Trump afirma que negociações com o Irã continuam após abate de drone no Mar Arábico
Presidente dos Estados Unidos diz que diálogo segue em andamento mesmo com aumento da tensão militar e expectativa de novas rodadas diplomáticas
247 - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou que Washington mantém negociações em curso com o Irã para tentar reduzir as tensões no Golfo, mesmo após o anúncio das Forças Armadas americanas de que um drone iraniano foi abatido nas proximidades de um porta-aviões dos EUA no Mar Arábico. A afirmação foi feita na terça-feira (3), durante conversa com jornalistas na Casa Branca, em meio a um cenário de reforço militar na região.
Segundo Trump, o diálogo segue ativo, embora ele tenha evitado revelar detalhes sobre o local das conversas. A informação foi divulgada originalmente pela rede Al Jazeera, que acompanha os desdobramentos diplomáticos e militares envolvendo Washington e Teerã. “Eles estão negociando. Eles gostariam de chegar a um acordo, e veremos se algo será feito”, afirmou o presidente dos Estados Unidos.
Trump também mencionou episódios anteriores de confronto ao comentar a pressão exercida sobre o governo iraniano. “Eles tiveram a oportunidade de fazer algo há algum tempo, e não deu certo. E nós fizemos a Operação ‘Martelo da Meia-Noite’, não acho que eles queiram que isso aconteça novamente”, disse, em referência à ofensiva realizada em junho do ano passado, quando forças aéreas e navais dos EUA atacaram três instalações nucleares do Irã.
O presidente norte-americano tem insistido para que Teerã aceite negociar seu programa nuclear e, nos últimos meses, voltou a ameaçar novas ações militares, citando a repressão a protestos internos no país. Na semana passada, os Estados Unidos enviaram o porta-aviões USS Abraham Lincoln ao Golfo Pérsico, movimento que ampliou os temores de um confronto direto. O grupo de ataque levou cerca de 5.700 militares adicionais e se somou a destróieres e navios de combate já posicionados na região.
Apesar da escalada militar, autoridades regionais têm atuado para conter o agravamento da crise, o que contribuiu para uma redução das tensões nos últimos dias. Em Teerã, o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, afirmou que orientou o ministro das Relações Exteriores a “buscar negociações justas e equitativas, guiadas pelos princípios da dignidade, prudência e conveniência”, desde que haja “um ambiente adequado”. Ele acrescentou: “Estas negociações serão conduzidas no âmbito dos nossos interesses nacionais”.
Não houve comentário imediato das autoridades iranianas sobre o incidente com o drone. A agência Tasnim, citando uma fonte não identificada, informou que foi perdida a comunicação com um drone que havia “enviado dados com sucesso” ao Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e que uma investigação estava em andamento para apurar as causas da desconexão.
Após o episódio, o CENTCOM relatou ainda que forças do IRGC teriam assediado um navio mercante com bandeira e tripulação dos Estados Unidos no Estreito de Ormuz. “Dois barcos do IRGC e um drone iraniano Mohajer se aproximaram do M/V Stena Imperative em alta velocidade e ameaçaram embarcar e apreender o petroleiro”, informou o comando. Em resposta, a agência iraniana Fars citou autoridades que disseram que a embarcação havia entrado em águas territoriais iranianas sem as permissões legais necessárias e que deixou a área após advertências, “sem que nenhum evento especial de segurança tivesse ocorrido”.
Mesmo diante dos incidentes, os planos para novas conversas diplomáticas foram mantidos. As negociações são esperadas para sexta-feira (6). Em entrevista à Fox News, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que o enviado especial de Trump, Steve Witkoff, “deve ter conversas com os iranianos ainda nesta semana”. “Essas conversas continuam agendadas neste momento”, disse.
De acordo com a Tasnim, consultas seguem em curso para a escolha do local das reuniões, com Turquia, Omã e outros países da região oferecendo-se para sediar os encontros. A Associated Press noticiou que ministros das Relações Exteriores de Omã, Paquistão, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos também foram convidados a participar, caso as negociações avancem. O Ministério das Relações Exteriores do Catar declarou estar atuando junto a contatos iranianos de alto nível para reduzir a escalada. “Todos nós, na região, coletivamente… estamos fazendo as conexões e contatos certos para garantir que desempenhemos um papel positivo”, disse o porta-voz Majed Al Ansari.
A agência Reuters, por sua vez, informou que o Irã defende que as conversas ocorram em Omã, e não na Turquia, e que o escopo seja limitado a negociações bilaterais sobre questões nucleares. No ano passado, autoridades dos dois países realizaram cinco rodadas de diálogo em Omã, interrompidas após a guerra de 12 dias de Israel contra o Irã, da qual Washington participou posteriormente.
Reportando de Teerã, Tohid Asadi, da Al Jazeera, afirmou que autoridades iranianas buscam “uma abordagem pragmática para essas negociações”, embora os temas específicos ainda não estejam definidos. Segundo ele, há divergências sobre a pauta, já que Teerã quer concentrar as discussões no programa nuclear, enquanto Washington pretende incluir outros assuntos, como mísseis balísticos e vínculos regionais.
Analistas ouvidos pela imprensa internacional demonstram ceticismo quanto aos resultados. “A questão é: isso levará a alguma coisa? Não vi nenhum sinal de Washington ou Teerã que sugira que qualquer um dos lados esteja disposto a, por assim dizer, suavizar suas linhas vermelhas”, disse Alex Vatanka, pesquisador sênior do Middle East Institute. Para ele, os Estados Unidos estão “mostrando força” de maneira mais intensa e resta saber se a mobilização militar visa acelerar um acordo ou preparar um cenário prolongado de pressão política sobre a República Islâmica.


