Saiba quem é Ali Larijani, filósofo do poder que emergiu como figura central do Irã
Perfil do principal nome da segurança iraniana reúne pragmatismo, fundamentalismo religioso, influência familiar e histórico de repressão
247 – Ali Larijani, apontado pelo jornal Haaretz como o homem mais poderoso do Irã no momento, reúne características raras e perturbadoras em um mesmo personagem histórico: é, ao mesmo tempo, um operador implacável do aparato de Estado da República Islâmica e um intelectual com formação sofisticada em filosofia, autor de livros sobre Immanuel Kant e de diversos textos sobre ciência, política, religião e democracia. A reportagem original, publicada pelo veículo israelense, sustenta que Larijani se consolidou como figura central do regime após a morte do aiatolá Ali Khamenei e passou a exercer influência decisiva sobre a segurança nacional e a política externa iraniana.
Segundo o Haaretz, foi Larijani quem comandou com eficiência brutal a repressão aos protestos que abalaram o Irã neste ano, em uma ofensiva que, de acordo com estimativas citadas pelo jornal, deixou entre 7 mil e 36,5 mil civis mortos. O texto afirma que, diante da gravidade da crise, Khamenei contornou a autoridade presidencial e recorreu diretamente a Larijani, então já à frente do Conselho Supremo de Segurança Nacional. Ao justificar a repressão, Larijani responsabilizou os próprios manifestantes, acusando-os de agir como terroristas sob direção de Israel.
A ascensão de Larijani ao centro absoluto do poder não ocorreu por acaso. Aos 67 anos, ele carrega uma trajetória de décadas nos principais núcleos da República Islâmica. Foi oficial da Guarda Revolucionária, ministro da Cultura, chefe do sistema estatal de radiodifusão, presidente do Parlamento, negociador nuclear, conselheiro direto da liderança suprema e, mais recentemente, novamente secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional. Não se tornou sucessor formal do líder supremo porque não é clérigo, condição considerada essencial para o posto. Ainda assim, passou a ser visto como o homem que orienta os rumos do novo comando político-religioso iraniano.
Essa combinação entre centralidade política, dureza repressiva e densidade intelectual ajuda a explicar por que Larijani despertava tanto fascínio quanto temor. O retrato traçado pelo Haaretz mostra um dirigente que escreve sobre liberdade de pensamento, democracia, método científico e pluralidade da verdade, mas que, na prática, defende a tutela ideológica do Estado sobre a sociedade. Em seus textos, aparece como um crítico parcial da rigidez institucional do regime. Em suas ações, surge como um dos mais importantes executores de sua violência.
Uma das famílias mais influentes do Irã
Ali Larijani nasceu em uma família descrita por estudiosos como equivalente iraniana dos Kennedy nos Estados Unidos. Seu pai era um importante clérigo xiita. Seu irmão mais velho, Mohammad Javad Larijani, foi conselheiro próximo de Khamenei para assuntos externos, estudou matemática na Universidade da Califórnia em Berkeley, fundou um centro de física teórica no Irã e foi o primeiro a obter autorização para introduzir a internet no país. Outro irmão, Sadiq Larijani, comandou o Judiciário iraniano por uma década e desde 2018 preside o poderoso Conselho de Discernimento. O irmão mais novo, Bagher Larijani, ocupou funções relevantes na área da saúde e da universidade médica de Teerã.
O próprio Ali Larijani se casou com Farideh, filha de Morteza Motahhari, um dos principais ideólogos da Revolução Islâmica e discípulo próximo do aiatolá Ruhollah Khomeini. Para o professor Mehrzad Boroujerdi, especialista em Irã da Missouri University of Science and Technology, a marca da família atravessa o sistema legal, a política e a ciência do país. O dado é relevante porque desmonta a leitura simplista de que o regime iraniano seria composto apenas por teocratas isolados da reflexão intelectual. No caso dos Larijani, trata-se de uma elite política profundamente vinculada à produção de ideias.
O filósofo que estudou Kant
Ali Larijani formou-se em matemática e ciência da computação na Sharif University of Technology, uma das instituições mais prestigiadas do Irã nessa área. Depois, mudou de rota e ingressou no campo da filosofia, onde concluiu mestrado e doutorado. Sua tese foi dedicada à filosofia da matemática de Immanuel Kant. Mais tarde, publicou três livros sobre o pensador alemão, além de obras sobre filosofia política, governança e diversos artigos acadêmicos em revistas persas.
A escolha de Kant, no entanto, é tudo menos trivial. O filósofo alemão é um dos grandes marcos do Iluminismo e da tradição crítica ocidental, frequentemente associado ao secularismo e à modernidade racional que a Revolução Islâmica de 1979 buscou confrontar. O interesse de Larijani por esse universo revela uma tentativa ambiciosa: apropriar-se de instrumentos da filosofia ocidental para defender premissas centrais de uma visão religiosa fundamentalista.
A professora Ofra Rechter, do Departamento de Filosofia da Universidade de Tel Aviv, afirmou ao Haaretz que Larijani explorou uma conexão pouco discutida entre matemática, moral e teologia em Kant. Em um de seus trabalhos, segundo ela, ele procurou demonstrar que a diferença entre um argumento filosófico e uma prova matemática não está no encadeamento do raciocínio, mas nas premissas iniciais, isto é, nos axiomas que sustentam a demonstração. A partir daí, avançou para um tema decisivo: a relação entre ciência, metafísica e autoridade religiosa.
Ciência, religião e poder
Nos textos e palestras atribuídos a Larijani, há um esforço persistente para sustentar que ciência e metafísica não são domínios excludentes, mas expressões distintas da busca humana pela verdade. Ao discutir Karl Popper e o princípio da falseabilidade, Larijani argumenta que o fato de uma teoria não ser falseável não a torna desprovida de sentido. Em uma de suas falas reproduzidas pelo Haaretz, ele afirma: “A questão de Popper não era ‘Por que há sentido ou importância?’, nem ‘O que é verdadeiro ou aceitável?’, mas sim traçar a linha divisória entre os sistemas teóricos das ciências empíricas e todos os outros sistemas.”
A partir dessa leitura, Larijani tenta construir uma justificativa para a convivência entre instituições religiosas e universidades. Em vez de submeter completamente o conhecimento acadêmico ao poder clerical, propõe uma divisão de esferas. Em outra fala citada pelo jornal, ele sustenta: “Portanto, devemos reconhecer humildemente o trabalho dos outros, entendendo que cada campo revela uma parte da verdade. E, quando investigarmos um domínio da verdade, não devemos aplicar nossas conclusões a outros domínios. Muitas disputas surgem porque conclusões pertencentes a um determinado domínio invadem outros domínios, mas essa invasão não é feita de acordo com a metodologia desses domínios.”
Esse raciocínio pode soar sofisticado e, em certa medida, até moderado. Mas o próprio perfil traçado pelo Haaretz enfatiza que, quando ciência e religião entram em choque concreto, Larijani não hesita em escolher o lado do poder religioso e da preservação do regime.
Da Guarda Revolucionária à máquina de propaganda
A carreira de Larijani no Estado iraniano começou a ganhar densidade nos anos 1980, durante a guerra entre Irã e Iraque, quando serviu na Guarda Revolucionária e alcançou o posto de brigadeiro-general. Também atuou no centro de pesquisa da organização, onde buscou desenvolver bases teóricas para a doutrina do Velayat-e Faqih, a tutela do jurista islâmico que sustenta a estrutura política da República Islâmica.
Em 1992, foi nomeado ministro da Cultura, substituindo o reformista Mohammad Khatami. Durante dois anos, endureceu a censura em todos os setores culturais do país. Segundo o Haaretz, houve tentativas até de alterar ou suprimir trechos da literatura clássica persa sob a alegação de que seriam provocativos ou inadequados.
Seu desempenho no ministério abriu caminho para um salto ainda maior. Em 1994, Larijani assumiu o comando da emissora estatal da República Islâmica, que detém monopólio sobre rádio e televisão no país. Permaneceu 11 anos no cargo, período em que ampliou fortemente a máquina de propaganda oficial, com abertura de seis estações de rádio e cinco canais de TV. Ao mesmo tempo, reduziu a presença de programas estrangeiros e apertou o controle do regime sobre a produção doméstica.
Sua visão sobre mídia e arte aparece com nitidez em declarações reproduzidas pelo Haaretz. Em uma delas, Larijani diz: “Se alguém examinar a perspectiva ocidental a partir do século 19, emerge uma visão totalmente centrada na humanidade. Tudo no mundo deve ser organizado para que os seres humanos vivam felizes, e qualquer limitação imposta aos seres humanos existe apenas para evitar danos. Esse é o tipo de pensamento refletido também na televisão e no cinema.”
Na mesma linha, defendia que a arte deveria servir à busca da verdade segundo os parâmetros ideológicos da República Islâmica. Disse ele: “Os seres humanos existem para descobrir a verdade. A arte usa emoção e sensibilidade, mas não de forma arbitrária. A direção da arte deve ser a transcendência.” Também exaltava a produção iraniana em contraposição à indústria cultural ocidental, com destaque para Hollywood.
O operador da repressão
O texto do Haaretz sustenta que Larijani compreendeu cedo o poder da cultura e da mídia na transformação da consciência pública. Em uma observação citada na reportagem, afirmou: “A transformação cultural tem sua própria metodologia. As crenças devem mudar, e os seres humanos devem mudar seu comportamento – voluntariamente. A mudança cultural não pode ser imposta por meio de pressão social rígida. Rigidez excessiva leva a uma forte reação contrária. Se temos problemas sociais e culturais, sua solução está em meios culturais.”
Na prática, porém, seu comando sobre a radiodifusão estatal serviu para consolidar o avanço dos setores mais extremistas dentro do aparelho de Estado. O Haaretz menciona, com base na revista online Tehran Bureau, o programa televisivo Hoviyat (“Identidade”), criado sob sua gestão, que atacava intelectuais progressistas e críticos da República Islâmica e funcionava, em muitos casos, como plataforma para perseguições e prisões. O jornal também recorda que, em 1997, Larijani aprovou a produção de um filme falso que mostraria apoiadores de Khatami dançando e cantando no dia do assassinato do imã Hussein, numa operação de manipulação política muito anterior à era da inteligência artificial.
Esse histórico ajuda a entender a avaliação severa feita por especialistas ouvidos pela reportagem. Para o professor Lior Sternfeld, da Penn State University, Larijani é um ideólogo profundo que se tornou um opressor brutal. Em sua síntese mais dura, Sternfeld afirma: “Larijani não é o primeiro na história que foi um homem de letras e se tornou um opressor brutal. Ele é um ideólogo profundo, e fez algo assassino em nome da ideologia.”
Pragmatismo econômico e fundamentalismo político
Ao longo de sua trajetória, Larijani também cultivou a imagem de pragmático. Em 2005, lançou-se candidato à Presidência, mas foi derrotado por Mahmoud Ahmadinejad. Durante a campanha, criticou a gestão reformista de Khatami por ter negligenciado a economia. Sua avaliação, citada pelo Haaretz, era direta: “Setenta e cinco por cento das demandas do povo iraniano são econômicas. Apenas 5 por cento são culturais ou políticas.”
No mesmo ano, publicou o livro Pacto com o povo, em que defendia “um novo Irã”, voltado para a superação do atraso, para o renascimento científico e tecnológico e para o aumento da riqueza nacional. Ali, enfatizava questões como desenvolvimento científico, reforma religiosa, combate à corrupção econômica dentro do Estado, contenção da fuga de cérebros e preservação da identidade nacional iraniana diante da globalização.
Essa dualidade percorre toda sua vida. De um lado, aparece o dirigente que reconhece a centralidade da ciência, da tecnologia, da economia e da administração eficiente. De outro, está o fundamentalista que submete democracia, liberdade e instituições à finalidade superior definida pelo islamismo político do regime.
Liberdade, democracia e controle ideológico
As formulações de Larijani sobre liberdade e democracia revelam esse mecanismo com clareza. Em seus escritos, ele afirma que todos os seres humanos, por serem humanos, têm direito à liberdade. O Haaretz reproduz sua formulação: “A natureza humana é tal que se deve ser livre para pensar. Portanto, a liberdade de pensamento é um direito.”
Mas a afirmação vem imediatamente acompanhada de uma restrição decisiva. Para Larijani, pensamentos sem coerência lógica não devem ser aceitos nem disseminados socialmente. Em outra fala citada, ele argumenta: “Tudo o que puder elevar espiritualmente a sociedade deve desfrutar de liberdade em seu domínio e abranger uma variedade de gostos e inclinações, ao passo que qualquer coisa que leve à degradação social deve ser considerada como excedendo os limites da liberdade espiritual.”
O problema é evidente: quem decide o que eleva e o que degrada? No universo político de Larijani, essa definição cabe ao próprio poder ideológico.
O mesmo ocorre com sua visão sobre democracia. Segundo ele, “A democracia pode não ser sempre o método ideal, mas é o mais aceito. É um caminho metodológico – uma abordagem prática para conduzir a sociedade ao sucesso. Uma sociedade é mais bem-sucedida quando seu governo desfruta de ampla aceitação por seus cidadãos. Mas, assim como a liberdade espiritual de pensamento precisa de uma estrutura, a democracia também precisa. O que significa essa estrutura? É uma estrutura que conduz a um objetivo, e o objetivo é o bem-estar da nação.”
Nessa formulação, a democracia não é um valor em si, mas um instrumento subordinado a finalidades previamente definidas por uma concepção metafísica e religiosa da coletividade. O indivíduo deixa de ser o centro dos direitos. A sociedade passa a ser tratada como uma espécie de alma coletiva com direção própria, e essa direção deve ser organizada segundo os princípios do islamismo estatal.
O articulador da política externa e da guerra
Larijani ocupou a presidência do Parlamento iraniano entre 2008 e 2020, por três mandatos consecutivos. Nesse período, consolidou sua imagem de conservador pragmático. Foi peça importante na aprovação parlamentar do acordo nuclear de 2015, ao mesmo tempo em que endurecia a repressão contra figuras que pudessem desafiar o regime.
Mesmo após ver suas candidaturas presidenciais barradas em 2021 e 2024, sob o argumento de estilo de vida insuficientemente devoto, seu peso político continuou crescendo. Em 2021, foi encarregado de supervisionar as negociações com a China para um acordo estratégico de cooperação de 25 anos, avaliado em bilhões de dólares. Também atuou reiteradamente como enviado de Khamenei a Moscou, Damasco e Beirute, ajudando a preservar a estreita relação do Irã com Rússia, Síria e Hezbollah.
No ano passado, em meio à nova escalada de tensões envolvendo o programa nuclear iraniano, os Estados Unidos e Israel, Larijani foi reconduzido ao posto de secretário-geral do Conselho Supremo de Segurança Nacional. O Haaretz, citando o The Wall Street Journal, afirma que ele esteve à frente da resposta iraniana aos ataques israelenses e americanos em junho, incluindo o lançamento de centenas de mísseis balísticos contra Israel.
Após a morte de Khamenei no início da guerra atual, Larijani passou a coordenar as respostas militares e políticas mais complexas do regime, inclusive em relação às ameaças dirigidas a órgãos de governo e a países árabes vizinhos. É nesse contexto que sua retórica pública se tornou ainda mais agressiva.
Ataques verbais a Donald Trump e ao eixo Estados Unidos-Israel
Nas redes sociais, Larijani tem procurado intervir diretamente no debate público dos Estados Unidos. Segundo o Haaretz, ele escreveu: “Trump cedeu às palhaçadas de Netanyahu e arrastou o público americano para uma guerra injusta com o Irã.” Em outra publicação, afirmou: “Trump traiu ‘America First’ para adotar ‘Israel First’.”
Em manifestações públicas, prometeu que os Estados Unidos e Israel pagarão um preço alto e “se arrependerão de suas ações”. Nesta semana, de acordo com a reportagem, chegou a ameaçar explicitamente Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos. A frase atribuída a Larijani é a seguinte: “O povo iraniano não tem medo de suas ameaças. Cuidado ou será você o eliminado.”
O filósofo-rei ou o príncipe de Maquiavel
A parte final da reportagem do Haaretz propõe uma reflexão política de grande alcance. O texto sugere que Larijani, por sua rara combinação de poder e elaboração teórica, poderia ser visto como uma espécie de “filósofo-rei”, à maneira imaginada por Platão em A República. Mas a comparação logo é tensionada. Em vez do governante sábio voltado ao bem comum e ao fim das desordens da pólis, Larijani aparece mais próximo do “príncipe” maquiaveliano, para quem o valor supremo é a preservação do poder, custe o que custar.
Essa leitura ganha força porque, apesar de toda sua sofisticação intelectual, sua prática política está marcada pela defesa sistemática de uma ordem repressiva. Ele pode escrever sobre humildade entre campos do saber, debater Kant, criticar falhas estruturais do Estado e defender soluções administrativas racionais. Mas, segundo o retrato traçado pelo jornal, quando confrontado com a escolha entre abertura política e preservação do regime, fica sempre com a segunda opção.
Por isso, a figura de Larijani desafia interpretações simplistas. Ele não é apenas um burocrata da violência, nem apenas um pensador refinado aprisionado por circunstâncias históricas. É as duas coisas ao mesmo tempo. E é precisamente essa fusão entre inteligência estratégica, convicção ideológica e disposição repressiva que faz dele um dos personagens mais inquietantes do Oriente Médio contemporâneo.
Ao final, a reportagem rejeita qualquer tentativa de romantizar sua trajetória como a de um herói trágico forçado pelas circunstâncias a comandar massacres. A própria cosmovisão de Larijani, profundamente ancorada na fé e na primazia da ordem ideológica, parece afastar essa hipótese sentimental. Seu percurso, tal como reconstruído pelo Haaretz, aponta antes para o drama de um intelectual que escolheu colocar sua erudição a serviço de um projeto de poder absoluto.

