Putin sinaliza que está disposto a dar passos para acordo sobre Ucrânia, mas Kremlin destaca impasse territorial
Rússia diz que negociações com EUA e Ucrânia avançam, porém afirma que acordo duradouro depende da definição das fronteiras disputadas
247 - As conversas diplomáticas entre Rússia e Estados Unidos ganharam novo fôlego após uma longa reunião no Kremlin entre o presidente russo, Vladimir Putin, e enviados do governo norte-americano. O encontro, realizado em Moscou e encerrado apenas na madrugada, teve como foco os próximos passos para tentar encerrar a guerra na Ucrânia, que já se aproxima do quarto ano.
A informação foi divulgada pela agência Reuters, que relatou que o diálogo ocorreu pouco antes da meia-noite e se estendeu por cerca de quatro horas. Segundo autoridades russas, apesar do tom considerado construtivo, não haverá paz duradoura sem a resolução das disputas territoriais entre Moscou e Kiev.
De acordo com Yuri Ushakov, assessor de política externa do Kremlin, a Rússia, os Estados Unidos e a Ucrânia participarão de negociações trilaterais sobre segurança em Abu Dhabi nesta sexta-feira (23). Ele classificou a reunião com os enviados norte-americanos como “substancial, construtiva e muito franca”, mas evitou anunciar avanços concretos.
“Mais importante ainda, durante essas conversas entre o nosso presidente e os americanos, foi reiterado que, sem resolver a questão territorial de acordo com a fórmula acordada em Anchorage, não há esperança de se alcançar um acordo de longo prazo”, afirmou Ushakov, em referência à cúpula realizada no ano passado entre Putin e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no Alasca.
Segundo o assessor, Putin ressaltou que Moscou está “sinceramente interessada” em uma solução diplomática para o conflito. Ao mesmo tempo, deixou claro que, enquanto não houver acordo, a Rússia seguirá com seus objetivos militares. “Até que isso seja alcançado, a Rússia continuará a perseguir consistentemente os objetivos da operação militar especial. Isso é especialmente verdadeiro no campo de batalha, onde as forças armadas russas detêm a iniciativa estratégica”, declarou Ushakov.
Nas negociações de Abu Dhabi, a delegação russa será chefiada pelo almirante Igor Kostyukov. Paralelamente, o enviado especial para investimentos, Kirill Dmitriev, terá reuniões separadas com Steve Witkoff, representante do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para tratar de questões econômicas ligadas ao conflito.
Do lado norte-americano, além de Witkoff, participaram das conversas em Moscou Jared Kushner, genro de Trump, e Josh Gruenbaum, recém-nomeado assessor sênior do Conselho de Paz criado pelo presidente dos Estados Unidos para lidar com conflitos internacionais. Kushner já havia se encontrado com Putin no Kremlin no início de dezembro.
As tratativas ocorrem em meio a um agravamento da situação humanitária na Ucrânia. O país enfrenta um dos invernos mais rigorosos desde o início da guerra, enquanto ataques russos com mísseis e drones atingem a infraestrutura energética. Com temperaturas muito abaixo de zero, cidades como Kiev registram longos cortes de energia e falta de aquecimento, afetando centenas de milhares de pessoas. O governo ucraniano aponta esses ataques como prova de que Moscou não tem interesse real na paz, acusação rejeitada pela Rússia.
O principal entrave segue sendo a questão territorial. Moscou exige que a Ucrânia ceda áreas do leste, incluindo regiões da província de Donetsk, além de demandar que o país abandone sua intenção de ingressar na Otan e rejeite qualquer presença de tropas da aliança militar em seu território após um eventual acordo. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskiy, já afirmou que não aceitará abrir mão de terras defendidas “a um custo enorme” ao longo de anos de combates intensos.
Após se reunir com Donald Trump na Suíça, Zelenskiy declarou que as garantias de segurança para a Ucrânia já estariam definidas, mas reconheceu que o tema territorial permanece sem solução. Trump, por sua vez, afirmou nesta semana que Putin e Zelenskiy seriam “estúpidos” se não conseguissem chegar a um acordo.
Apesar das divergências, Ushakov elogiou o papel dos Estados Unidos na organização do encontro de segurança em Abu Dhabi. “Os americanos, é preciso reconhecer, fizeram um grande trabalho de preparação e esperam que essa reunião seja bem-sucedida e abra perspectivas de progresso em toda a gama de questões relacionadas ao fim do conflito e à obtenção de um acordo de paz”, concluiu o assessor do Kremlin.


