que Teerã resistiu à ofensiva e sustenta que o conflito abalou a legitimidade do bloco ocidental
247 – O professor Glenn Diesen, da Universidade do Sudeste da Noruega, afirmou que a guerra contra o Irã revelou não apenas a capacidade de resistência de Teerã, mas também as fragilidades estratégicas dos Estados Unidos, da Otan e do chamado Ocidente político. As declarações foram dadas em entrevista ao programa Judging Freedom, apresentado por Andrew Napolitano, em conteúdo publicado no YouTube sob o título “Prof Glenn Diesen: quão forte é o Irã?”.
Ao longo da conversa, Diesen analisou a escalada militar envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel, criticou duramente a retórica do presidente Donald Trump e sustentou que a resposta iraniana alterou o equilíbrio político e estratégico da crise. Para ele, o conflito corroeu a legitimidade moral do Ocidente e expôs os limites da aliança atlântica em duas frentes simultâneas: a guerra na Ucrânia e a ofensiva contra o Irã.
Crítica à ameaça de Trump contra o Irã
Logo no início da entrevista, Napolitano pergunta como foi recebida na Europa a ameaça de Trump de destruir a civilização iraniana ou persa. Glenn Diesen responde que houve algumas manifestações críticas, mas considera que a reação europeia foi amplamente insuficiente.
Segundo ele, “houve alguns artigos de jornalistas e alguns comentários de políticos dizendo que a retórica era agressiva demais, mas não houve objeção suficiente”. Em seguida, ele faz uma das declarações mais contundentes da entrevista ao afirmar que o que estava sendo defendido era, em sua avaliação, algo de dimensão histórica extrema: “o que ele estava essencialmente defendendo era o maior genocídio da história humana, isto é, apagar uma civilização”.
Diesen enfatiza que o Irã tem mais de 90 milhões de habitantes e representa uma das civilizações mais antigas do planeta. Ainda assim, diz ele, a ameaça não provocou uma reação política proporcional na Europa. Na avaliação do professor, isso não apenas evidencia cautela excessiva diante de Washington, como também compromete a legitimidade dos líderes europeus, que nas últimas décadas buscaram sustentar sua identidade política com base em “ideais humanitários e valores democráticos liberais”.
Para ele, a contradição ficou exposta de forma brutal: o Ocidente político, que reivindica compromisso com princípios universais, permaneceu quase em silêncio diante de uma ameaça de destruição em massa. “Não houve, de fato, nenhuma resistência real”, resumiu.
Europa evita confronto aberto com Washington
Ao comentar se chefes de governo europeus teriam tentado conter Trump em conversas reservadas, Diesen admite não saber o que ocorreu nos bastidores, mas considera possível que alguma diplomacia discreta tenha existido. Ainda assim, ele avalia que a disposição europeia de confrontar publicamente a Casa Branca é mínima.
Segundo o professor, os governos europeus tentam preservar a Otan a qualquer custo e, por isso, evitam qualquer movimento que possa ser interpretado como divisão interna. “Há grande cautela em se levantar contra Trump”, disse.
Ele cita o caso britânico como exemplo desse comportamento ambíguo. De acordo com Diesen, autoridades do Reino Unido insistem em dizer que não participam diretamente da guerra e que suas bases não seriam usadas, “mas elas estão sendo usadas, e nós sabemos disso”. Para ele, esse comportamento mostra uma tentativa de equilibrar dois temores: não desagradar Trump e, ao mesmo tempo, evitar retaliações por parte do Irã.
A conclusão do professor é dura. Em sua leitura, a Europa está perdendo relevância “muito rapidamente”, não apenas do ponto de vista político, econômico e militar, mas até em termos de “dignidade básica”.
Otan pode sobreviver, mas não sairá intacta
A entrevista também aborda a situação da Otan diante da guerra na Ucrânia e do novo confronto envolvendo o Irã. Napolitano pergunta se a aliança sobreviverá à operação militar especial na Ucrânia. Diesen responde que isso pode ocorrer, mas com ressalvas importantes.
Para ele, a Otan foi tratada durante décadas como uma garantia absoluta de segurança. A lógica dominante no pós-Guerra Fria, segundo sua análise, era simples: quem estivesse dentro da aliança teria segurança; quem estivesse fora, não teria. Esse monopólio da segurança, porém, teria sido seriamente abalado.
Diesen argumenta que “não há retorno real depois disso”. Em sua visão, tanto a guerra na Ucrânia quanto a guerra contra o Irã deixaram “uma marca severa” na credibilidade da aliança. O que antes era uma posição marginal nos Estados Unidos, a crítica de Trump à Otan, passou a ganhar apoio mais amplo. E, na Europa, cresce a percepção de que Washington talvez não esteja disposto a garantir a proteção prometida.
Mesmo assim, o professor não vê sinais de que os europeus estejam dispostos a buscar uma arquitetura de segurança baseada em melhor convivência com os vizinhos. Ao contrário: “eles simplesmente vão tentar replicar a Otan com suas próprias capacidades, o que eu acho que é uma proposta fracassada”.
Pressão cresce sobre o Kremlin por desfecho mais rápido na Ucrânia
Ao tratar da guerra na Ucrânia, Diesen afirma que pode haver preparação russa para uma ofensiva final, embora reconheça que esse tipo de decisão não seja compartilhado publicamente. O que ele diz saber, no entanto, é que há pressão crescente dentro da Rússia para um desfecho mais rápido.
Segundo o professor, parte da sociedade russa não aceita mais a perspectiva de um conflito prolongado, com alto custo humano e social, após mais de quatro anos de guerra. Ele deixa claro que, para esse setor, a alternativa não seria capitular diante dos Estados Unidos e da Otan, aceitando mísseis da aliança na fronteira russa por meio da Ucrânia. A alternativa seria buscar uma solução mais rápida e decisiva no campo militar.
Diesen afirma que “a pressão está aumentando” e que a guerra contra o Irã intensificou esse debate. Em sua leitura, a forma como os Estados Unidos teriam enganado os iranianos com uma diplomacia falsa e um ataque-surpresa, além da maneira como Teerã resistiu, produziu impacto no debate interno russo. Ele resume esse sentimento com uma provocação: se os iranianos foram capazes de resistir aos Estados Unidos, por que a Rússia não encerraria o conflito de forma mais rápida?
Diesen diz acreditar mais na versão iraniana sobre o cessar-fogo
Outro eixo central da entrevista foi a disputa de narrativas sobre os pedidos de cessar-fogo. Napolitano cita uma declaração do secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, segundo a qual os iranianos estariam implorando por uma trégua havia duas semanas. Em contraposição, o chanceler iraniano Abbas Araghchi teria dito que eram Steve Witkoff e Jared Kushner que buscavam uma saída negociada havia um mês.
Diante dessa contradição, Diesen afirma de maneira direta: “eu tendo a acreditar nos iranianos”. Ele lembra que, em episódio anterior, Trump também havia alegado que Teerã queria um cessar-fogo e mantinha conversas construtivas, apenas para ser desmentido pelo ministro iraniano, que afirmou que não havia conversas nenhumas.
Para o professor, a narrativa de que o Irã estaria desesperado para encerrar a guerra não combina com os fatos em campo. Ele lembra ainda que, no início do conflito, Trump falava em “rendição incondicional” do Irã como resultado aceitável. Agora, segundo Diesen, as negociações teriam mudado completamente de eixo.
Em vez de girarem em torno do enriquecimento de urânio ou dos mísseis balísticos iranianos, elas estariam envolvendo as condições do controle iraniano sobre o estreito de Ormuz e a retirada de sanções contra Teerã. Na avaliação do professor, Washington não aceitaria discutir essas concessões se não estivesse numa posição vulnerável. “Eu acho que foi isso que aconteceu”, afirmou.
Força militar do Irã foi subestimada, diz professor
Um dos trechos mais importantes da entrevista é aquele em que Glenn Diesen contesta frontalmente a ideia de que o Irã seria um Estado fraco, isolado e à beira do colapso. Ele relata ter estado em Teerã em maio do ano anterior, pouco antes do início dos bombardeios israelenses, e diz que sua impressão foi muito diferente da imagem difundida pela mídia ocidental.
Segundo ele, a ideia de um “regime autoritário que oprime seu povo” teria sido “enormemente exagerada”. Diesen cita sua própria experiência nas ruas da capital iraniana e afirma que viu uma realidade distinta daquela descrita habitualmente no Ocidente. Ao comentar a vida cotidiana e o comportamento social, ele sustenta que a sociedade iraniana foi demonizada.
Além disso, ele relata ter visitado instalações ligadas a mísseis e sistemas de defesa aérea e diz ter percebido capacidades significativas. Não apenas em quantidade, mas também em capacidade produtiva. Segundo Diesen, o Irã dispõe de bases subterrâneas de armazenamento, drones, sistemas dispersos de produção e um modelo descentralizado que dificultaria sua neutralização numa guerra.
Sua conclusão é que a capacidade militar iraniana era relevante e que isso já deveria ser conhecido. Mais do que isso: ele afirma que os próprios iranianos deixavam claro, em conversas e entrevistas, o que fariam se os Estados Unidos atacassem diretamente o país.
Teerã tratou a guerra como ameaça existencial
Diesen afirma que, para o Irã, um ataque direto dos Estados Unidos seria encarado como ameaça existencial. Em sua leitura, sob o rótulo de “mudança de regime”, o que estava em jogo seria a destruição do país ou sua fragmentação, à semelhança do que ocorreu na Líbia e na Síria.
Por isso, argumenta ele, o Irã tinha não apenas meios, mas também motivação extrema para reagir. O professor diz que os iranianos deixaram claro, desde o primeiro dia, quais seriam seus movimentos: fechar o estreito de Ormuz, atacar bases americanas na região e impor danos severos aos países do Golfo, cuja infraestrutura depende fortemente de energia e dessalinização.
Ele observa ainda que várias monarquias do Golfo possuem uma altíssima proporção de trabalhadores estrangeiros e, em cenário de guerra prolongada, isso agravaria seu colapso operacional e econômico. Na visão do professor, a ameaça iraniana era crível porque combinava intenção declarada com capacidade operacional.
Por isso, ele diz não compreender como ganhou força a fantasia de que bastaria “jogar algumas bombas” para que o governo iraniano desabasse e a população recebesse os EUA e Israel como libertadores. “Eu acho que era fantasia”, afirmou. E completou: “é como fantasia na maioria das nossas guerras de mudança de regime naquela região”.
Inteligência, segundo Diesen, também atua para vender guerras
Quando Napolitano menciona reportagens segundo as quais a ofensiva teria sido impulsionada por Benjamin Netanyahu, por autoridades israelenses e por figuras do aparato de segurança que venderam a Trump a promessa de vitória rápida, Diesen responde que isso não seria surpreendente.
Para ele, não é segredo que Israel exerce enorme influência sobre os Estados Unidos e sobre Trump em particular. Ainda assim, ele diz ser difícil acreditar que o presidente norte-americano tenha aceitado com tamanha facilidade a ideia de que o Irã poderia ser derrotado em 48 horas apenas com poder aéreo.
Diesen classifica essa hipótese como sem paralelo histórico. Ainda assim, admite que “houve muitos relatos de que os israelenses venderam em excesso a fraqueza do governo iraniano” e minimizaram a força real de Teerã. Por isso, afirma não duvidar de que Trump tenha acreditado nesse cenário.
Num momento particularmente revelador da entrevista, o professor amplia a crítica e afirma que os serviços de inteligência não apenas informam, mas também ajudam a impulsionar guerras. “É isso que os serviços de inteligência fazem”, disse. E completou: “eles podem informar, podem fornecer ótimos dados, inteligência e informação, mas o objetivo deles também é vender guerras”.
Segundo Diesen, ao apresentar um conflito como simples, rápido e de baixo custo, esses organismos ajudam a superar resistências políticas e psicológicas à guerra.
Professor vê tentativa de vender fiasco como vitória
Na parte final da conversa, Napolitano enumera o que, segundo ele, não foi alcançado: mudança de regime no Irã, entrega do urânio enriquecido, neutralização dos mísseis balísticos e controle americano sobre o estreito de Ormuz. Em contrapartida, ressalta os danos às bases dos EUA no Oriente Médio, a perspectiva de retirada de sanções e o fato de o estreito permanecer sob influência iraniana.
Questionado sobre o que Trump ainda poderia apresentar como conquista, Diesen responde: “Trump tem muito do que se arrepender”. Ainda assim, avalia que o presidente tentará transformar a derrota em sucesso político, como fazem governos em geral ao tentar administrar fracassos de guerra.
Ele critica diretamente a comunicação da Casa Branca e de Pete Hegseth, dizendo que houve esforço intenso para apresentar como vitória algo que, em sua avaliação, foi um fiasco. “Eu acho que é uma tentativa de vender um fiasco como algo que parece uma vitória”, afirmou.
Diesen sustenta que Washington enfrenta um problema concreto: não tem como sustentar indefinidamente a guerra, sofre desgaste econômico, lida com limitações militares e não dispõe de uma estratégia viável de ocupação terrestre. Assim, a necessidade seria reduzir o envolvimento americano, recuar taticamente e talvez voltar mais tarde. Mas isso exigiria uma narrativa de sucesso para justificar a saída.
Na visão do professor, essa narrativa é frágil porque esbarra em fatos difíceis de contornar. Se o Irã mantiver o controle sobre o estreito de Ormuz e continuar o enriquecimento de urânio, será muito difícil vender o resultado como vitória americana.
Estreito de Ormuz vira símbolo da derrota estratégica
Para Diesen, o ponto central da crise passou a ser o estreito de Ormuz. Ele destaca a ironia de que esse corredor marítimo estava aberto ao tráfego internacional antes da guerra, sem pedágio e sem disputa aberta sobre sua administração. Agora, segundo a leitura apresentada na entrevista, o conflito teria levado o Irã a impor custos e a transformar o estreito em instrumento de reparação e de pressão geopolítica.
O professor lembra que, antes da guerra, ninguém cobrava taxas de trânsito. Depois da destruição provocada pelos ataques, porém, o Irã passaria a enxergar essa cobrança como forma de reconstruir o que foi devastado por Estados Unidos e Israel.
Mais que isso, Diesen argumenta que o controle iraniano sobre Ormuz pode ter implicações mais profundas. Segundo ele, Teerã poderia pressionar por comércio em moedas diferentes do dólar e estimular um distanciamento gradual entre os países do Golfo e o sistema do petrodólar. Também poderia levar esses países a rever sua dependência de segurança em relação a Washington.
Na formulação do professor, se os Estados Unidos não conseguem proteger seus aliados do Golfo, e se a sobrevivência econômica desses países depende da “boa vontade” iraniana no estreito, então toda a arquitetura regional pode começar a mudar. “O estreito de Ormuz importa enormemente”, afirmou.
Cessar-fogo aparece como frágil e possivelmente inviável
Por fim, Diesen demonstra ceticismo em relação à solidez do cessar-fogo. Ele afirma que o acordo já estaria severamente comprometido pelos acontecimentos no Líbano. Napolitano menciona que aliados de Netanyahu dizem que o Líbano não está incluído na trégua, enquanto os iranianos afirmam o contrário.
O professor acrescenta que até mesmo o primeiro-ministro do Paquistão, que atuaria como mediador entre Estados Unidos e Irã, publicou mensagem afirmando explicitamente que o cessar-fogo incluía o Líbano. Ainda assim, Israel teria seguido bombardeando áreas residenciais, com mortes de homens, mulheres e crianças, segundo a descrição feita por Diesen na entrevista.
Para ele, a reação da Casa Branca era previsível: diante do impasse, Washington não se arriscaria a parecer alinhado ao Irã contra Israel. “Cem de cem vezes eles ficarão do lado israelense”, disse. O resultado disso, em sua leitura, é que o cessar-fogo perde consistência e pode se desfazer rapidamente.
Diesen afirma ainda que, segundo seu entendimento, já haveria mísseis iranianos em direção a Israel em resposta ao que ocorreu no Líbano. Isso poderia transformar o conflito, no curto prazo, de uma guerra entre Estados Unidos e Irã numa guerra entre Irã e Israel, embora ele reconheça que seria muito difícil para Washington ficar realmente fora do confronto, dada a fragilidade israelense.
No encerramento da entrevista, a avaliação do professor é clara: Trump terá enorme dificuldade para convencer a opinião pública de que venceu. E isso ocorre porque, em sua visão, os objetivos centrais da guerra não foram alcançados. Ao contrário, a guerra teria reforçado o papel estratégico do Irã, desgastado os Estados Unidos e aprofundado a crise de legitimidade do Ocidente político.


