HOME > Mundo

Trump recua em tarifas porque mira terras raras do Brasil, avalia Ian Bremmer

Presidente do Eurasia Group diz que Trump suavizou pressão após perceber dependência de insumos brasileiros e afirma que Xi Jinping é mais poderoso

Lula e Trump (Foto: Ricardo Stuckert)

247 - A mudança recente de tom do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em relação ao Brasil tem menos relação com disputas eleitorais e mais conexão com interesses estratégicos ligados a comércio e recursos naturais. A avaliação é do cientista político Ian Bremmer, fundador e presidente do Eurasia Group, ao comentar o recuo de Washington após anunciar tarifas sobre produtos brasileiros e sinalizar disposição para diálogo com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A análise foi feita em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, na qual Bremmer afirmou que a postura inicial de confronto parecia indicar uma escalada de sanções, mas que Trump passou a tratar o Brasil com maior cautela ao perceber a importância do país como fornecedor de matérias-primas críticas. Entre elas, destacam-se minerais de terras raras, insumos estratégicos para a indústria de tecnologia e defesa.

Segundo Bremmer, Trump abrandou sua ofensiva comercial ao concluir que os Estados Unidos podem precisar mais do Brasil do que ele imaginava. A expectativa é que essa reavaliação tenha peso decisivo no encontro já previsto entre Lula e Trump, marcado para a primeira quinzena de março, em Washington.

“Parecia que a eleição seria realmente muito importante. Mas, então, Trump desistiu das sanções e recuou em relação a algumas dessas tarifas. E o motivo é que ele, de repente, percebeu que o Brasil tem alguns dos depósitos mais importantes de terras raras do mundo. Trump ficou muito mais receptivo a conversar diretamente com Lula”, afirmou Bremmer.

Brasil como peça estratégica 

Na leitura do analista, o Brasil ocupa um lugar singular dentro da estratégia do presidente dos Estados Unidos para a América Latina. Apesar de Trump adotar uma linha agressiva em relação a governos da região, Bremmer acredita que, quando o assunto é Brasil, a lógica muda porque envolve diretamente interesses econômicos e industriais norte-americanos.

Ele aponta que a imposição de tarifas foi seguida por uma percepção pragmática em Washington: a economia dos EUA pode depender mais dos insumos brasileiros do que a Casa Branca calculava inicialmente. O recuo, portanto, seria motivado por necessidade e não por afinidade política.

Essa avaliação aparece de forma explícita quando Bremmer analisa o impacto das terras raras na política comercial norte-americana. Para ele, o presidente dos Estados Unidos percebeu que o país não pode se dar ao luxo de tensionar excessivamente a relação com um fornecedor estratégico em meio à disputa global por minerais críticos.

Além disso, Bremmer observa que Trump tem demonstrado preocupação com pressões internas nos EUA, sobretudo relacionadas ao custo de vida, o que reforçaria a busca por estabilidade no fornecimento de commodities e matérias-primas.

“E também que o custo de vida nos Estados Unidos está se tornando um problema político e ele quer que o preço das commodities diminua. Por essas razões, Trump ficou muito mais receptivo a conversar diretamente com Lula e até mesmo a criar uma cúpula”, disse.

Aproximação com Lula

Bremmer afirma que o encontro entre Trump e Lula tende a ocorrer em um ambiente mais favorável do que se imaginava semanas antes. Para ele, a eleição brasileira parecia inicialmente um elemento central no cálculo do presidente dos Estados Unidos, dado o histórico de proximidade com Jair Bolsonaro. No entanto, essa variável teria perdido espaço para interesses econômicos.

“Acho que vai ser bastante positivo. Nós achávamos que a eleição seria muito importante porque Trump, é claro, é próximo de Bolsonaro, que se autodenomina o Trump dos trópicos. E em 8 de janeiro, Bolsonaro tentou orquestrar um golpe e os brasileiros levaram isso muito mais a sério do que os americanos levaram o 6 de janeiro (de 2021), e depois foi preso”, declarou.

Na sequência, Bremmer reforçou que Trump chegou a usar o tema como justificativa para medidas comerciais contra o Brasil, mas rapidamente alterou sua postura ao perceber o peso estratégico do país.

“Então, mesmo não tendo nada a ver com Lula, o presidente Trump decidiu que iria usar isso como motivo para punir os brasileiros e anunciar tarifas contra o Brasil. Mas, então, Trump desistiu das sanções e recuou em relação a algumas dessas tarifas. E o motivo é que Trump, de repente, percebeu que o Brasil tem alguns dos depósitos mais importantes de terras raras do mundo”, afirmou.

Para o analista, esse movimento indica que Trump não está disposto a sacrificar interesses econômicos e estratégicos em nome de disputas ideológicas ou eleitorais, ao menos no caso brasileiro.

“Trata-se muito mais do fato de que o Brasil tem uma influência importante ao trabalhar com os americanos no comércio. Não tenho dúvidas de que Bolsonaro seria um resultado preferível para Trump. Mas não vejo isso como o principal fator que impulsiona a natureza da relação no momento”, completou.

Eleições não são prioridade de Trump no caso brasileiro

Ao contrário do que ocorreu em outras partes do mundo, Bremmer argumenta que Trump não parece empenhado em interferir ou influenciar diretamente o cenário político brasileiro, ao menos por ora. Para ele, o presidente dos Estados Unidos já atuou de forma mais clara em outras eleições recentes.

“Não acho que a eleição (brasileira) seja tão importante para Trump quanto outras eleições recentes em todo o mundo. Houve algumas eleições em que Trump realmente influenciou a balança a favor de um líder individual. Vemos isso com (Viktor) Orbán na Hungria, e Sanae Takaichi no Japão. Não é que ele não se importe, mas, surpreendentemente, parece que Trump não está fazendo isso com o Brasil”, afirmou.

A lógica do “America First”

Bremmer avalia que o slogan “America First”, adotado pelo presidente dos Estados Unidos, não deve ser interpretado como uma política de integração hemisférica, mas sim como uma doutrina voltada para a projeção de poder norte-americano sobre seus vizinhos.

“A abordagem ‘America First’ de Donald Trump refere-se aos Estados Unidos e não às Américas como um todo. Obviamente não é surpreendente que muitos líderes estejam, no mínimo, desconfortáveis, especialmente com a priorização do local não como uma região que Trump deseja apoiar, mas sim como uma região sobre a qual ele deseja ter controle”, afirmou.

Ele acrescentou que alguns governos latino-americanos sentem que não têm alternativas reais diante do peso político e econômico dos EUA.

“O México e a maior parte da América Central decidiram que os EUA são tão poderosos e tão importantes na relação que eles não podem se proteger com nenhum outro país. Então eles vão fazer tudo o que puderem para ter uma relação bilateral mais confortável e mais estável com Trump”, disse.

Ainda assim, Bremmer observa que, apesar da inquietação, existe um nível de alinhamento maior na América Latina do que em outras regiões, como Europa e Canadá.

“Vejo muita inquietação quando converso com líderes governamentais da América Latina sobre o presidente americano, suas políticas e sua execução. Mas, por outro lado, vejo muito mais alinhamento do que vemos com o Canadá ou com os europeus, por exemplo”, declarou.

Xi Jinping como líder mais poderoso que Trump

Em um dos trechos mais contundentes da entrevista, Bremmer afirmou que, embora os Estados Unidos sejam o país mais poderoso do mundo, Trump não ocupa a posição de líder mais influente do planeta. Para ele, esse papel pertence ao presidente da China, Xi Jinping. 

“Trump não é o presidente mais poderoso. Xi Jinping é o presidente mais poderoso. Ele não tem freios e contrapesos. Ele está lá para o resto da vida. E pode implementar políticas nas quais você pode confiar por muitos anos, quer você goste delas ou não”, afirmou Bremmer.

O cientista político destacou que essa diferença estrutural torna a política externa dos EUA mais imprevisível para parceiros internacionais, já que mudanças de governo podem alterar drasticamente prioridades e diretrizes.

“Nos Estados Unidos, a cada eleição, você tem um conjunto completamente novo de políticas e prioridades vindas de pessoas diferentes. Então, é importante, ao pensarmos no longo prazo para os líderes e governos latino-americanos, que eles estejam navegando não apenas por essa repentina onda de ações unilateralistas de Trump, mas também pela realidade de que as coisas provavelmente mudarão muito no futuro”, disse.

Acordo nuclear com a Rússia 

Bremmer também analisou o impasse em torno do pacto nuclear entre Estados Unidos e Rússia. Segundo ele, o acordo está suspenso e isso pode abrir espaço para uma nova escalada armamentista.

“Neste momento está basicamente suspenso. E isso pode muito bem levar os americanos a começarem a testar armas nucleares novamente”, afirmou.

Para Bremmer, o principal risco é a entrada da China como potência nuclear em expansão, já que Pequim não participa do acordo firmado entre Washington e Moscou.

“Acho que a questão mais importante é que os chineses estão agora construindo as suas próprias capacidades nucleares e não fazem parte do acordo. E eles vão, provavelmente dentro de 5 anos, ter o potencial global em armas nucleares que os americanos e os russos têm”, declarou.

Ele acrescentou que outros países também discutem a possibilidade de desenvolver ou reforçar suas capacidades nucleares diante da percepção de instabilidade internacional.

“Há outros países que agora acham que é mais útil para eles desenvolverem capacidades nucleares. Vemos os alemães e os poloneses preocupados por não terem atualmente a proteção da França ou do Reino Unido. Sua proteção nuclear vem dos EUA, e eles não sentem que podem confiar nela da mesma forma”, afirmou.

Defesa nuclear europeia

Questionado sobre a possibilidade de uma defesa nuclear europeia independente, Bremmer disse que a discussão já está em andamento, ainda que sem consenso. Ele destacou que países como Alemanha e Polônia consideram alternativas caso os EUA reduzam seu compromisso com a Otan.

“É por isso que os governos alemão e polonês estão discutindo a possibilidade de precisar de armas europeias, como armas francesas e britânicas, que poderiam ser estacionadas em seu próprio território. Não há acordo sobre isso neste momento, mas é uma discussão”, afirmou.

O analista considera que esse movimento decorre da percepção de fragilidade da arquitetura atual de segurança, especialmente se Washington se afastar da aliança militar.

“Parece certo agora, olhando para o que Trump fez e disse, que os Estados Unidos estão se afastando de seus compromissos históricos com a Otan”, declarou.

Crise institucional nos EUA

Ao avaliar se as eleições de meio de mandato poderiam moderar Trump, Bremmer disse não acreditar em mudança de comportamento. Segundo ele, o presidente dos Estados Unidos tende a intensificar ações e confrontos políticos internos.

“Não acho que isso vai moderar suas ações. Trump acredita que as eleições foram fraudadas contra ele e, por isso, agora ele está tomando medidas adicionais contra os mecanismos eleitorais. Esse é claramente um comportamento sem precedentes”, afirmou.

Ele também disse ver sinais de desgaste político dentro do próprio Partido Republicano, com aumento de críticas internas a episódios recentes.

“Nas últimas quatro semanas, vi várias ocasiões em que Trump fez coisas que provocaram uma oposição significativa de alto nível dentro de seu próprio partido”, declarou.

Bremmer concluiu que Trump pode dobrar suas apostas à medida que enfrenta resistência, o que pode gerar instabilidade institucional.

“Então eu acho que Trump está começando a fracassar e, à medida que fracassa, ele dobra a aposta. Isso pode significar uma situação insustentável e que não vai durar muito tempo, ou pode significar que estamos caminhando para uma crise constitucional. No fim das contas, não acho que Trump vai ter sucesso na revolução política que está tentando promover nos Estados Unidos.”

Artigos Relacionados