Rússia descarta transformar o BRICS em bloco militar
Vice-chanceler afirma à TASS que o grupo não é união militar nem tem compromissos de defesa coletiva, e minimiza exercícios navais na África do Sul
247 – O governo da Rússia rejeitou, neste sábado, 14 de fevereiro de 2026, qualquer hipótese de converter o BRICS em um bloco militar ou em uma organização de segurança coletiva. A posição foi apresentada pelo vice-ministro das Relações Exteriores russo, Sergey Ryabkov, ao comentar debates recentes que tentam associar a expansão política e econômica do grupo a uma agenda de defesa.
Em declaração à agência russa TASS, Ryabkov sustentou que a natureza do BRICS permanece voltada à cooperação entre países soberanos, sem obrigações militares conjuntas. Para ele, a insistência em enquadrar o bloco como uma aliança de segurança distorce o propósito original do agrupamento e alimenta leituras geopolíticas interessadas.
BRICS não é aliança militar, diz diplomata
Ryabkov foi direto ao negar qualquer planejamento de transformação institucional do BRICS para fins militares. Segundo ele, o grupo não se organiza como um pacto de defesa, tampouco opera com compromissos de proteção mútua.
"Eu gostaria de lembrar que o BRICS não é uma união militar e não é uma organização de segurança coletiva com compromissos de defesa coletiva. Nunca foi planejado como tal, e não há planos de transformá-lo com esse propósito", afirmou o vice-chanceler.
A declaração ocorre em um contexto de crescente pressão política e midiática em torno do papel do BRICS no reequilíbrio do sistema internacional, sobretudo após a ampliação do grupo e o fortalecimento de suas pautas sobre comércio, moedas e mecanismos financeiros. Em paralelo, cresce a tentativa de interpretar qualquer coordenação entre países do Sul Global como uma ameaça militar, mesmo quando a agenda real é econômica e diplomática.
Exercício naval na África do Sul não foi “evento do BRICS”
Ryabkov também comentou a repercussão de exercícios navais recentes realizados na África do Sul, frequentemente citados em análises como sinal de militarização do agrupamento. O diplomata insistiu que a atividade não foi organizada pelo BRICS enquanto instituição e que a participação dos países deve ser compreendida como decisão soberana de cada Estado.
"No que diz respeito ao recente exercício naval na África do Sul, os membros do BRICS participaram dele como nações soberanas. Não foi um evento do BRICS", disse.
Com isso, a diplomacia russa tenta estabelecer uma separação nítida entre iniciativas bilaterais ou multilaterais específicas — como treinamentos e exercícios militares — e a identidade do BRICS como plataforma política de coordenação econômica e de reformas na governança global. A mensagem é que a existência de cooperação militar pontual entre alguns integrantes não equivale à criação de um “braço armado” do grupo.
Proteção de navios e ataques: sem mecanismos coletivos
Questionado sobre a possibilidade de o BRICS atuar para proteger navios comerciais de seus membros contra ataques, Ryabkov afirmou que o grupo não dispõe de instrumentos coletivos voltados a esse tipo de segurança. A resposta, nesse ponto, buscou afastar a ideia de que o BRICS poderia vir a operar como uma coalizão de escolta marítima ou força de proteção de rotas.
Segundo o vice-ministro, não há “mecanismos coletivos” no BRICS para esse objetivo, com exceção de iniciativas indiretas relacionadas a logística e resistência a medidas coercitivas externas.
"O grupo não tem mecanismos coletivos para isso, além de melhorar a logística e garantir maior proteção contra sanções", afirmou.
Ao enfatizar “sanções” e “logística”, Ryabkov indica que, na visão russa, os riscos enfrentados pelo comércio internacional de países do BRICS estão mais associados a bloqueios financeiros, restrições comerciais e pressões extraterritoriais do que a uma agenda de defesa militar coordenada.
“Não é a tarefa que estabelecemos”, diz Ryabkov
O vice-chanceler também procurou delimitar o que considera ser o campo legítimo de atuação do BRICS. Para ele, a segurança marítima contra ataques deve ser assegurada por outros meios, fora do escopo do bloco, reforçando a tese de que o agrupamento não se pretende um ator militar.
"Essa não é a tarefa que estabelecemos para nós mesmos. Essa segurança precisa ser assegurada por outros meios", disse.
A frase funciona como um recado duplo. De um lado, responde a expectativas — internas e externas — de que a cooperação entre países emergentes possa se traduzir em estruturas de defesa. De outro, reduz a margem para que adversários políticos construam narrativas de “ameaça” a partir de iniciativas que, no entendimento russo, não pertencem ao mandato do BRICS.
O que está em disputa no debate sobre “militarização do BRICS”
As declarações de Ryabkov se inserem em uma disputa maior de enquadramento geopolítico. À medida que o BRICS ganha peso econômico e amplia sua capacidade de coordenação em fóruns internacionais, cresce também a tentativa de associar o grupo a uma lógica de confronto militar, como se o avanço de alternativas ao eixo tradicional do poder global necessariamente implicasse uma escalada de segurança.
Nesse tipo de narrativa, exercícios navais ou cooperação militar entre alguns membros são frequentemente apresentados como evidência de que o BRICS estaria se consolidando como contrapeso militar a alianças existentes. A fala do diplomata russo rejeita essa leitura e insiste que o desenho institucional do grupo não comporta compromissos de defesa coletiva.
Ao mesmo tempo, quando Ryabkov menciona “proteção contra sanções”, ele aponta para um tema central do BRICS: reduzir vulnerabilidades econômicas e financeiras diante de medidas coercitivas. O debate sobre segurança, portanto, aparece mais conectado a instrumentos de resiliência econômica — comércio, logística, sistemas de pagamento e cadeias de suprimento — do que a uma arquitetura militar comum.
Impacto político e sinais para os demais membros
Ao enfatizar que os países atuam como “nações soberanas”, Ryabkov também reforça um princípio caro ao BRICS: a cooperação sem submissão a um centro de comando, com respeito às políticas nacionais e sem imposição de alinhamentos automáticos. Esse elemento diferencia o bloco de alianças militares tradicionais e sustenta o argumento de que o BRICS é, прежде de tudo, uma plataforma de coordenação política e econômica.
A tentativa de transformar o BRICS em “bloco militar”, além de não encontrar respaldo formal nas declarações citadas, esbarraria em realidades políticas distintas entre os integrantes, com prioridades regionais, doutrinas de defesa e alianças diversas. Ao negar planos nesse sentido, Ryabkov oferece uma sinalização de continuidade: o BRICS, na leitura russa apresentada à TASS, seguirá buscando ampliar cooperação e autonomia econômica, sem assumir compromissos coletivos de defesa.
Cooperação econômica e soberania no centro do BRICS
A fala de Sergey Ryabkov sintetiza a posição russa de que o BRICS não deve ser interpretado como uma estrutura militar em formação. Ao afirmar que o grupo “não é uma união militar” e que “não há planos de transformá-lo”, o diplomata tenta conter leituras que associam o avanço do bloco a uma escalada de segurança, ao mesmo tempo em que reafirma a ideia de soberania nacional e cooperação pragmática.
Com isso, a Rússia coloca o foco do BRICS em temas como logística, comércio e proteção contra sanções, afastando a expectativa de que o agrupamento passe a desempenhar funções de defesa coletiva ou de proteção marítima institucionalizada. O recado, ao menos por ora, é de que o BRICS pretende continuar sendo uma articulação política e econômica — e não um pacto militar.


