Vance e Rubio expõem diferenças sobre Irã e Israel
Vice-presidente e secretário de Estado adotam tons distintos sobre Irã e Israel, apesar de Casa Branca negar divisões no governo Trump
247 - O vice-presidente dos EUA, JD Vance, e o secretário de Estado Marco Rubio adotaram tons distintos sobre Irã e Israel nos últimos dias, apesar dos esforços da Casa Branca para afirmar que o governo do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mantém uma posição unificada em política externa.
Segundo reportagem da Reuters, as diferenças apareceram especialmente na forma como os dois integrantes do alto escalão norte-americano trataram a atuação militar de Israel no Líbano e os esforços diplomáticos dos Estados Unidos para consolidar um acordo preliminar com o Irã.
Vance, em declarações feitas na Casa Branca na semana passada, criticou setores israelenses contrários ao entendimento preliminar firmado entre Washington e Teerã. O vice-presidente sugeriu que os bombardeios israelenses contra infraestrutura civil em Beirute, realizados sob o argumento de enfraquecer o Hezbollah, estariam dificultando as iniciativas de paz lideradas pelos Estados Unidos.
Rubio, por outro lado, adotou postura mais alinhada à defesa das ações militares israelenses. Durante viagem pelo Golfo, o secretário de Estado afirmou repetidamente que Israel tem direito de se defender dos ataques do Hezbollah. Questionado sobre as críticas feitas por Vance, ele evitou confrontar diretamente o vice-presidente e mencionou um ataque recente da milícia libanesa contra um posto de controle israelense.
O contraste entre as declarações expõe tensões dentro da coalizão republicana em torno da política externa, ainda que a Casa Branca tente projetar unidade. Vance e Rubio são vistos como possíveis nomes do Partido Republicano para a eleição presidencial de 2028 e representam correntes diferentes dentro da legenda.
O vice-presidente tem histórico de críticas às guerras externas dos Estados Unidos, frequentemente apontadas por ele como custosas em vidas e recursos. Rubio, por sua vez, construiu sua trajetória no Senado com posições consideradas mais duras em relação a países como Irã, Rússia e Cuba.
Na semana passada, os dois foram enviados a missões diplomáticas de alto nível para defender o acordo preliminar assinado por Washington e Teerã em 17 de junho. Vance viajou à Suíça para uma rodada de conversas com autoridades iranianas e adotou tom otimista sobre o andamento das negociações. Ele também mencionou, nas últimas semanas, a possibilidade de países do Golfo financiarem a reconstrução do Irã.
Em entrevista divulgada na quinta-feira (25), Vance revelou ainda que os Estados Unidos haviam convidado um funcionário da inteligência iraniana para atuar como ligação de redução de riscos junto ao Pentágono no Catar, em sinal de uma possível relação mais cooperativa entre Washington e Teerã.
Rubio, por sua vez, esteve nos Emirados Árabes Unidos, no Kuwait e no Bahrein para tranquilizar aliados regionais preocupados com a possibilidade de o acordo interino entre Estados Unidos e Irã ser excessivamente favorável a Teerã. Na terça-feira, ele afirmou que não pediria aos países do Golfo que financiassem a reconstrução iraniana, classificando essa hipótese como algo ainda distante.
Durante uma reunião com autoridades regionais na quinta-feira, Rubio ressaltou que qualquer entendimento com o Irã precisaria proteger de forma rigorosa os interesses dos Estados Unidos e de seus aliados. “Embora queiramos um acordo, não queremos um acordo a qualquer preço”, afirmou.
A Casa Branca negou de forma enfática a existência de divergências entre os dois integrantes do governo. “Há um único campo — o campo do presidente Trump — e toda a administração está totalmente por trás dos esforços do presidente para garantir que o Irã jamais possa possuir uma arma nuclear”, disse a porta-voz Anna Kelly.
O porta-voz do Departamento de Estado, Tommy Pigott, também rejeitou a ideia de divisões internas na política externa. Segundo ele, a narrativa sobre diferenças entre Rubio e Vance é “cansada e falsa”. “Toda a administração está 100% alinhada com o presidente Trump”, afirmou.
Outro porta-voz do Departamento de Estado declarou que não há divergência entre os dois sobre o Líbano e sustentou que o objetivo do governo norte-americano é restaurar a soberania do governo libanês sobre todo o território do país.
Analistas, porém, veem sinais de visões distintas dentro da administração. Michael Rubin, pesquisador sênior do American Enterprise Institute, afirmou à Reuters que Rubio e Vance representam correntes diferentes. “No fundo, eles representam linhagens diferentes”, disse.
A divisão reflete um debate mais amplo dentro do Partido Republicano. De um lado estão setores neoconservadores, mais favoráveis à intervenção externa. De outro, eleitores e formuladores de política que consideram muitas guerras recentes como caras, imprudentes e prejudiciais aos interesses dos Estados Unidos.
Uma pesquisa Reuters/Ipsos encerrada na segunda-feira mostrou que apenas 52% dos republicanos acreditam que o conflito atual colocou os Estados Unidos em uma posição mais forte, sinalizando uma base partidária dividida sobre o tema.
Apesar das diferenças de trajetória, Rubio e Vance apoiaram as principais decisões de política externa de Donald Trump, incluindo o ataque ao Irã em fevereiro e a posterior decisão de buscar uma negociação de paz. Ambos também vêm repetindo que Washington avaliará Teerã por suas ações, e não por suas palavras, durante o processo diplomático.
Questionado na quinta-feira sobre em que medida suas opiniões sobre o Irã diferem das de Vance, Rubio afirmou que ambos seguem a orientação do presidente. “Todos aqui estão alinhados com o presidente”, declarou.



