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Trump declara vitória após perder a guerra contra o Irã

Presidente dos EUA comemorou o supostos fim da guerra, mas analistas e agências de inteligência questionam a eficácia dos ataques ao país asiático

Donald Trump (Foto: Daniel Torok/Casa Branca)

247 - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que os Estados Unidos teriam vencido a guerra contra o Irã, em declaração divulgada nas redes sociais e repercutida por perfis noticiosos. A manifestação foi publicada em meio à escalada de tensões no Oriente Médio e rapidamente ganhou grande repercussão nas plataformas digitais.

O conteúdo foi divulgado inicialmente pelo perfil Globe Eye News na rede X (antigo Twitter), que compartilhou o anúncio com a mensagem indicando que Trump teria declarado que os Estados Unidos saíram vitoriosos no conflito envolvendo o Irã. A publicação foi acompanhada por um vídeo e circulou amplamente entre usuários da plataforma.

A declaração do presidente dos Estados Unidos ocorre após um período de confrontos diretos e indiretos envolvendo forças americanas, Israel e o Irã, que elevaram o risco de uma guerra regional mais ampla. Em 2025, ataques coordenados atingiram instalações nucleares iranianas em Fordow, Natanz e Isfahan, operação que Washington classificou como uma ação para impedir o avanço do programa nuclear do país persa.

Na ocasião, Trump afirmou que as estruturas nucleares do Irã haviam sido destruídas e classificou a ofensiva militar como um sucesso estratégico. Em pronunciamentos posteriores, o presidente norte-americano declarou que a ofensiva representava uma vitória e afirmou que os ataques foram decisivos para encerrar a escalada militar na região.

Os confrontos se intensificaram após uma série de ataques israelenses contra alvos iranianos e respostas com mísseis por parte de Teerã, culminando em um conflito que ficou conhecido como “Guerra de 12 dias”. O cessar-fogo foi anunciado em junho de 2025 e mediado por Estados Unidos e Qatar, encerrando temporariamente as hostilidades diretas entre Israel e Irã.

Mesmo com o anúncio de cessar-fogo e declarações de vitória por diferentes lados do conflito, analistas e autoridades internacionais mantiveram dúvidas sobre o impacto real dos ataques e sobre a estabilidade do acordo. Avaliações iniciais de inteligência chegaram a indicar que o programa nuclear iraniano poderia ter sido apenas parcialmente afetado pelas operações militares.

Entenda

O conflito que colocou os Estados Unidos e Israel contra o Irã completou 12 dias nesta quarta-feira (11), com o balanço de mortes já ultrapassando 2.000 pessoas — majoritariamente iranianas e libanesas — após os bombardeios se espalharem para o Líbano e provocarem instabilidade aguda nos mercados globais de energia e transporte. Tudo começou no dia 28 de fevereiro, quando Washington e Tel Aviv desencadearam uma ofensiva aérea conjunta batizada de Operação Fúria Épica pelo Pentágono.

Apesar da intensidade crescente dos ataques — descrita pelo próprio Pentágono como a mais elevada desde o início das operações — o Irã anunciou novas ondas de mísseis contra Israel e bases dos EUA no Iraque, demonstrando ainda capacidade de resposta diante da coalizão adversária.

Nesta quarta-feira, a Guarda Revolucionária iraniana afirmou que mísseis atingiram "o coração de Tel Aviv", principal polo econômico israelense. Além disso, três embarcações teriam sido atingidas nas águas do Golfo Pérsico, após navios mercantes ignorarem ordens do regime iraniano.

O Estreito de Ormuz e o choque no petróleo

A resposta iraniana mais impactante para a economia mundial foi o fechamento do Estreito de Ormuz, a artéria marítima mais estratégica para o escoamento do petróleo produzido no Oriente Médio. Teerã avisou que o mundo deveria se preparar para o barril a US$ 200, enquanto a Agência Internacional de Energia recomendava uma liberação massiva de reservas estratégicas para amenizar um dos piores choques energéticos desde os anos 1970. 

Os preços globais do petróleo já ultrapassaram os US$ 100 por barril, a primeira vez que essa marca foi rompida desde a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. No fim de semana anterior, o barril chegou a superar os US$ 120 — movimento parcialmente revertido depois que Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, sinalizou otimismo sobre uma aproximação do fim do conflito, derrubando as cotações para a faixa dos US$ 90. 

Os preços do petróleo subiram quase 5% nesta quarta. Segundo a Reuters, os contratos futuros do Brent subiram US$ 4,18, ou 4,8%, cravando US$ 91,98 por barril. O petróleo nos Estados Unidos West Texas Intermediate terminou a sessão com aumento de US$ 3,80, ou 4,6%, a US$ 87,25 por barril.

Três novas embarcações foram alvejadas por projéteis no Estreito de Ormuz nesta quarta-feira, segundo empresas especializadas em segurança marítima e avaliação de riscos. Com os novos incidentes, o total de navios atingidos na região desde o início do conflito com o Irã chegou a pelo menos 14.

A importância estratégica do estreito para a economia global dificilmente pode ser exagerada. O corredor, situado entre o território iraniano e Omã, conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Mar Arábico, respondendo pelo transporte de cerca de 20% de todo o petróleo negociado no planeta. Grandes produtores da Opep — entre eles Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Iraque e Kuwait — dependem dessa passagem para exportar sua produção, com destaque para o abastecimento dos mercados asiáticos, europeus e americanos.

O Quartel-General central do exército iraniano declarou que não permitirá "que nem um único litro de petróleo passe pelo Estreito de Ormuz em benefício da América e de seus aliados". Segundo o general português Agostinho Costa, especialista em defesa, mesmo com a destruição das embarcações maiores da Marinha iraniana, o Irã manteve lanchas rápidas equipadas com lança-mísseis, difíceis de eliminar, e é exatamente com elas que Teerã continua controlando o Golfo Pérsico e o Estreito de Ormuz. 

Enquanto o conflito avança sem perspectiva imediata de encerramento, um alto funcionário iraniano disse à CNN que não há sinal de fim próximo para as hostilidades, e o mundo observa com crescente apreensão o que acontece com um dos corredores mais vitais para a economia global.

Pesquisa aponta rejeição popular nos EUA à guerra contra o Irã

Enquanto assessores do presidente Donald Trump pressionam nos bastidores da Casa Branca pelo encerramento das operações militares contra o Irã, uma pesquisa nacional encomendada pela Reuters em parceria com o Ipsos revela que a ofensiva divide — e majoritariamente desagrada — a população americana. Os dados, concluídos no domingo (1º/03) e a estratégia interna divulgada pelo Wall Street Journal na segunda-feira (9), pintam um quadro de crescente resistência doméstica à escalada bélica no Oriente Médio.

O levantamento mostra que apenas 27% dos americanos endossam os ataques conduzidos conjuntamente por Washington e Tel Aviv que resultaram na morte do líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei. Do lado oposto, 43% rejeitam a ofensiva, e outros 29% não têm posição definida. A operação é amplamente conhecida: aproximadamente 90% dos entrevistados afirmaram ter ouvido falar, ao menos em parte, sobre os bombardeios iniciados na madrugada de 28 de fevereiro.

Republicanos também questionam Trump

O desconforto com a postura beligerante do presidente não se restringe ao campo progressista. Metade dos americanos — incluindo um em cada quatro eleitores do próprio partido de Trump — considera que o presidente recorre ao poder militar com disposição excessiva. Entre os democratas, a oposição à guerra beira o consenso: 74% desaprovam os ataques, ante apenas 7% favoráveis.

Economia como fator decisivo

A sensibilidade econômica pode ser o calcanhar de Aquiles da campanha militar. Cerca de 45% dos entrevistados disseram que reduziriam seu apoio às operações caso os preços do petróleo e da gasolina subissem nos Estados Unidos — percentual que inclui 34% dos republicanos e 44% dos eleitores independentes, grupo historicamente decisivo nas urnas americanas.

Aprovação de Trump recua

O conflito também deixa marca nos índices de popularidade presidencial. A taxa de aprovação de Donald Trump registrou queda de um ponto percentual em relação à pesquisa anterior da Reuters/Ipsos, realizada entre 18 e 23 de fevereiro, e agora marca 39% — sinal de que a guerra pode estar corroendo, ainda que gradualmente, o capital político do presidente no país.

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