Resposta da UE a Trump será "inabalável, unida e proporcional", diz von der Leyen
Presidente da Comissão Europeia promete reação às ameaças e tarifas dos Estados Unidos
247 - A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que a União Europeia não aceitará pressões externas e reagirá de maneira firme às ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, envolvendo tanto a Groenlândia quanto a imposição de novas tarifas comerciais contra países europeus. Em discurso nesta terça-feira (20), ela destacou que o bloco adotará uma postura coordenada para evitar o agravamento de tensões geopolíticas e econômicas.
Segundo Von der Leyen, uma escalada de retaliações comerciais só beneficiaria adversários estratégicos comuns. “Mergulhar-nos em uma espiral descendente só ajudaria os próprios adversários que ambos estamos tão empenhados em manter fora do cenário estratégico. Portanto, nossa resposta será inabalável, unida e proporcional”, declarou durante participação no Fórum Econômico Mundial, em Davos.
No momento, autoridades europeias analisam a reativação de um pacote de tarifas que pode atingir 93 bilhões de euros em importações provenientes dos Estados Unidos. A medida, que havia sido suspensa por seis meses, poderia entrar automaticamente em vigor a partir de 6 de fevereiro. Paralelamente, a União Europeia estuda recorrer ao chamado Instrumento Anti-Coerção (ACI), mecanismo aprovado em 2023, mas nunca utilizado, que permite impor restrições severas a empresas e serviços de países considerados coercitivos.
Entre as possibilidades previstas pelo ACI estão limitações ao acesso de empresas norte-americanas a licitações públicas, investimentos e atividades bancárias no bloco, além de restrições ao comércio de serviços — área em que os Estados Unidos mantêm superávit em relação à UE, incluindo o setor digital. Uma reunião dos países-membros está marcada para quinta-feira (22), em Bruxelas, para definir a estratégia diante das ameaças de Trump.
Do lado norte-americano, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, minimizou a possibilidade de uma reação rápida da Europa. “Imagino que eles formarão primeiro o temido grupo de trabalho europeu, que parece ser sua arma mais contundente”, afirmou, também em Davos. Para ele, não haveria uma resposta imediata e dura por parte do bloco.
Trump, por sua vez, voltou a reafirmar que não pretende recuar de suas intenções em relação à Groenlândia. “A Groenlândia é imperativa para a segurança nacional e mundial. Não há como voltar atrás”, escreveu o presidente dos Estados Unidos na rede Truth Social. Bessent ainda argumentou que um eventual conflito comercial não teria impacto relevante sobre o custo de vida nos EUA. “As tarifas foram o cão que não latiu em termos de aumentos de preços”, disse, ao comentar o comportamento da inflação.
A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, ofereceu-se para atuar como mediadora entre Washington e Bruxelas. Apesar de manter proximidade política e ideológica com Trump, ela criticou publicamente a ameaça de tarifas de 10% sobre importações de países como Dinamarca, Suécia, França e Alemanha. “A perspectiva de tarifas mais altas para aqueles que contribuem para a segurança da Groenlândia é, na minha opinião, um erro e obviamente não compartilho dessa posição”, afirmou. “Conversei com Trump e disse a ele o que penso. Precisamos retomar o diálogo”, acrescentou.
Ministros das Finanças da Alemanha e da França também endureceram o tom. Após reunião bilateral, o alemão Lars Klingbeil foi categórico ao afirmar: “Alemanha e França concordam: não nos permitiremos ser chantageadas”. Segundo ele, o “limite foi atingido”, sinalizando apoio a uma resposta conjunta do bloco europeu.
O pacote de tarifas em análise inclui produtos como aviões da Boeing, automóveis, uísque bourbon, soja, maquinário industrial, dispositivos médicos, produtos químicos, plásticos e equipamentos elétricos. A seleção levou em conta o impacto potencial sobre a economia norte-americana, ao mesmo tempo em que busca reduzir efeitos negativos para os países da UE. Para Ignacio Garcia Bercero, ex-alto funcionário do comércio europeu, “dado que a lista de 93 bilhões de euros é muito abrangente, penso que o critério principal teria sido minimizar os impactos negativos na UE”.
Considerado a ferramenta mais poderosa do arsenal comercial europeu, o Instrumento Anti-Coerção é frequentemente descrito como uma “bazuca comercial”. Apesar disso, há preocupação entre os países-membros sobre possíveis efeitos colaterais para consumidores e empresas do bloco, além da dependência europeia de setores estratégicos dominados por companhias norte-americanas, como tecnologia e computação em nuvem. O processo de ativação do ACI também é complexo e pode levar várias semanas, exigindo investigação formal, tentativas de negociação e aprovação por maioria qualificada dos Estados-membros.


