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Trump condena, mas se recusa a pedir desculpas por vídeo que retrata Obama e Michelle como macacos

Postagem em rede social do presidente dos EUA foi removida após críticas bipartidárias

Donald Trump (Foto: Reuters)

247 – O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, condenou, mas não pediu desculpas, por um vídeo publicado em sua conta nas redes sociais que retratava o ex-presidente Barack Obama e a ex-primeira-dama Michelle Obama como macacos, desencadeando críticas imediatas — inclusive dentro do próprio Partido Republicano — por desumanizar pessoas de ascendência africana. A informação foi divulgada pela agência Reuters.

A Casa Branca chegou a defender a postagem na sexta-feira, mas apagou o conteúdo cerca de 12 horas após sua publicação. O episódio ampliou a pressão sobre a equipe presidencial e levantou questionamentos sobre o uso institucional das redes sociais e sobre os controles internos em torno de publicações que podem gerar crises políticas e diplomáticas.

O que dizia o vídeo e por que gerou reação imediata

O vídeo, com cerca de um minuto, foi compartilhado na rede Truth Social na noite de quinta-feira. O conteúdo amplificava alegações falsas de que a derrota de Trump em 2020 teria sido fruto de fraude eleitoral. Perto do fim, aparecia um trecho breve — descrito como aparentemente gerado por inteligência artificial — com primatas dançando, enquanto as cabeças de Barack e Michelle Obama eram sobrepostas às imagens.

A comparação de pessoas negras com macacos é uma forma histórica de racismo, usada durante séculos como instrumento de desumanização e dominação. Por isso, a postagem foi interpretada como um ataque abertamente racista e gerou repúdio de democratas e de republicanos, que exigiram remoção e retratação.

Trump diz que não viu “a coisa toda” e evita pedido de desculpas

Na noite de sexta-feira, ao falar com repórteres, Trump afirmou que não assistiu ao vídeo completo antes de um assessor publicá-lo em sua conta. Em declaração que expõe a rotina de circulação de conteúdo dentro do entorno presidencial, ele afirmou: "Eu não vi a coisa toda." Em seguida, explicou o que teria visto: "Eu olhei a primeira parte, e era realmente sobre fraude eleitoral nas máquinas, como é corrupto, como é nojento. Aí eu dei para as pessoas. Em geral, elas olham tudo. Mas acho que alguém não olhou."

Questionado se condenava o trecho com os Obamas, Trump respondeu: "Claro que condeno." Ainda assim, recusou-se a pedir desculpas. "Eu não cometi um erro. Quero dizer, eu dou — eu olho um monte — milhares de coisas", disse, ao rejeitar qualquer responsabilidade direta sobre a publicação.

Mais tarde, ainda segundo seu relato, ele reconheceu que havia imagens no fim que "as pessoas não gostam" e acrescentou: "Eu também não gostaria." As frases, porém, não vieram acompanhadas de pedido de desculpas aos Obamas nem de uma admissão clara de gravidade.

Casa Branca oscila entre defesa e recuo raro

O episódio foi marcado por narrativas concorrentes dentro da própria Casa Branca. Em um primeiro momento, uma porta-voz do governo descreveu o vídeo como um “meme de internet” inofensivo e enquadrou as críticas como “indignação falsa”. A secretária de imprensa Karoline Leavitt afirmou que se tratava de um conteúdo que mostraria Trump como “o rei da selva” e os democratas como personagens de “O Rei Leão”, com música associada ao musical da Disney.

À medida que a pressão aumentou, no entanto, um outro integrante do governo adotou uma linha oposta e classificou a postagem como um erro. "Um funcionário da Casa Branca postou erroneamente", disse o oficial, ao justificar a remoção do conteúdo.

Um assessor de Trump também afirmou que o presidente não havia visto o vídeo antes da postagem e que ordenou a retirada assim que tomou conhecimento do trecho final. Tanto o assessor quanto o oficial evitaram ser identificados, segundo o relato.

Reação republicana expõe desgaste e incômodo interno

A publicação provocou críticas de democratas e também de republicanos — inclusive aliados próximos de Trump. O senador Tim Scott, da Carolina do Sul, um dos principais nomes negros do Partido Republicano, reagiu publicamente e sugeriu que o conteúdo deveria ser removido. "Rezo para que seja falso porque é a coisa mais racista que eu já vi sair desta Casa Branca", escreveu ele em uma rede social. "O presidente deveria remover."

Outros parlamentares republicanos também pediram que Trump se desculpasse e apagasse a postagem. Segundo uma fonte citada no relato, alguns chegaram a procurar a Casa Branca de forma privada para questionar o episódio.

Mark Burns, pastor negro e aliado de Trump, afirmou ter falado com o presidente sobre o vídeo e defendeu que o funcionário responsável fosse demitido. A Casa Branca e Trump, por sua vez, não identificaram quem publicou o conteúdo — e o entorno presidencial afirmou que apenas alguns assessores seniores têm acesso direto à conta.

Um histórico de retórica racista e teorias conspiratórias

O episódio reforça um histórico de promoção de retórica racista por Trump e de uso de teorias conspiratórias como instrumento político. O presidente, que está em seu segundo mandato, foi um dos principais divulgadores da tese falsa de que Barack Obama não teria nascido nos Estados Unidos — narrativa conspiratória que alimentou campanhas de deslegitimação racial e política.

O texto também menciona outros episódios recentes citados por críticos e entidades civis, incluindo declarações ofensivas a imigrantes e a países em desenvolvimento. Na avaliação de organizações de direitos civis, esse tipo de retórica vem se tornando mais “ousada”, normalizada e politicamente permissível.

NAACP chama vídeo de “desprezível” e cobra responsabilização

A repercussão alcançou organizações tradicionais do movimento de direitos civis. O presidente nacional da NAACP, Derrick Johnson, classificou a postagem como racista e repulsiva. "O vídeo de Donald Trump é flagrantemente racista, nojento e absolutamente desprezível", declarou, em mensagem por e-mail citada no relato. "Os eleitores estão assistindo e vão se lembrar disso nas urnas."

Enquanto isso, um porta-voz dos Obamas recusou-se a comentar.

Redes sociais, Estado e risco institucional

Além do conteúdo em si, a crise reacendeu o debate sobre protocolos e governança digital na Presidência dos EUA. Trump utiliza as redes sociais para anunciar medidas, interferir no debate público e amplificar conteúdos produzidos por apoiadores para uma audiência de milhões. O relato aponta que esse estilo de comunicação, somado ao alcance e ao potencial de “mover mercados” e “provocar adversários”, eleva o risco institucional quando publicações são feitas sem checagem adequada.

O caso também expõe uma contradição: Trump costuma acusar adversários de falta de controle sobre documentos oficiais assinados em seu nome, mas o episódio sugere que, dentro de sua própria estrutura, conteúdos potencialmente explosivos podem chegar ao público sem validação completa — e sem responsabilização transparente quando a crise explode.

Um desgaste que vai além da postagem

A publicação e a remoção do vídeo não encerraram o dano político. Ao evitar pedido de desculpas e ao relativizar a responsabilidade, Trump consolidou a percepção de que sua condenação foi reativa, insuficiente e voltada mais a administrar a crise do que a reconhecer a violência simbólica do conteúdo.

A resposta vacilante da Casa Branca — da defesa como “meme” ao reconhecimento de erro — também indica tensão interna entre a estratégia de enfrentamento permanente às críticas e a necessidade de recuar quando a pressão se torna ampla e incontrolável. Em um cenário de polarização extrema, a postagem com os Obamas como macacos se transformou, em poucas horas, em mais um marco do embate racial e político que atravessa o coração do poder em Washington.

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