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Trump ameaça impor tarifa de 100% ao Canadá se país levar adiante acordo comercial com a China

Em postagens na rede Truth Social, Trump adotou um tom agressivo e afirmou: “A China vai comer o Canadá vivo"

Mark Carney e Xi Jinping (Foto: Ministério das Relações Exteriores da China)

247 – O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou neste sábado impor uma tarifa de 100% sobre todos os produtos canadenses que entrarem no mercado americano caso o Canadá leve adiante um acordo comercial com a China. Trump também advertiu o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, de que um entendimento com Pequim colocaria o país em risco.

As declarações foram publicadas pela agência Reuters, que relatou a escalada de tensões entre Washington e Ottawa após a viagem de Carney à China e, mais recentemente, após críticas do premiê à postura de Trump em temas como Groenlândia e a ordem global.

Em postagens na rede Truth Social, Trump adotou um tom agressivo e afirmou: “A China vai comer o Canadá vivo, devorá-lo completamente, incluindo a destruição de seus negócios, do tecido social e do modo de vida em geral.” Em seguida, cravou a ameaça tarifária: “Se o Canadá fizer um acordo com a China, será imediatamente atingido com uma Tarifa de 100% contra todos os bens e produtos canadenses que entrarem nos EUA.”

Segundo a Reuters, o gabinete de Carney não respondeu imediatamente a pedidos de comentário sobre o ultimato. Ainda assim, integrantes do governo canadense buscaram enquadrar o resultado da viagem à China de forma mais limitada do que a narrativa sugerida por Trump.

O que o Canadá diz ter negociado com a China

Carney viajou neste mês à China com o objetivo declarado de “redefinir” uma relação que vinha se deteriorando. A agência relata que, após a visita, o Canadá alcançou um acordo com seu segundo maior parceiro comercial — atrás apenas dos Estados Unidos.

Mas o ministro responsável pelo comércio Canadá–EUA, Dominic LeBlanc, contestou a ideia de que se trate de um grande acordo de livre comércio. Em publicação no X, ele afirmou: “Não há busca por um acordo de livre comércio com a China. O que foi alcançado foi a resolução de várias questões tarifárias importantes.”

A divergência de versões é central para o episódio. Ao sugerir que Ottawa estaria prestes a selar um acordo amplo com Pequim, Trump eleva a temperatura política e cria um instrumento de pressão direta sobre a economia canadense, tradicionalmente integrada às cadeias produtivas norte-americanas.

“Porto de desembarque” e o fantasma de driblar tarifas

Trump argumentou que a China tentaria usar o Canadá como rota indireta para contornar barreiras americanas. Na mesma sequência de postagens, ele escreveu: “Se o governador Carney acha que vai fazer do Canadá um ‘Porto de Desembarque’ para a China enviar bens e produtos aos Estados Unidos, ele está muito enganado.”

O presidente dos EUA voltou a chamar Carney de “governador” — um título que remete às antigas provocações de Trump sobre a hipótese de o Canadá se tornar o “51º estado” americano. Em outra postagem, reforçou a retórica alarmista: “A última coisa de que o mundo precisa é que a China assuma o controle do Canadá. Isso NÃO vai acontecer, nem vai chegar perto de acontecer!”

Na prática, caso a ameaça se concretize, a tarifa de 100% representaria um choque comercial de grandes proporções. A Reuters observa que isso elevaria de forma drástica os custos para exportadores canadenses e pressionaria setores industriais como metalurgia, automóveis e máquinas — áreas em que o Canadá depende fortemente do acesso ao mercado dos EUA.

Da cordialidade ao confronto em poucos dias

A reportagem descreve que a relação entre Trump e Carney parecia relativamente tranquila até recentemente. Logo após a viagem do premiê à China, Trump chegou a se mostrar favorável ao movimento. Em 16 de janeiro, na Casa Branca, ele afirmou: “É uma coisa boa para ele assinar um acordo comercial. Se você conseguir um acordo com a China, deveria fazer isso.”

A mudança de tom, porém, veio após Carney endurecer publicamente críticas à postura de Trump em temas geopolíticos. A Reuters destaca que as tensões cresceram depois de Carney criticar a “busca” de Trump pela Groenlândia e, em seguida, discursar no Fórum Econômico Mundial, em Davos, em termos que foram lidos como um recado indireto à Casa Branca.

Em Davos, Carney defendeu que o sistema internacional baseado em regras teria se esgotado e apontou o Canadá como exemplo de como “potências médias” poderiam agir em conjunto para não serem “vitimizadas” pela hegemonia americana. Embora sem citar diretamente Trump ou os EUA, Carney afirmou: “Potências médias devem agir juntas porque, se você não está à mesa, você está no cardápio.” Segundo a Reuters, o trecho provocou aplausos de pé de líderes e executivos presentes no encontro.

“O Canadá vive por causa dos Estados Unidos”, diz Trump; Carney reage

Trump respondeu em seu próprio discurso em Davos e declarou que o Canadá “vive por causa dos Estados Unidos”. Carney rejeitou a frase em pronunciamento na província de Quebec: “Canadá e Estados Unidos construíram uma parceria notável na economia, na segurança e em uma rica troca cultural.” E rebateu diretamente: “O Canadá não vive por causa dos Estados Unidos. O Canadá prospera porque somos canadenses.”

A troca de declarações consolidou um novo patamar de atrito, que agora se traduz em ameaça tarifária com potencial de atingir o coração da economia canadense.

A pressão sobre o acordo EUA–Canadá–México e a “diplomacia das tarifas”

O contexto de fundo inclui a renegociação do mega acordo comercial entre Estados Unidos, Canadá e México, prevista para julho. De acordo com a Reuters, Trump classificou o pacto como “irrelevante”, ampliando a incerteza sobre as regras que organizam o comércio na América do Norte.

A agência também lembra que Trump emitiu muitas ameaças tarifárias desde seu retorno à presidência, mas em alguns casos recuou, suspendeu medidas ou flexibilizou posições durante negociações. Nesta semana, ainda segundo a Reuters, ele teria recuado de uma ameaça recente de tarifas duras contra aliados europeus depois que o chefe da OTAN e outros líderes se comprometeram a ampliar a segurança no Ártico.

Esse padrão — anunciar medidas máximas, tensionar parceiros e, em alguns casos, usar o anúncio como alavanca de negociação — aparece novamente no caso canadense. O efeito imediato é aumentar o custo político de qualquer aproximação de Ottawa com Pequim, mesmo quando o próprio governo canadense descreve o resultado como “resolução” de disputas tarifárias específicas, e não como um pacto amplo.

O que está em jogo para o Canadá

Se a tarifa de 100% avançar, o Canadá enfrenta um duplo desafio. De um lado, proteger seu acesso ao maior mercado do mundo, essencial para empregos e investimentos em setores industriais estratégicos. De outro, administrar sua relação com a China — importante destino de exportações e fonte de demanda — sem acionar retaliações ou alimentar ainda mais a narrativa de Washington de que Pequim estaria “usando” países terceiros para driblar tarifas.

A crise também tem dimensão política: Trump recorre a uma linguagem de confronto e soberania, enquanto Carney tenta se afirmar como liderança de uma “potência média” capaz de articular respostas coletivas em um cenário de rivalidades crescentes.

Por ora, o elemento mais concreto é o aviso de Trump, feito em termos diretos e com ameaça explícita de punição comercial. A reação canadense, por sua vez, busca reduzir o escopo do que foi negociado com a China e reafirmar autonomia diante de Washington, sem fechar as portas para a relação econômica bilateral.

Com a renegociação do acordo comercial norte-americano se aproximando e com a política tarifária voltando ao centro da agenda de Trump, a relação entre EUA e Canadá entra em uma fase de volatilidade — e o anúncio de uma tarifa de 100% coloca as cadeias produtivas e a estabilidade do comércio regional sob risco imediato.

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