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Zohran Mamdani critica guerra de Trump contra o Irã e cobra guinada social do Partido Democrata

Prefeito de Nova York defende taxação dos super-ricos, investimento em creches e moradia, condena o conflito no Irã e alerta para o avanço da islamofobia

Zohran Mamdani, 25 de janeiro de 2026 (Foto: REUTERS/Bing Guan)

247 – O prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, afirmou que a guerra conduzida pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra o Irã é moralmente inaceitável, aprofunda a desumanização dos muçulmanos e drena recursos que poderiam ser usados para melhorar a vida da classe trabalhadora. Em entrevista à Al Jazeera, em seu primeiro grande balanço após 100 dias à frente da prefeitura, Mamdani também defendeu a taxação dos mais ricos, criticou a concentração de poder econômico e midiático e disse que o Partido Democrata precisa voltar a colocar os trabalhadores no centro da política.

Na conversa, concedida ao programa Talk to Al Jazeera, Mamdani apresentou sua gestão como uma tentativa de combinar medidas estruturais, como a ampliação do acesso à creche, com respostas concretas a problemas cotidianos, como os buracos nas ruas. Ao mesmo tempo, traçou uma crítica ampla ao modelo político e econômico dos Estados Unidos, sustentando que a democracia perde força quando se torna incapaz de responder às necessidades materiais da população.

Balanço dos primeiros 100 dias

Aos 34 anos, primeiro prefeito muçulmano da história de Nova York, Mamdani disse encarar a marca dos 100 dias não como armadilha política, mas como oportunidade para demonstrar o rumo de seu mandato. Segundo ele, sua administração busca operar a partir de uma lógica simples: nenhuma tarefa é grande demais, nenhum problema é pequeno demais.

Nesse contexto, destacou dois marcos de sua gestão. O primeiro foi um acordo de US$ 1,2 bilhão com o governo estadual para abrir caminho a uma política de creche universal. O segundo foi o preenchimento de 100 mil buracos nas ruas da cidade em menos de 100 dias.

Ao justificar a prioridade dada à educação infantil, Mamdani ressaltou que Nova York reúne riqueza extrema e pobreza em larga escala. Segundo ele, uma em cada quatro pessoas na cidade vive na pobreza, e, depois da moradia, o custo da creche é um dos principais fatores que empurram famílias para fora do município.

Em uma das declarações centrais da entrevista, afirmou: “Quando perguntamos como podemos tornar mais fácil criar um filho na cidade, a resposta sempre volta à creche, porque ela custa a uma família cerca de US$ 20 mil por ano por criança. E, quando você torna isso gratuito, transforma o que é possível na cidade.”

O plano apresentado por sua gestão prevê 2 mil vagas gratuitas para crianças de 2 anos ainda neste ano, 12 mil no próximo e, ao final de quatro anos, uma vaga para cada criança dessa faixa etária na cidade. Mamdani reconheceu que o número inicial é limitado, mas argumentou que a construção da infraestrutura necessária não pode ser instantânea. Segundo ele, trata-se de erguer um sistema duradouro, apoiado em novas relações entre prefeitura, prestadores de serviço e diferentes modelos de atendimento.

“Socialismo da calçada” e a reconstrução da confiança

Ao comentar o preenchimento de 100 mil buracos, Mamdani tratou o feito como símbolo de uma concepção mais ampla de governo. Ele atribuiu o resultado ao funcionalismo municipal e exaltou o papel dos mais de 300 mil trabalhadores da cidade.

“Temos aqui em Nova York um ingrediente secreto, que é a nossa força de trabalho municipal”, disse. Em seguida, acrescentou que esses servidores são “o coração pulsante de tudo o que foi impressionante nesses últimos 100 dias”.

Mamdani argumentou que pequenas intervenções urbanas têm impacto político profundo. Na visão dele, a população só pode voltar a acreditar em propostas transformadoras se o poder público demonstrar capacidade de resolver também os problemas mais imediatos do cotidiano.

Foi nesse ponto que ele recuperou uma formulação política marcante. “Para entregar a parte mais expansiva da sua visão, comece pelas coisas que estão fazendo as pessoas perderem a fé”, afirmou. Em seguida, associou essa linha ao que chamou de uma atualização do antigo “socialismo do esgoto”, definindo-a como uma espécie de “socialismo da calçada”.

A lógica, segundo o prefeito, é simples: quem enfrenta o mesmo buraco todos os dias dificilmente confiará num governo que prometa projetos ambiciosos como creche universal, transporte gratuito ou ampla expansão habitacional, se não for capaz de resolver o básico.

Crise fiscal e defesa da taxação dos super-ricos

Se, por um lado, Mamdani apresentou números de execução administrativa, por outro reconheceu o peso da crise fiscal da cidade. Ele classificou o rombo nas contas públicas como a maior deficiência orçamentária desde a grande recessão, observando que o déficit chegou a US$ 5,4 bilhões.

Segundo ele, a saída não pode recair sobre trabalhadores e setores médios, mas sobre os mais ricos e as corporações mais lucrativas. Ao ser confrontado com a crítica de que isso seria uma “guerra contra a riqueza”, respondeu sem hesitar.

“Estamos falando de aumentar em 2% o imposto de renda pessoal sobre nova-iorquinos que ganham US$ 1 milhão ou mais por ano”, afirmou. E completou: “Estamos falando das corporações mais lucrativas. Não é alguém que ganha US$ 100 mil, 200 mil ou 300 mil por ano, nem um pequeno negócio que está apenas tentando sobreviver.”

Para Mamdani, esse ajuste é necessário para garantir serviços públicos de padrão elevado em uma cidade igualmente marcada pela concentração extrema de renda. Sua preocupação central, disse, é impedir que o custo da crise seja jogado sobre as costas da classe trabalhadora.

Na entrevista, ele também comentou um dado alarmante divulgado por sua gestão: 62% dos moradores da cidade não recebem renda suficiente para cobrir o custo real de vida. Isso corresponde, segundo afirmou, a cerca de 5 milhões de pessoas.

“Esta é a cidade mais cara dos Estados Unidos”, disse. Em seguida, observou que o debate sobre uma suposta fuga dos ricos em razão de mudanças fiscais ignora um êxodo já em curso: o da classe trabalhadora. “Há um êxodo real de nova-iorquinos da classe trabalhadora que vem ocorrendo há anos”, declarou.

Moradia cara expulsa trabalhadores de Nova York

Ao aprofundar esse diagnóstico, Mamdani citou o impacto da crise do custo de vida sobre enfermeiros, profissionais de saúde, socorristas, policiais e bombeiros. Segundo ele, a cidade está expulsando justamente aqueles que a mantêm funcionando.

Em um dos trechos mais concretos da entrevista, relatou uma conversa com uma enfermeira que conheceu quando ia tomar vacinas para alergia. Segundo ele, ao perguntar como estava o dia dela, ouviu que o turno ainda não havia terminado porque ainda havia a longa volta para casa.

A profissional, relatou Mamdani, levava duas horas para retornar e morava fora do estado de Nova York, devido ao alto custo dos aluguéis. O prefeito afirmou que há trabalhadores vivendo em Connecticut, Jersey City e até na Pensilvânia porque já não conseguem pagar moradia dentro da cidade.

Sua conclusão foi contundente: se nada for feito, Nova York corre o risco de se transformar em “um museu de um lugar onde as pessoas da classe trabalhadora já puderam viver”. O objetivo de sua gestão, disse, é fazer da cidade uma prova viva de que trabalhadores não apenas constroem Nova York, mas podem também continuar vivendo nela.

Relação com o governo estadual e diálogo com Trump

Mamdani afirmou estar encorajado pelas conversas com o governo do estado de Nova York. Segundo ele, o relacionamento com a governadora é mais produtivo do que em gestões anteriores e já resultou em compromissos importantes para a saúde fiscal da cidade e para o plano de creche universal.

Ao tratar da relação com Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, o prefeito adotou tom pragmático. Disse que as conversas com o presidente têm sido produtivas, embora marcadas por divergências profundas. Sua obrigação como prefeito, afirmou, não é concordar com Trump, mas defender os interesses de Nova York.

Mamdani revelou ter apresentado ao presidente um plano habitacional que poderá viabilizar 12 mil moradias no Queens, no que descreveu como o maior projeto do tipo desde meados dos anos 1970. Segundo ele, a iniciativa poderia gerar mais de 30 mil empregos.

Mas ressaltou que os encontros não se limitam à cooperação administrativa. Na mesma reunião, disse ter deixado clara sua oposição às batidas da agência de imigração ICE, que classificou como cruéis e desumanas. Relatou ainda que, na manhã daquele encontro, uma estudante da Universidade Columbia havia sido detida.

De acordo com Mamdani, após a conversa no Salão Oval, Trump ligou 30 minutos depois e informou ter decidido libertar a estudante. O prefeito acrescentou que outros dois casos também avançaram favoravelmente.

“Minha oposição a esta guerra é moral”

A parte mais dura da entrevista veio quando o tema passou à guerra contra o Irã. Mamdani foi direto ao afirmar que se opõe profundamente ao conflito.

“Deixei clara minha oposição muito profunda a esta guerra no Irã”, afirmou. Em seguida, acrescentou: “É uma oposição não apenas de natureza processual ou política, mas, francamente, de natureza moral.”

Segundo ele, trata-se de uma guerra que já matou milhares de civis, é profundamente impopular em Nova York e em todo o país, e consome dezenas de bilhões de dólares que poderiam ser usados para melhorar a vida da população.

Em outra fala de forte impacto, declarou: “Estamos vendo dezenas de bilhões de dólares sendo usados para matar pessoas. Dinheiro que poderia, de outro modo, ser gasto para tornar a vida mais fácil para as pessoas nesta cidade e neste país.”

Mamdani observou que muitas das políticas que costuma defender para trabalhadores nova-iorquinos são tratadas como impossíveis ou irreais, embora custem apenas uma fração do que está sendo gasto na guerra. Ao ser perguntado se isso o frustrava, respondeu que essa indignação deveria ser de toda a sociedade.

Foi então que recorreu a uma referência cultural para sintetizar seu argumento. “Tupac disse isso décadas atrás, e continua sendo verdade: sempre parece haver dinheiro para a guerra, mas não para alimentar os pobres”, afirmou.

Guerra, islamofobia e desumanização

Mamdani também ligou diretamente o conflito no Irã ao crescimento da islamofobia e do racismo antimuçulmano nos Estados Unidos. Disse ter ficado devastado ao conversar com uma jovem muçulmana atacada em uma plataforma de metrô.

Segundo seu relato, antes de jogá-la no chão, o agressor disse: “Quero saber quantos iranianos matamos hoje.” Para o prefeito, esse episódio mostra como a lógica de guerra ultrapassa o campo militar e se infiltra no cotidiano, legitimando novas formas de violência.

“Essa é a desumanização que estamos permitindo proliferar em nosso país”, declarou.

Ao refletir sobre a origem desse ambiente, Mamdani mencionou a ascensão da desinformação, da histeria alimentada pelos algoritmos das redes sociais e do incentivo político à intolerância. Destacou ainda que esse tipo de preconceito não está restrito a um único partido.

“Permitimos que esse tipo de intolerância permeasse toda a nossa política”, afirmou. E foi além: “Houve gente demais que tentou caracterizar a adesão a essa intolerância como se fosse a adesão a um tipo de política realista e necessária.”

O prefeito disse não permitir que isso o distraia do trabalho, mas admitiu que o problema se tornou parte estruturante do cenário político contemporâneo. Ainda assim, reforçou que a maioria dos nova-iorquinos não compartilha dessa visão.

O futuro do Partido Democrata

Questionado sobre os rumos do Partido Democrata, Mamdani evitou se apresentar como modelo acabado, mas ofereceu um diagnóstico claro: a única maioria real nos Estados Unidos é a classe trabalhadora.

“A única maioria real neste país e nesta cidade é a da classe trabalhadora”, disse. Segundo ele, trabalhadores nova-iorquinos e trabalhadores norte-americanos não se reconhecem no centro da política institucional, apesar de enfrentarem problemas semelhantes relacionados à moradia, à creche e ao transporte.

Para o prefeito, o partido precisa voltar a apresentar um projeto positivo, ambicioso e conectado às necessidades materiais da população, em vez de se limitar a uma postura reativa.

Ao lembrar a relação entre Fiorello LaGuardia e Franklin D. Roosevelt no período do New Deal, afirmou que a legenda precisa reencontrar a ousadia que já teve no passado. “Precisamos garantir que este seja um Partido Democrata que não precise olhar para os livros de história para encontrar um senso de ambição à altura da escala da crise”, declarou.

E concluiu com uma formulação que resume sua cobrança: “Um partido que finalmente possa olhar para os trabalhadores americanos em dificuldade e dizer: ‘Nós realmente temos algo pelo que estamos lutando, não apenas algo contra o que estamos lutando’.”

Crítica à concentração midiática e ao poder corporativo

No trecho final da entrevista, Mamdani comentou a crescente concentração da propriedade dos meios de comunicação e o acúmulo de poder nas mãos de grandes grupos econômicos e tecnológicos. Embora não tenha entrado em detalhes setoriais, disse que qualquer consolidação corporativa excessiva é motivo de preocupação.

Segundo ele, esse processo não aparece apenas na mídia, mas em vários campos da vida econômica, comprimindo a concorrência, limitando opções para os cidadãos e empurrando pequenos negócios para as margens do mercado.

Para Mamdani, o país precisa atribuir significado mais concreto à palavra democracia. Em sua avaliação, a fé popular no regime democrático não diminui porque as pessoas deixaram de considerar a democracia importante em tese, mas porque se cansaram de sofrer materialmente sem resposta.

Em uma das reflexões finais mais fortes da entrevista, afirmou que muitos se desiludem com a política porque a veem como irrelevante diante das lutas concretas da vida cotidiana. O desafio de seu governo, disse, é construir uma prefeitura que as pessoas possam olhar e reconhecer como uma instituição que se importa com elas e entrega resultados reais.

A entrevista deixa claro que Mamdani tenta se projetar não apenas como gestor municipal, mas como uma voz de enfrentamento à austeridade, ao militarismo e à erosão social nos Estados Unidos. Ao defender creche universal, taxação dos super-ricos, mais moradia e resistência à guerra de Trump contra o Irã, o prefeito de Nova York também lança uma mensagem mais ampla ao Partido Democrata: sem uma agenda material para a classe trabalhadora, a política institucional seguirá perdendo legitimidade.

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